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A VIDA É DOCE DEPOIS DA MEIA NOITE

 
  

                                                                        “É claro que amanhã fará um dia bonito

                                                                                  - Mas vocês terão que madrugar”

                                                                                                                 Virginia Woolf

 

Há um comichão que me arrefece até os ossos: a vida na madrugada. Decerto que a noite é suave, não apenas o S. Fitzgerald, mas também compartilho de tal usufruto. A vida é doce depois da meia noite. Experimente esgueirar-se na janela do teu quarto: a lua que me observa e furta meu sono exige admiração em dobro. Os ventos; ah, os ventos, estes traduzem a suavidade da noite. Ainda por cima quando a temperatura está amena; então, com o rosto exposto na janela ou mesmo estirado na cama sinto o vento tépido que percorre toda a extensão do meu corpo, assim, sem pudor lambe meus cabelos, vento bom; meus pulmões ficam esotéricos; um trago igualmente estupendo: se sopra vento, poeira-estrela: constrói o universo de Carl Sagan.

 

A madrugada, deveras, nos diz um pouco do que somos. O silêncio que ecoa irrefletido em mim um vazio e o nada que se encontra com o infinito.  O pôr de movimento de cabeça para cima e pronto: um céu multicolorido de nuanças azuis com um brilho rotineiro: um rincão indecifrável. As estrelas e seu colorido monótono perseguindo a existência como primeira manifestação a causa, porém, alheio. Fazer o usucapião da noite é tornar-se poeta do submundo. Sentir também a necessidade de embarcar no trem de Céline.

 

É imprescindível destacar também o lugar-comum; claro, todos sabem que a noite guarda seus mistérios. Realizo a busco do meu como no mito de sísifo. Uma querela a cada bocejo que se reafirma com a minha peleja de não dormir. Um novo round. Se a noite é uma criança: a criança nos fascina se pelos seus questionamentos, igualmente pela sua pureza que é freqüentemente redundante. Meu mistério mor reside aí na pedra de Proust, meu benfazejo de filósofo: aquele segundo que resiste, aquela noite que teima em cair, aquele mergulho ao impenetrável. A solidão bem sei que é engodo ao dia, tens com a noite o seu ápice. O enlevo do não dito: como pertencer a si só na escuridão que o domina, e basta. Um “beber-se a si próprio sem sede”.

 

As nuvens flanando a cobrir a lua de forma esporádica. Ainda estou lá, mesmo que hesitante; São Jorge na terra. Um trago de outra coisa far-me-á ainda melhor tanto para dormir quanto permanecer acordado. Faço a corruptela de Rimbaud: noite, sei saudar a beleza.  A vigília do tempo é a descoberta filosófica da nossa importância: tentem! O céu concomitante com a noite exerce este fascínio indescritível sobre mim. A noite, por sua vez, é meu refúgio: não clamo por ela, ela há de vir até mim: a noite é uma deusa: salve Nuitsauver Nyx! Salvare Lilith! Hieros gamos é minha ambição mais profunda e irreal, a mais viva. Um prazer cabalístico. Meu sacerdócio sufi. Calo-me! Pacientar é sentir o burburinho da noite que vem de dentro.

 

Apenas Proust não me deixa sair incólume da vida. Sinto de tal modo à noite dentro de mim. Um tempo incessante, e um Brás Cubas que me recomenda carregar um relógio na algibeira para estar ciente da hora exata quando fenecer. Tomo um susto, estou atônito, e: meio dia! Meio dia, não! Durmo com a noite que me tragou dentro dela e me fez perder em sono. O corolário é que me impacienta: a conseqüente falta de vigor, o desânimo, o riso que, de tenro, me escapa...

 

Que a noite nos reserva? Reside aí minha contenda ao ponto de não suportar a lucerna que me risca os olhos ao acordar deparando-me com o relógio que decreta: meio dia! Este sim é o meu pesadelo. Já dizia meu amigo Gabo: “deveríamos sonhar mais, e dormir menos”. À noite, do regozijo, também é aquela que me subtrai a manhã. De pensar que serei privado do sol cujo brilho enlouquece-me como os campos ensolarados da Provença francesa enlouqueceu a Van Gogh. O sol da meia noite é o desejo de todo imortal: sim, os poetas não morrem jazem no esquecimento de uns e perpetuam em outros futuros poetas. Da mesma forma privado do 23 de setembro rasgando o dia; o levantar cedo, meu quarto irradiado de luz, o banho gelado e doce pela manhã, o pássaro cantando no quintal... Bem, e amanhã, se amanhecer primavera? A noite tem cheiro de flor...

 

            Raphael Coutinho; em busca das franjas do mar: Itabuna