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À HORA ABSURDA

 
  

 

À meia luz. Meu quarto. Cama descoberta na madrugada. A silhueta das horas em nosso suor. Digitais nos lençóis. No carpete o álibi de nossa culpa. Desculpa ter-lhe encontrado à beira-morte. Sorte é não nos amarmos antes. Pois meus gestos são que afaga e afoga. Passos na rua. Voz miúda distante. Apaga-se. Silêncio de Bergman nas paredes. Gritos de desespero em nossos gestos mudos. Ofegantes. Livros ao chão. Perfume italiano. Etiquetas na maçaneta da porta. Outras formas tuas nos lençóis. Música de fundo. Jazz. Violência na ponta dos dedos. Lábios mordidos. Arroubos da arte tailandesa. Meu deus, o que fiz eu com estas mãos? Como nos afagamos artes marciais. Encontrei-lhe arfando em grunhidos. Às ocultas. Me oculta em parte. Troféu que me identifica. Castra-me por ora. Outro murmúrio de algodão. Rasga-se a seda. Soluços. Ventos na rua. Calmaria momentânea. Silêncio de fim de tarde: “4’33”. Recomeço de agonia. Maratona a dois divisando um mesmo pódio. Recomeço. Cadeira de balanço em exercício. Agonia. Movimentos exaltados. Prenúncio de espasmos. Prenúncio de espasmos cintilantes. Prenúncio de espasmos fugazmente cintilantes. Pressa! O mundo acaba agora. Rápido na hora da morte. A vida nos rouba tempo. Pressa! Há roupa demais neste mundo. Pressa! Num segundo nos amamos. Música improvisada. Febre nas pálpebras. Febre e suor, dizem. Súbito ataque de asma nos Andes. Toda agonia de uma doença pulsante; contestada a todo preço e momento, recusa de instante; consumida nas horas preenchidas do tempo. Virtude de amolecer-se. Êxtase à meia-noite. Grito de alegria desesperada num canto vazio do quarto: Blue in Green. Silêncio pós-amor. Peso do mundo sobre o corpo.  Atlas embriagado. Suspiros na fuga da luz. Beijos imagéticos. Sussurros de ocasião. Águas caíam. Banheiro. Banho. Café. Cigarro cinema. Não é proibido trepar! Sono em cama suada. Boa noite! ouço. Boa noite! respondo. Desembrulhados de amor. Beijos rotina. Cada um para o seu lado cumprindo seus papéis de bons amantes. Atores sociais do acaso. Fato, que é força de improviso. Vento persegue rua lá fora. Sonzinho cá de viés. Som que preenche a noite. Último. Passageiro. Por isso imortal. Perceber é intransferível. Percebes? Poucos movimentos. Persistentes. Braços navegam pelo dorso. Cruza-se na cintura. Aproximam-se imantados. Abraçados no último solo. Charlie Parker: meu deus, como pode se passar despercebido por aquela versão de Summertime...