ANDRÉ CARNEIRO nasceu em Atibaia, Estado de São Paulo, onde vive, escreve, semeia e recebe os amigos.

É poeta e contista premiado (Melhor livro do ano, Câmara Municipal de São Paulo, Machado de Assis, Estado da Guanabara e outros).

Este livro é sua experiência mais íntima e válida no campo da poesia.


Edição "Clube de Poesia"



O ARÚSPICE

 

 

Numa das páginas deste livro que, não por mérito pessoal mas por atenção de seu autor, me cabe prefaciar, diz o poeta André Carneiro:

 

Não importam

os objetos.

 

Mas a verdade é que essa afirmativa é apenas um meio de o poeta se ocultar, ou melhor, de ser insincero sem deixar de ser autêntico, se é que se pode aplicar, no caso, a tese do sr. Adolfo Casais Monteiro sobre Fernando Pessoa. Nada importa a André Carneiro como os objetos que, em suas mãos, são como pombos nas de um mágico. E ele mesmo afirma, neste livro, algumas linhas adiante do trecho já transcrito:

 

Os objetos, calados, simbolos amorfos

do meu domínio.

 

Este é portanto o poeta senhor dos objetos, o dominador das coisas simples, o pesquisador de pormenores do mundo físico, o perscrutador que nos comunica a dosagem de poesia que pode existir numa "tartaruga exata, cibernética"

Não é André Carneiro, na moderna poesia brasileira, o primeiro poeta do mundo físico nem o primeiro cantor dos hábitos da vida profissional e técnica do nosso tempo. Quem não se lembrará, por exemplo, do poema "O Açougue" de Bueno de Rivera? O maior dos


 

poetas de 45 diz:

A mosca como um desejo

entre as carnes e a lâmpada

Mas em Bueno a mosca, a lâmpada e a carne exposta no açougue são recursos com que ilustra a linguagem de seus versos. É verdade que em "Luz do Pântano" ele explora com mais intensidade o vocabulário prosaico e disto é um exemplo gritante o poema "O Ginecologista". Aluizio Medeiros tem um livro chamado "Os Objetos" e nele há um poema sobre "A Maçaneta". "A Piscina" é outro dos títulos do poeta cearense. "A Garrafa" e um exemplo de tenacidade na extração de poesia por meio de considerações em torno de um objeto, como se vê deste trecho:

A garrafa sobre

a prateleira ali

a garrafa cheia

visível intocável.

O que distingue André Carneiro como poeta é principalmente a sua oposição a qualquer solução retórica. A emoção estética que ele busca é essencialmente a da revelação da beleza e do mistério das coisas. Sua poesia — que é de recusa total aos mitos clássicos, as confidências pessoais e a qualquer forma de misticismo começa, sob o aspecto da temática e do léxico, nos dias atuais, e é a celebração do submarino, da nave espacial, do engenho atômico, da radiologia, do robô, da cerâmica esmaltada, do polietileno, da publicidade subliminar e do amor também, mas um amor doméstico e quotidiano com considerações praticas. Mesmo o seu poema para o filho esperado é, afinal, um exame científico e objetivo da situação do nascituro.

Muitos leitores de poesia recusarão a de André Carneiro que, neste novo livro, leva a conseqüências extremas as suas tendências de "Ângulo e Face". Mas, embora


 

descritiva em parte, a poesia de "Espaçopleno" não é prosaica, ou melhor, não é explicativa no sentido em que a prosa o é, não é enumerativa. Se ao prefaciador deste livro fosse permitido pedir, ao leitor, alguma coisa, o seu pedido seria este ler duas vezes cada poema para descobrir — atrás da linguagem inusitada e precisa — uma lírica ternura que se vai desvendando à medida que a leitura vai amaciando a aspereza das palavras ainda não polidas pelo uso poético. Poderá o leitor irritar-se diante desta estrofe:

 

Telequinésia, isótopos,

biônica, cartas Zenner,

cibernética.

 

Mas afinal o que o poeta deseja não é apenas canonizar a técnica moderna: na verdade de ambiciona muito mais, e o que ambiciona lembra-nos a rosa de Carlos Drummond nascida no asfalto. André Carneiro pede

 

Que brote um sorriso

neste túnel, cenário de

sombras mortas.

 

A lírica convencional fala-nos ainda, e exclusiva. mente, de violetas, nuvens, rosas, fontes e girassóis, numa linguagem agrária e florestal, num léxico de jardinagem, no tempo das usinas, das plataformas espaciais e da eletrônica. O autor de "Espaçopleno" bate-se, porém — e de acordo aliás, com a tese de T. S. Eliot — pela incorporação do vocabulário do nosso tempo à poesia de nossa época. Mas, colocando-se na linguagem lírica e da celebração de um futuro que começa nos laboratórios e nas cabinas espaciais, André Carneiro não abjurou a tradição dos poetas, que preferiram sempre o vaticínio à arqueologia: de está entre os arúspices, e não entre os arquivistas.

 

DOMINGOS CARVALHO DA SILVA

S.P., janeiro, 1966


poemas............................................................andré carneiro

produção......................................................álvaro malheiros

planejamento gráfico e

xilogravuras...............................................................luiz dias

impressão...empresa gráfica da "revista dos tribunais" s. a.

supervisão.........................................................bruno di tolla


índice


 

 

índice

 

 

1 — antigamente e hoje

2 — psiquiatria

3 — amor

4 — sonho oceano

5 — atlântico

6 — sangue

7 — pensamento

8 — coisas imorais

9 — quarto secreto

10 — ar

11 — filho

12 — receita

13 — recomeço

14 — raio x

15 — momento

16 — à mesa matinal

17 — o planetário

18 — grito em bloco de vidro

19 — os objetos

20 — aquário

21 — corrida no espaço

22 — retrato da terra

23 — mistério

24 — ficção científica

25 — no bar

26 — o dia final

27 — "trailler"


 

 

 

 

antigamente e hoje


Toca-se um botão,
nasce a tartaruga
exata, cibernética.

 

Euforia vai à fonte
de meprobamato.

Propaganda subliminar,
põe-se gravata
de polietileno.
dentes na clorofila.

 

Agora é fácil,

a morte vem

da estratosfera

nas estrêlas a jato.

 

O mêdo criou asas,
alçou vôo,
cobriu o sol.

 

O cogumelo derrama
a sombra radiante
sôbre o mar.

 

Peixes morrem calados.
Homens resolvem
explosões,
inocentes
e secretas.