| Meiotom - SAÚDE |
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QUALIDADE DE VIDA |
CARLOS ALBERTO PESSOA ROSA |
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Diz a Bíblia: “Para que vivas durante muito tempo sobre a terra!”. Diz Novalis: “A hipocondria deve tornar-se uma arte, ou uma educação”. Pergunta Immanuel Kant: “Por que viver durante muito tempo possui um interesse maior do que viver de boa saúde?”. Receitas do espírito e do corpo para um viver melhor, o mais prolongado possível. Com certeza, “viver depressa e intensamente, morrer jovem e ter um cadáver bonito” não é uma idéia muito atraente. Refletir sobre saúde leva-nos à pergunta: saúde de quem? Do todo, do corpo-alma, logicamente. Qual o ponto de equilíbrio entre a alma e o corpo? Hoje, vivemos situações opostas. De um lado, a compulsão por exercícios físicos; de outro, pelo espiritual. Ouvi outro dia a história de um casal que procurou um terapeuta por desajuste sexual. Eles malhavam tanto na academia que o corpo não conseguia satisfazer a alma. Viver é uma experiência que cada um fará por si, esta é a estética Kantiana. Só a vontade comanda. Portanto, a ciência deve respeitar o doente e não o médico. Em Direito, diríamos da diversidade e da autonomia. A atuação do sujeito passa a ser ativa. Com certeza, muito poucos gostariam de ter sua vida prolongada apenas para serem tolerados pelos vivos. Viver sim, mas com qualidade. A doença é uma casualidade, e “estar bem” não significa estar com saúde. Portanto, somente se pode dizer que se viveu com saúde quando se atinge a velhice. Quanto mais idoso, mais saudável passou pela vida. Esta é a honra maior que a idade nos oferece, “independentemente de fraquezas ou reconhecimento de sabedoria”, conforme nos ensina Kant. A doença seria para o corpo-alma como um alarme e um rompimento da passividade. De onde parti? Para onde vou? Onde deixei meu projeto de vida? Alguns deixam-se ir, com depressão, obstruções vasculares, úlceras etc. Pacientes há que nem discutem a terapêutica, entregam-se passivamente aos homens de branco. Se o desejo de viver não tem mais espaço na alma, que terapêutica resolverá? Tudo se complica quando a relação médico-paciente está doente, piorando ainda mais a terapêutica. Na Antigüidade, conforme relatos de curas praticadas nos templos de Esculápio - muitas das curas davam-se no templo, local onde o doente aguardava “um sonho de cura” -, recorria-se, em caso de doença, a um médico divino e não humano. O motivo é simples compreender: os deuses eram os responsáveis pelas doenças e somente eles podiam curar. “O similar devia curar o similar”. Homeopatia e não alopatia. Asclépio, filho de um deus com um humano, aprende o ofício de curar com outro deus, Chíron, o que trabalha com a mão, daí a palavra chirurgia. Metade homem, metade cavalo, Chíron carrega uma ferida que o acompanhará até o inferno. O que cura está sempre ferido; ferida que não se fecha. Por que trago até vocês fragmentos do texto de C. Jess Groesbeck, “A Imagem Arquetípica do Médico Ferido”? É que através deles o autor nos remete à seguinte pergunta: Quais os elementos da relação médico-paciente que constelam a cura? A primeira resposta é-nos oferecida pela mitologia: se o médico não tiver consciência da própria ferida, não poderá curar. E me parece que a própria ferida é a consciência da morte cuja verdade o médico não pode esconder. Portanto, o médico, antes de sê-lo, deve ser um doente. A segunda resposta é conseqüência da primeira: o paciente não poderá encontrar a cura dentro de si se não encontrar o paciente no interior do médico. O algo interior que curará a ferida é o médico interior do próprio paciente. Portanto, a verdadeira cura somente ocorrerá quando o paciente entrar em contato com o seu “médico interior”. Toda relação de cura envolve um processo de transferência. O fato de o médico ficar bem somente quando o paciente está mal pode explicar a ocorrência das tensões cada vez mais elevadas nas relações médico-paciente e o insucesso dos tratamentos. Estamos diante da lei de Talião: para negar a própria doença eu mantenho o outro com sua ferida (ou invento feridas). Infelizmente, nenhuma tecnologia reverterá o processo; com certeza, não! Algo deve ser feito a fim de que se retirem as projeções mútuas. O médico, pelo menos o bom médico, tem de adquirir sentimentos não-ansiosos em relação à doença que trata. Ele deve ser capaz de mobilizar esperança e qualquer mudança deve ocorrer primeiramente no inconsciente. Adolf Guggenbühl-Craig, em “O Arquétipo do Inválido e os Limites da Cura”, afirma: “Atualmente, apesar do tremendo poder de cura, os médicos estão mais ocupados que nunca. Há dados que indicam que os esforços médicos devem ser dirigidos para as doenças psicossomáticas”. E o que utilizam os milhões de inválidos que caíram na própria armadilha de acreditar que o dinheiro traria a felicidade: Ginseng e cartilagem de tubarão. O que oferecem os médicos: máquinas, viagra e prosac. Mente limpa, bolso cheio e tesão é estar são neste final de milênio. Tratamentos mágicos. A religião também segue a moda. O local do culto deixou de ser um local de reflexão sobre o desejo da carne e da alma para se transformar em um supermercado onde se vende a felicidade por quilo. Que o dinheiro não traz a saúde nos diz a história. Na Corte de Luiz XV, nobres e damas morriam das doenças mais triviais. É no aspecto psicoemocional, reduzido à palavra estresse, que encontramos o segredo de uma boa qualidade de vida. São contrários a ela a pobreza das relações interpessoais, a solidão, a ditadura do sucesso a qualquer preço. Hoje, quem age com desinteresse em favor do outro é visto com desconfiança; a bondade, honestidade e lealdade agonizam. Mas de que adianta toda a minha fala? A busca desesperada por dinheiro, prestígio e poder transformou a sociedade nisso que nos rodeia, um deserto de homens bloqueando a felicidade pessoal de seu vizinho. A cura é o retorno ao equilíbrio do Todo, é a plenitude sexual, erótica, mental e física, do indivíduo e do social. Viver com qualidade, com ação e vontade própria é, portanto, algo individual, subjetivo e intransferível. Qualidade de vida “é o grau de satisfação do indivíduo com sua vida e o grau de controle que exerce sobre ela”. Alcançar qualidade de vida passa por uma aproximação desarmada das outras pessoas e uma maior liberdade na expressão das emoções, boas e más. Somente a receita de uma mudança interior que nos habilite a competir menos e a amar mais conseguirá devolver ao homem a saúde perdida.
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