INDIGNAÇÃO - RUFLANDO - SARN(A)EI!

Um dedo de prosa com Euclides

 

por Marco Aqueiva

 

                                      à prole apavorada

 

Um dia, quando mesmo, Euclides?

viveu-se a ilusão de que a República

bastaria

 

a República, aquela traçada nos gabinetes em letra elegante e seus fardões e
arabescos

chá geléia e torradas?

 

a gente precisa mesmo ver a república para crer

que existe além da compreensão e gagueira do povo

que assistiu bestificado a proclamação da Re

 

púbrica é coisa de passado Providência e crérigo

pra crérigo arribado na existência infatigável

(Repúbrica é pra crérigo cum crérigo, e suas vidas bem auspiciadas)

 

púbrica coisa não é pra cabra

só alguns manelos de paçoca pra não frouxar o ânimo

 

Mas basta dOs transes tão profundamente dramáticos que não deixam traços duradouros.

Aparecem, devastam, torturam; extinguem-se e ficam deslembrados

 

Bastaria um super-homem para nos restituir a glória

Conselheiro para nos restituir a luz

mas se é na luz que nos perdemos

e o sertão é uma invenção de homens miseráveis

e os sertões oscilam entre abstrações inacessíveis

aos profundos citadinos aprofundados nos dédalos inextricáveis

das grandes capitais onde na superdimensão

Bahia é só pra ouvir no tocaCD como Batman

dançando xote só interessa ao itinerário das majors e dos coronéis

 

É este tiro certeiro que nos inventa a escuridão

 

Não, basta, se é na luz que nos perdemos

que resta além de crer e testemunhar a Democracia?

 

Ou será que a democracia

é rápida como a vida

dentro de uma banana madura?

 

Basta, e ria

 

 

Farejei então a voz dele Euclides por Pessoa acaroando:

Só esta democracia nos concedem

Mandatários e seus aspones no Poder de plantão

: submetermo-nos

à sua vontade de domínio por vontade nossa

 

Mais vale assim fazermos

porque só na ilusão de um governo para toda A sociedade

é que a democracia e Sir Neys existem.

 

Que mais dizer, Euclides

(talvez seja preciso mais que Conselheiro

e indignação.)
mais indignação:
http://aqueiva.wordpress.com/

 

MERDA POUCA

de um montículo
de bosta posta pelo próprio homem
que era merda pouca
e onde voejavam moscas varejeiras
tudo virou montanha
ao olhar enviesado e torto do poeta
que não vê poesia
na casa onde se devia legislar
mas é de lá o cheiro de podridão e morte
que contamina a criação


OLHAR

vê-se
a mão de palha no prato vazio
fartura em orgia no excesso no lixo
e o poema a espiar o silêncio de togas e estolas
diante da não partilha

 há um poema espiante
quando a matéria não alcança bocas
em silêncio de revolta parida

e a pergunta!

que rei é esse que chora a fome
debruçado em mesa farta
que rei é esse que declama a falta
debruçado na injustiça
que rei é esse que fala da pobreza
explorando crianças
que rei é esse que fala da miséria
corpo obeso
que rei é esse que carrega uma coroa de ouro
e aceita na cabeça de seu povo uma coroa de espinho
que rei é esse que esqueceu da própria origem?

 

CORRUPTIONE

urubus
cavalgam a carniça
como
os políticos as vísceras dos famintos
e com as garras
dos homens que preconizam a justiça
que sob o efeito do pó branco
e diante das mulheres permissivas da corte
gritam o gozo
antropofágico de corrupto e devasso poema

ENGO( R )DAR

poetizar a vida
é ter a conta no vermelho
mesmo que eu engorde o poema
com o peso da palavra
nenhum milagre de patrimônio ocorrerá
mesmo que o poeta
seja um digníssimo senador da República

 

PENSAMENTO

há um clima de boi gordo no poema
como se ele fosse a fazenda dos senadores da República

Carlos Pessoa Rosa