Nós,
este
pedaço de
espaço...
O escritor belga, Alain
van Kerckhoven, num
breve
ensaio
sobre Borges escreveu
que “nós
somos um
nome, uma
profissão,
um
endereço,
um número
de registros e
outros
números”.
Encarnamos neste universo
cada
partícula,
cada vão
de espaço
que nos
sobra, ou
que nos é
dado preencher,
como uma
corda vibrante emitindo
um grito
sonoro,um
eco do
universo
que fornece o
clamor da
identidade.
O que é essa
identidade ?
talvez, uma
sucessão de
fatos que
seguem em
seus erros
e acertos,
como na
gênese de Morel (Lazarus),
personagem onírico do
universo “borgiano”,
em seu
espetacular
livro
“História Universal da
Infâmia”
ou do surpreendente
conto “Ulrica” , “de rasgos
afilados y de ojos
grises.
Menos que
su rostro...su aire de
tranqüilo mistério”. Surgem de
onde? E
como?
Estes caminhos que nos infiltra a mente, são os mesmos
caminhos que buscamos percorrer “cegamente” ao viajar, ao acercar-se
do desconhecido labirinto de uma nova paisagem, uma cidade, um beco,
uma rua. Assim foi, recentemente re-descobrir Buenos Aires, não com
os olhos de turista viajando numa “redoma asséptica”, mas como um
curioso espectador que sorve a respiração, o sentimento, os
mistérios, “ o espelho e a máscara”,andando, observando,
conversando, se possível, e posteriormente refletir e contar
(talvez) tais experiências, como pretendeu Elia Canetti, em seu
notável “As vozes de Marakech”.
São estas vibrações de uma recém re-visitada Buenos
Aires, nascida com a vista perdida ente o porto e o rio largo e
barrento, que se desenvolveu, a partir do século 19, sonhando-se
refinada e européia, com largas avenidas, passeios arborizados,
mansões e edifícios desenhados por arquitetos de renome. Da densa
imigração espanhola que povoou da Avenida de Mayo, transformando-a
numa “citée” latino-americana.
Da calle Florida, transformada num
imenso “shoping” a
céu aberto,
encontra-se um
templo a
memória de Borges,o
Centro Cultural
que leva
seu nome,
dedicado a difundir a
alta
cultura e
com o propósito de
satisfazer a demanda
cultural de Buenos Aires, respondendo a uma
fórmula
própria para
defender o mais
valioso da cultura
argentina.Até a
atual “re-leitura” do
Porto Madero, que se
encontra nas
proximidades do microcentro da “city”,
como assim
denominam os portenhos
seu
distritofinanceiro, às
margens do rio e de
frente à
Casa
Rosada, um
gigantesco
projeto
urbano que
mudou a face deste entorno da
cidade; os
edifícios conservando
sua
estrutura
anterior,
com salas
comerciais,cinemas
e a nova
sede da
Universidade
Católica.
Cidade esta
que inaugurou
sua
primeira
Universidade
em 1821.
São
esses
gestos
fugazes,
lances e
relances,
olhares
que piscam
em nossa
memória, formando
assim um
quadro pós-moderno de
nossa
consciência. Remeto-me ao Flavio
Amoreira
em seu
Manifesto “Literatura
do Estilhaço”, quando
cita Italo Calvino em ‘’Se
um
viajante’’:
‘’Hoje vi uma
mão sair de uma
janela da prisão, do
lado do
mar’’ , afirma
“estranho
familiar
entre
natureza das emocionalidades interditas
e a confusão entre
lazer e
Cultura.”
Nesta busca
infinda do
desconhecido e do
novo, surpreendemo-nos
com a
epiderme,
com a
superfície e
com as
mistura de
estilos de uma
urbanidade
que é o
produto de
seu afã de uma
identidade, seja
ela européia, seja
ela
latina;
também é o ingrediente
que lhe
outorga
diferentes
matizes de
sua
personalidade:
ruidosa e desafiante, da
alta
cultura ao
entretenimento, da
poesia a uma conversa
distraída num
café.
Enfim, “somos
um número
finito de
neurônios,
um número
finito de dendritos cujas
membranas finitas possuem
um número
finito de
Estado de polarizações
possíveis. Somos
então,
individualmente e
coletivamente, a
cada
instante,
um número
preciso,
finito e
inimaginável”.
Eis de
novo Alain, ajudando-nos a
concluir esta viagem
de palavras e
pensamentos ao
inserir de novo o
mestre portenho -
universal: “nós somos
um arco
estranho
entre o
real e o
imaginário.
Em
conseqüência, somos
aquele
“tigre” o
qual sonhou Borges.
Antonio Eduardo
Santos
Pianista e
Musicólogo.
Janeiro 2007