Meiotom - Contos


 

 

antonio eduardo

Nós, este pedaço de espaço...

 

O escritor belga, Alain van Kerckhoven, num breve ensaio sobre Borges escreveu quenós somos um nome, uma profissão, um endereço, um número de registros e outros números”.

Encarnamos neste universo cada partícula, cada vão de espaço que nos sobra, ou que nos é dado preencher, como uma corda vibrante emitindo um grito sonoro,um eco do universo que fornece o clamor da identidade.

O que é essa identidade ? talvez, uma sucessão de fatos que seguem em seus erros e acertos, como na gênese de Morel (Lazarus), personagem onírico do universo “borgiano”, em seu espetacular livroHistória Universal da Infâmiaou do surpreendente conto “Ulrica” , “de rasgos afilados y de ojos grises. Menos que su rostro...su aire de tranqüilo mistério”. Surgem de onde? E como?

Estes caminhos que nos infiltra a mente, são os mesmos caminhos que buscamos percorrer “cegamente” ao viajar, ao acercar-se do desconhecido labirinto de uma nova paisagem, uma cidade, um beco, uma rua. Assim foi, recentemente re-descobrir Buenos Aires, não com os olhos de turista viajando numa “redoma asséptica”, mas como um curioso espectador que sorve a respiração, o sentimento, os mistérios, “ o espelho e a máscara”,andando, observando, conversando, se possível, e posteriormente refletir e contar (talvez) tais experiências, como pretendeu Elia Canetti, em seu notável “As vozes de Marakech”.

São estas vibrações de uma recém re-visitada Buenos Aires, nascida com a vista perdida ente o porto e o rio largo e barrento, que se desenvolveu, a partir do século 19, sonhando-se refinada e européia, com largas avenidas, passeios arborizados, mansões e edifícios desenhados por arquitetos de renome. Da densa imigração espanhola que povoou da Avenida de Mayo, transformando-a numa “citée” latino-americana.

Da calle Florida, transformada num imenso “shoping” a céu aberto, encontra-se um templo a memória de Borges,o Centro Cultural que leva seu nome, dedicado a difundir a alta cultura e com o propósito de satisfazer a demanda cultural de Buenos Aires, respondendo a uma fórmula própria para defender o mais valioso da cultura argentina.Até a atual “re-leitura” do Porto Madero, que se encontra nas proximidades do microcentro da “city”, como assim denominam os portenhos seu distritofinanceiro, às margens do rio e de frente à Casa Rosada, um gigantesco projeto urbano que mudou a face deste entorno da cidade; os edifícios conservando sua estrutura anterior, com salas comerciais,cinemas e a nova sede da Universidade Católica. Cidade esta que inaugurou sua primeira Universidade  em 1821.

São esses gestos fugazes, lances e relances, olhares que piscam em nossa memória, formando assim um quadro pós-moderno de nossa consciência. Remeto-me ao Flavio Amoreira em seu ManifestoLiteratura do Estilhaço”, quando cita Italo Calvino em ‘’Se um viajante’’: ‘’Hoje vi uma mão sair de uma janela da prisão, do lado do mar’’ , afirma “estranho familiar entre natureza das emocionalidades interditas e a confusão entre lazer e Cultura.”

Nesta busca infinda do desconhecido e do novo, surpreendemo-nos com a epiderme, com a superfície e com as mistura de estilos de uma urbanidade que é o produto de seu afã de uma identidade, seja ela européia, seja ela latina; também é o ingrediente que lhe outorga diferentes matizes de sua personalidade: ruidosa e desafiante, da alta cultura ao entretenimento, da poesia a uma conversa distraída num café.

 

Enfim, “somos um número finito de neurônios, um número finito de dendritos cujas membranas finitas possuem um número finito de Estado de polarizações possíveis. Somos então, individualmente e coletivamente, a cada instante, um número preciso, finito e inimaginável”.

Eis de novo Alain, ajudando-nos a concluir esta viagem de palavras e pensamentos ao inserir de novo o mestre portenho - universal: “nós somos um arco estranho entre o real e o imaginário. Em conseqüência, somos aqueletigre” o  qual sonhou Borges.

 

 

Antonio Eduardo Santos

Pianista e Musicólogo.

 

 

Janeiro 2007