| Meiotom - Contos |
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PÃO E QUEIJO |
ALAN MIRANDA |
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Voltei.
E
para quem não me conhece, olá. Estou
há tempos sem escrever, por
vários motivos, desde
computador quebrado, passando
pelo excesso de preguiça e, finalmente,
terminando na falta de imaginação. E
pra quem quer ficar rico escrevendo isto é um problema. Mas
achei melhor escrever assim mesmo. Tinha
de recomeçar. Este
é um momento de azedume mental, onde
olho para tudo, penso
tudo, mas
só escrevo bulhufas. Momento
difícil da minha vida, em
que penso muitas coisas ao mesmo tempo, e
não lembro de nenhuma, em
que sento mais de dez vezes de
frente para o micro e
nada me vem aos nervos. Nada
de novo ou útil, ou
ao menos erótico. Tentei,
então, me reavaliar e
saber por que não estou conseguindo escrever. É
claro que pulei a hipótese de falta de talento. Não
que eu não seja ruim, mas
não é uma coisa que se pense em uma hora dessas. Avaliei,
avaliei... Bem,
a
primeira coisa que descobri é que estou casado. E
isto me pegou em cheio. Descobri
que estou dormindo com a mesma mulher há um ano. E
que ela faz café pra mim, Eu
nunca pra ela, que
pagamos contas juntos, que
me xinga, que
eu xingo, que
me dá orgasmos, e
eu também, e
que, no fim de tudo, diz
que me ama. Eu
também. Mas
eu não havia me tocado disto. De
repente, me
vejo no meio da rua com um saco de pão e
um de queijo-lanche nos braços, indo
para a casa dela. Fiquei
parado, aborrecido
com o pão e o queijo na mão. Estava
tudo claro em minha mente. Fui
para casa furioso, já
entrando com cara mal. Joguei
o pão e o queijo na mesa da cozinha e
apontei o dedo pra ela. -
A culpa é sua! Adorei
dizer isto. Mas
ela é a calma em pessoa. Fez
cara de nem-te-ligo. E
é isto o que mais me irrita. -
É minha...? O que é minha culpa...? -
É! A culpa é sua. Eu nunca mais escrevi! -
Por minha culpa...? -
Mas é claro! Você não sabia que um escritor precisa de um objetivo
importante para escrever? Que ele precisa querer dizer uma coisa através de
seu trabalho? E que através dele será dito algo que só ele pode dizer, e
que os leitores adoram a forma dele escrever? -
E o que eu tenho haver com isso? -
Você tem tudo haver! A culpa é sua! É claro! Estou há um ano tentando
voltar para a casa da minha mãe! -
Sua mãe mora a dois quarteirões daqui e você a vê todo dia. -
Não importa! Mas eu durmo aqui! E as minhas roupas? Veja você: as minhas
roupas estão aqui! -
Foi você quem trouxe. E você dorme aqui porque quer. -
Você está deturpando as coisas! Eu
odeio essa mulher, eu
odeio as mulheres, eu
odeio, eu odeio, eu odeiooooo. Só
falta ela me chamar de meu filho. -
Mas por que eu sou culpada de você não mais escrever, meu filho? -
Ah! Quer saber mesmo? Vou lhe dizer. Olhe para ali! Apontei
para o pão. E
para o queijo. -
Sabe o que eu fiz assim que eu cheguei da faculdade? Eu comprei pão! E
queijo! -
E...? -
E eu gostei! Percebeu? E faço isso todos os dias! Não entende meu
desespero? Eu estou gostando de comprar pão com queijo no final da tarde
todo dia! -
... -
Eu estou feliz, entendeu? Percebeu o problema? E agora? Como questionar
a vida se eu estou feliz? Como pensar conflitos complexos se eu vejo
felicidade em derivados do leite e do trigo? Como querer mudar o mundo se me
sinto encaixado na vida? Como querer mudar o mundo se sou feliz? -
E o que você quer? -
Eu quero um amor não correspondido, uma dor de corno, um não sei o quê, um
algo que me deixe bem angustiado, uma batalha sindical, algo que mexa comigo
e com as pessoas. Algo que não tenha nada haver com pão-com-queijo! Desabafo
feito. Sentei. Foi
o tempo que ela tinha pegado o pão, aberto,
colocado
o queijo e
esquentado na chapa... Achei
melhor comer. Alan, o Miranda: é ator, baiano e otário, além de ter três cadelas e dez gatos
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