Meiotom - poesia


 

A DOR

ALAN MIRANDA


Estou triste.
Barba por fazer,
cabelos nas alturas.
Olhos fundos.
Ando sem cueca pela casa
assutando moradores e convidados.
E choro, choro muito.
A causa?
É Themis.
Minha mãe está ficou desesperada.

- Meu Deus! Meu filho, reaja!

Não se pode mais ficar triste e querer morrer um
pouco?

- Mas a vida continua...

Isso eu sei,
você sabe,
quem tá lendo sabe,
quem conversa comigo sabe.
E isso é foda.
É foda perder alguém e saber que a vida continua.
Que viverei muito, talvez.
E que serei feliz,
mas sem ela.

Minha mãe me acha definitivamente louco.
Tem gente que me acha poeta,
outros me acham "artista",
outros otário,
mas minha mãe me acha louco de pedra
e fica muito irritada quanto invento de filosofar.

- Você está carne e osso!

Tô mesmo.
Perdi Themis.
Quero curtir a minha dor.
Fui eu quem amou, quem perdeu tempo,
quem fez de tudo para ela não morrer,
e fui eu quem a viu partir em meus próprios braços.

Eu sabia quem eu era só em olhar para Themis.
Só ela sabia que eu era a melhor pessoa do mundo.
E fazia questão de demonstrar isso o tempo todo.
Eu nem sempre conseguia fazer isso com ela.
Mas, ela também nem ligava.

- Vai tomar um banho de folha! Cê tá é com
"pertubado".

Eu já sabia que ela ia fazer isso.
Nem resmunguei.
Ela me levantou da cama,
tomei o banho de folha,
depois uma chuva de pipoca,
duas ou três velas quebradas no meu corpo,
passadas de alho na minha testa e membros,
e algumas rezas católicas pra fechar.
Esta é minha mãe....
Um baiana genuína que mistura um pouco de tudo.
É o que chamam de sincretismo.
Mas também é uma forma de dizer que me ama.
No meio da reza a amada me denuncia.

- Ele agora é agnóstico, D. Zene!

Já não basta Themis ter morrido?
Para que minha mãe precisa saber que eu sou
agnóstico...?

- Meu filho! Você não acredita em Deus?!

Lá vou eu explicar a mamãe o que é ser agnóstico...
A velha não perdoou:

- Que coisa feia... Triste, seco e agnóstico!

Mas a dor continua.
Sendo agnóstico ou não.
A dor da falta.
E esse texto não é uma tentativa literária de nada.
É apenas isso mesmo.
Anunciar e imortalizar Themis.
Que vocês nunca viram e nem verão.
E que não importará a ninguém.
Mas mesmo assim eu digo:
Amei Themis.
Amei com tanta força
que, morrendo, ela me levou com ela,
ou ao menos uma parte de mim.

- Meu filho...

Olho para a minha velha...
Olho para a amada...
Elas acham que estou no fundo do poço.
Mal sabem elas que até triste eu sou feliz.
Bonito aquele quadro...
Eu seco e feio,
a amada gostosa e preocupada,
e a progenitora com alho e velas na mão.
Tanto que resolvi falar para a que me pariu:
 
- Vou sentir tanta saudade sua quando você morrer...

Ficou louco, disseram.
E tome sermão.
Ela não entendeu que eu estava dizendo eu te amo.
Themis sempre entendia.
Até mesmo quando eu não falava.

- Mas Themis era uma cadela!

Pois é.
A minha cadela.
A minha dor.
E seco,
feio,
despenteado,
com barba,
sem cueca,
e descalço,
voltei para o quarto.

Alan, o Miranda.
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Alan Miranda é ator, professor de teatro, baiano e
otário.

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