Meiotom - Crônicas


 

0 FILHO

ALAN MIRANDA

 

Sol, meio da semana.

Numa dessas que stress e felicidade andam juntos.

resolve ir à praia.

  • No meio da semana? Que praia? - Pergunto.

  • Ribeira.

Fala pouco ela. Mas é bastante objetiva.

O sol está forte aqui em Salvador. Muito forte.

Maré baixa. Sem ondas.

Pouca água, Pouco peixe, pouca gente, pouco tudo.

E sol e silêncio demais.

Caí na água, que não chegava nas canelas,

deitei e boiei.

Se é que se bóia sentindo a areia nas costas.

Ela veio. Deitou e, objetiva como sempre, largou:

  • Filho.

  • Que é?

  • Um filho.

  • Hum? – Sempre demoro de entender.

  • Quero um filho.

Como é que alguém, no meio da semana, resolve ir para a praia e ter um filho?

  • Um filho como?

  • Um filho. Barriga, noites em branco, fotos, choro, primeira comunhão, parque, bicicleta...

Quase digo que primeira comunhão não,

porque estou ficando agnóstico,

mas, pensando bem, não é nada bom ser agnóstico nos dias de hoje.

  • Mas eu nunca tive um filho...

  • Nem terá. Eu terei.

  • Não. Quero dizer: Eu sou um menino ainda...

  • Você tem 27 anos.

  • Mas eu não quero casar...

  • Você dorme comigo a um ano.

Mas e a carestia?

E as guerras?

E as minhas festas?

Sem falar que fui criado por vó,

Sou o próprio menino-amarelo-da-barriga-grande,

minha mãe me dá café na cama!

Não sei lavar roupa,

só sei fritar ovos,

escrever sem ganhar dinheiro,

fazer Teatro

e tentar mudar o mundo.

Não posso ter um filho!

  • E porquê...?

  • Porque eu não sei lavar as minhas cuecas, já disse!

  • Você não quer é concorrência...

Mas como é que eu posso ter um filho

se escolhi morrer de fome e fazer o que gosto pelo resto da vida?

  • Como assim?

  • Eu faço Teatro, esqueceu?!

  • Mas vive dizendo que vai ficar rico fazendo Teatro.

Uma coisa sou eu dizer isto sozinho!

E com um rebento?

Eu dizer isto vai ajudar a pagar a escola dele?

  • Eu pago a escola dele.

Com um rebento eu não vou poder mandar ninguém à merda!

Eu quero poder mandar as pessoas à merda,

e isso carece não ter filhos.

  • Que besteira é essa?

  • Eu preciso estar só para mandar as pessoas à merda.

  • Você é retardo, é? Seu objetivo na vida é mandar as pessoas à merda?

  • Não. Você não entendeu. Isso é uma metáfora para a minha independ...

  • Que argumento besta! Pois vá à merda! E isso não é uma metáfora.

  • Mas eu quero perder noites em claro ainda! Quero ir a festas, beber, me divertir...

  • Você raramente perde noite, não bebe, não fuma, e a sua maior diversão é ficar com três cadelas e sete gatos à sua volta. Sem falar de Jacira, a sua aranha de estimação...

Estava perdendo o jogo.

Maldita vida pacata.

Mas e seu eu quisesse mudar, e virar um porra-louca?

  • Eu te internaria.

Merda.

Reinou silêncio.

Bem,

na verdade, um filho seria ótimo,

penso cá comigo.

Um outro eu.

Mas e se ele não for um outro eu?

E se ele for melhor que eu?

Ai meu Deus,

e se ele quiser fazer Administração de Empresas?

  • Hein?

  • Pior! E se ele, ou ela, quiser fazer Direito!

  • Ei! EU vou fazer Direito! Óh, esquece, tá? Esquece o filho.

Acabou a praia.

Preciso tomar cuidado

quando eu for à praia no meio da semana.

Na próxima pode ser que eu volte,

além de bronzeado,

pai de família.

Alan, o Miranda.