| Meiotom - Crônicas |
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0 FILHO |
ALAN MIRANDA |
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Sol,
meio da semana. Numa dessas que stress e felicidade andam juntos. resolve
ir à praia.
Fala
pouco ela. Mas é bastante objetiva. O
sol está forte aqui em Salvador. Muito forte. Maré
baixa. Sem ondas. Pouca
água, Pouco peixe, pouca gente, pouco tudo. E
sol e silêncio demais. Caí
na água, que não chegava nas canelas, deitei
e boiei. Se
é que se bóia sentindo a areia nas costas. Ela
veio. Deitou e, objetiva como sempre, largou:
Como
é que alguém, no meio da semana, resolve ir para a praia e ter um filho?
Quase
digo que primeira comunhão não, porque
estou ficando agnóstico, mas,
pensando bem, não é nada bom ser agnóstico nos dias de hoje.
Mas
e a carestia? E
as guerras? E
as minhas festas? Sem
falar que fui criado por vó, Sou
o próprio menino-amarelo-da-barriga-grande, minha
mãe me dá café na cama! Não
sei lavar roupa, só
sei fritar ovos, escrever
sem ganhar dinheiro, fazer
Teatro e
tentar mudar o mundo. Não
posso ter um filho!
Mas
como é que eu posso ter um filho se
escolhi morrer de fome e fazer o que gosto pelo resto da vida?
Uma
coisa sou eu dizer isto sozinho! E
com um rebento? Eu
dizer isto vai ajudar a pagar a escola dele?
Com
um rebento eu não vou poder mandar ninguém à merda! Eu
quero poder mandar as pessoas à merda, e
isso carece não ter filhos.
Estava
perdendo o jogo. Maldita
vida pacata. Mas
e seu eu quisesse mudar, e virar um porra-louca?
Merda. Reinou
silêncio. Bem,
na
verdade, um filho seria ótimo, penso
cá comigo. Um
outro eu. Mas
e se ele não for um outro eu? E
se ele for melhor que eu? Ai
meu Deus, e
se ele quiser fazer Administração de Empresas?
Acabou
a praia. Preciso
tomar cuidado quando
eu for à praia no meio da semana. Na
próxima pode ser que eu volte, além
de bronzeado, pai
de família. Alan,
o Miranda.
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