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O Escuro
O estranho disso tudo é que ele sempre foi muito
apaixonado.
E na mesma medida, rejeitado.
Como a maioria de seus amigos também se queixava
disto,
achava que fosse até normal ser só,
e não esquentava muito,
apesar de doer.
E sempre doeu.
Quando pega a bicicleta para observar o dia
e, eventualmente, se apaixonar de novo,
não esperava que quase atropelasse aquela garota.
Do pé dela ele não pôde se desviar.
Por isso volta,
pede desculpas,
pergunta se está bem,
se acusa e se sentencia.
Ela apenas ri.
Ele ri também.
Aos poucos, vão parando.
Aí, aparece o silêncio. O assustador.
E assusta mesmo.
Por isso, voltam a rir.
O mesmo evento repete-se mais duas ou três vezes.
Até que o "assustador" ganha
e fica por um bom tempo entre eles.
É...
Apaixonou-se de novo...
E, apesar de abestalhado, não era burro.
Sabia que ela também.
E não fala nada mais.
Apenas pega a bicicleta,
diz "tchau",
ela responde,
e ele pega velocidade.
Ao atravessar a rua,
não percebe que é está feliz demais
a ponto de não ver o caminhão em sua direção.
Um caminhão bem grande,
tão grande quanto o seu espanto,
que é maior que o terror de uma hora dessas
em que a vida, obrigatoriamente,
se revisa diante dos nossos olhos.
E ele que vivera tão simplesmente,
sem ser notado por quase ninguém,
justamente naquele dia acontecia tudo de vez.
A vida lhe surgia com aquela garota
e o fim dela com aquele veículo.
Não havia tempo para correr e sair da frente.
Ele próprio quem se metera
entre o gigante de quatro rodas e seu itinerário.
Só pôde fazer uma coisa:
olhar para trás,
olhar para ela.
E com os olhos
lhe jurar o amor que nunca viveria,
e lhe dizer adeus,
e que odiava a vida,
e amava também,
e dizer que doía,
que doía,
que doía muito aquilo tudo que ele não entendia,
que mal começara a estudar vida
e já lhe entregavam à morte assim,
sem preliminares
e sem dor, provavelmente.
Realmente, iria morrer.
Porque isto tudo se passava muito rápido em sua
cabeça.
Um ou dois segundos,
talvez menos,
só o tempo de voltar-se para trás
após ver o caminhão
e trocar olhares com ela,
que neste momento,
é só íris,
retina
e incompreensão.
A buzina está alta,
ouvi-se o freio,
o fim cresce rápido e fisicamente à sua frente.
Ainda olha para ela,
não quer ir,
não quer ir.
Escuro.
Alan, o Miranda.
www.alanmiranda.blogger.com.br
O autor é ator e professor de teatro. Atualmente está
em cartaz com a comédia Donzelos Anônimos, com direção
de Fernando Marinho, na Praça Pedro Arcanjo, todas as
segundas-feiras de outubro/04, no Projeto Pelourinho
Dia e Noite (Salvador, Bahia).
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