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Sonhou com ela a vida toda.
Sempre o mesmo sonho.
Era linda, linda, linda, linda...
Uma voz suave e melódica.
Ela se deixava mirar por muito tempo
e retribuía da mesma forma.
Era estranho saber de uma pessoa que não se conhece.
Que não se sabe nem se existe.
- Onde está você?
- Como assim? Estou aqui.
- Não, mas lá.
- Lá?
- Lá fora...
- Ah... Aqui não é suficiente? Aqui não é
bom?
- É, é muito bom... Mas não é real.
- Por que não é real?
- Por que é um sonho.
- E o que é que tem?
- Qué que tem que é como se não fosse real.
- E por que não é real?
- Ai, meu Deus... Porque é como se eu não
sentisse de verdade.
- E o que é sentir de verdade lá e sentir de
verdade aqui?
- Tá difícil... Você é real?
- E você? É...?
Acordava louco.
Ela tinha que existir.
Não podia ser que algo tão incrível fosse de sua
cabeça.
Todos já a conheciam de tanto falar dela.
Perguntavam como ela estava,
se brigavam,
se estavam bem.
Ele não se guardava para ela,
era realista e preferia não arriscar.
Ela entendia. Nem se preocupava.
Mas as namoradas sentiam ciúmes
e até terminavam por causa disso.
Começou a andar pela tarde,
ao acaso, procurando-a.
- Hoje sai te procurando de novo.
- E me achou...?
- Só aqui...
- E isso é ruim?
- É pouco...
- Quer mais?
- Sempre se quer mais. Quero você lá, na
realidade.
- Não é aqui a realidade?
- Não...! Aqui é sonho. É esse o problema.
- Por que lá não é sonho e aqui é a
realidade?
- Por que você pergunta tanto? Para um sonho
você é muito curiosa.
- Para uma pessoa real você é muito
confuso...
E tome-lhe beijo.
Como não amar alguém assim?
Faziam de tudo juntos.
passeios, sexo, política,
de tudo entrava naquelas noites.
Que eram poucas, na verdade.
Mas longas.
A contabilidade era de uns 7 sonhos por ano...
- Decidi. Só falo com você agora "Lá".
- Lá?
- É. Lá.
- E se eu nunca aparecer?
- Vai doer... Mas eu preciso de você no meu
dia
a dia... Lá fora é uma selva. Estou o tempo todo só. E
todo mundo está na mesma coisa.
- Lá todo mundo está sozinho...?
- Está...
Acertaram-se e se despediram.
Ele ficou à espreita,
investigando a tudo e a todos para encontrá-la.
E, realmente, parou de sonhar...
Passaram-se anos.
Sentiu-se cada vez mais só.
Definitivamente só.
Alguns ainda perguntavam por ela.
Agora ele sabia... Era apenas sonho.
No entanto, sempre pensava nela.
A saudade aumentou no decorrer dos anos.
Começou mesmo a doer.
Resolveu fazer terapia.
Disseram que era a mãe dele idealizada.
Mas a mãe dele não era tão gostosa,
e não tinha aqueles olhos.
Não a tirava do pensamento,
porém não mais a procurava.
Um tarde dessas como outra qualquer,
indo para casa,
resolveu levantar os olhos pelo menos mais uma vezinha
só para cumprir currículo e dar uma vasculhada entre
as pessoas.
Estava em uma praça.
Viu uma garota.
Em um banco.
Sozinha.
Só que... Muito alta.
No sonho ela era do mesmo tamanho dele.
E o cabelo...
Lá nas bandas do onírico eram grandes,
até a cintura.
Estes de cá era pequenos, em corte masculino.
Mas ela olhava pra ele.
Passou em frente ao banco, olhando.
Ela também.
Olhou para trás.
Ela também.
Voltou.
Ficou de pé.
Ela sentada.
Não era linda, linda, linda...
Bonitinha...
Ele começou:
- Oi...
- Oi...
- ...
- ... A gente se conhece?
- Não sei, não sei... é que a gente ficou
se
olhando como se conhecesse....
Não era mesma voz.
O Tom era diferente.
E não se deixava mirar muito tempo.
Dividia os olhos entre ele
e a paisagem, educadamente.
Silêncio.
Ambos se estudando.
Sérios.
Ela:
- E aí? Me conhece?
- ... Não, não... Acho que não. Ela era
mais
alta. E o cabelo...
- ... Menor?
- Era...
- Bonita?
- Muito... Mas, ó, você não feia, não é
feia...
- ... Foi uma namorada?
- Mais ou menos, mais ou menos...
- ...
- A voz também...
- ... A voz também não...? ...
Definitivamente
não sou ela...
- É...
Calaram-se um tempo.
Ela de novo:
- Pelo jeito você gostava mesmo dela...
- É, sim, gostava...
- Devia ser um sonho de garota, então...!
- Sim... Era um sonho... O pior é que era um
sonho mesmo...
- ... Como assim...? Sonho, sonho?
- É. Sonho, sonho...
- ...
Silêncio.
Ele não sabia mais o que falar. Resolveu se despedir.
- Bem... Até, então...
- Certo... Desculpe por não ser ela.
Risos de ambos.
- Certo, está desculpada, está desculpada...
Ele saiu se preparando para se mal-dizer.
Ela falou ainda do banco:
- Eu também sonhava com alguém. Só que você
é
menor que ele, não é a mesma voz e o cabelo era mais
liso...
Ele parou.
Olhou para trás.
Ficou um tempinho assim.
Foi voltando devagar.
Parou.
Andou de novo
e sentou ao lado dela.
Olharam-se.
E começaram a rir...
Alan, o Miranda.
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O autor é ator e professor de teatro, além de ser
estudante de Artes Cênicas na UFBA.
Atualmente integra a comédia "Donzelos Anônimos", com
direção de Fernando Marinho e o espetáculo "Vixe
Maria, Deus e o Diabo na Bahia", com direção de
Fernando Guerreiro que está em cartaz no Teatro ACBEU.
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