Meiotom - Crônicas


 

falência existencial

ALAN MIRANDA

 

Falência Existencial

Neste São João passado,
como eu estava só,
com amada longe,
amigos longe,
Cachorros e gatos em outras paragens.
Resolvi dar uma de povo.
De gente comum, como se eu não o fosse.
Sou daqueles egocêntricos que se sentem eternamente
diferentes.
E por mais que não seja,
sempre me acho diferente.
Resta saber se sou mesmo.
Diferente.
Às vezes acredito que sim.
Mas quando lembro que todo ser humano que conheço
pensa o mesmo,
que também se acha único e diferente e jamais massa ou
gado,
fico meio perdido nessa filosofia.
Mas o fato foi que eu resolvi ir a um forró.
Coisa que não vou há anos.
E lá estava eu, pedindo licença à multidão,
vendo luzes,
cheiro de conhaque,
mulheres bonitas e vazias,
homens bonitos e vazios,
mas todos com uma grande tendência à embriaguês
e a roupas quadriculadas.
Parei no meio daquela gente aparentemente feliz.
E fiz pose.
Fiquei lá,
parado,
esperando sei lá que porra
e olhando as pessoas.
Me senti velho.
Com meus 27 anos.
E de novo diferente.
É chato ser gênio e mal amado,
que com certeza é o meu caso.
Só me sentiria bem
se toda aquela multidão me conhecesse.
Comecei a pensar essas bobeiras
e quando já estava sendo carregado pela multidão,
um grande amigo meu me bate no ombro.
Tive que deixar minha fantasia egocêntrica de lado e
abraçá-lo de alegria.
Que bom!
Alguém que me conhece!
E de verdade!
Eu poderia mandá-lo à merda
e ele ainda me amaria,
ou talvez chorasse
se eu morresse.
Conversamos empolgados durante uns três minutos.
E depois,
coisa horrível,
apoderou-se de nós algo que,
para mim,
sempre ocorreu,
mas só agora eu tive consciência...
nos dois éramos amigos de infância,
mas não tínhamos mais nada o que falar um do outro.
Ou para o outro.
Paramos de falar naturalmente e,
aos poucos,
lado a lado,
fomos fazendo pose
e ficando calados
vendo aquela multidão pretensamente feliz
que nos incomodava.
Voltei para as minhas fantasias egocêntricas
e ele, provavelmente,
para algo similar.

Conclusão:
Se quem eu amava (meu amigo) não me completava,
imagine aquelas pessoas coloridamente alegres,
de quem eu tinha desprezo e inveja?

Somando a minha chegada,
as minha elaborações mentais,
e o encontro com meu amigo,
não durei 15 minutos naquele forró.
Fui para casa,
me masturbei e
às vinte e uma horas e trinta minutos
do dia 24 de junho
eu estava dormindo.
E o São João de vocês?


Alan, o Miranda.

Visite-me: www.alanmiranda.blogger.com.br

O autor é ator e professor de teatro. Atualmente está
em cartaz com a comédia Donzelos Anônimos, com direção
de Fernando Marinho, na Praça Pedro Arcanjo, todas as
segundas-feiras de outubro, no Projeto Pelourinho Dia
e Noite (Salvador, Bahia).