Meiotom - poesia


 

marrom

ALAN MIRANDA

 


Marrom

O dia está marrom para mim.
Agora a pouco estava sonsinho,
os olhos vermelhos com lágrimas a brotarem.
Tudo triste, triste.
Os amigos tentam ajudar
e nada.

Nada me consola ou tira deste estado.

E olha que hoje está um dia lindo,
Mas, para mim,
está é marrom mesmo.

Já disse isso...

Veja que nem palavras novas no poema eu consigo
escrever.
Que vergonha, que vergonha...
Dá é vontade de repetir tudo de novo.

Que está tudo marrom e blá, blá, blá...

Mal posso andar, de tão deprimido e fraco.
A revolta é maior quando penso que não fiz nada
demais.
Não maltratei ninguém,
Não gritei ninguém.
Juro,
nem corno eu dei.
E nem tomei,
para não dizerem que estou assim por isso.
O fato é que, me olhando no espelho,
com os ossos a amostra,
chego a pensar que eu estou numa de namorar o álcool.
Mas não. Não é o caso.
E isto me revolta ainda mais.
Eu não merecia...
Estava afim apenas de sair e namorar o dia.
E, do nada, me apareceu esta cor meio vermelha,
meio preta,
que é marrom.

Vocês vão me desculpar,
mas marrom não tem sinônimo.
Pelo menos eu não lembro
dado ao meu estado, talvez.
Ou seja, tenho que falar marrom mesmo
quando penso na cor.
Preguiça e falta de eufemismos...
É a vida.
Os bons poetas me desculpem.
Até por que não sou poeta.
E por falar nisso,
cadê Drumond?
Cadê Vinícius?
Por que não há poesia que nos salve numa hora
dessas...?
Por que ninguém escreveu sobre esta dor nos seus
pormenores,
lhe dando a receita e a cura?

Uma crise,
uma inquietude desnecessária,
um apertar de olhos,
e mais marrom.

A dor que me toma,
é involuntária,
constrangedora
e marrom.

É horrível,
Quem viveu sabe.
De uma ora para outra
o colorido dos meus olhos foi-se
e marronficou-se.
Agora,
fico trancado a maior parte do tempo em um cubículo,
fazendo força,
lastimando quando o mundo,
as pessoas,
e o organismo lhe fazem greve,
tornando tudo inevitavelmente marrom.

Estou com diarréia...

Alan, o Miranda.
A base de soro caseiro.

Visite-me: www.alanmiranda.blogger.com.br

O autor é ator e professor de teatro, além de ser
estudante de Artes Cênicas na UFBA. Atualmente integra
a comédia "Donzelos Anônimos", com direção de Fernando
Marinho e o espetáculo "Vixe Maria, Deus e o Diabo na
Bahia", com direção de Fernando Guerreiro.