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Voltei.
E para quem não me conhece, olá.
Estou há tempos sem escrever,
por vários motivos,
desde computador quebrado,
passando pelo excesso de preguiça e,
finalmente, terminando na falta de imaginação.
E pra quem quer ficar rico escrevendo isto é um
problema.
Mas achei melhor escrever assim mesmo.
Tinha de recomeçar.
Este é um momento de azedume mental,
onde olho para tudo,
penso tudo,
mas só escrevo bulhufas.
Momento difícil da minha vida,
em que penso muitas coisas ao mesmo tempo,
e não lembro de nenhuma,
em que sento mais de dez vezes
de frente para o micro
e nada me vem aos nervos.
Nada de novo ou útil,
ou ao menos erótico.
Tentei, então, me reavaliar
e saber por que não estou conseguindo escrever.
É claro que pulei a hipótese de falta de talento.
Não que eu não seja ruim,
mas não é uma coisa que se pense em uma hora dessas.
Avaliei, avaliei...
Bem,
a primeira coisa que descobri é que estou casado.
E isto me pegou em cheio.
Descobri que estou dormindo com a mesma mulher há um
ano.
E que ela faz café pra mim,
Eu nunca pra ela,
que pagamos contas juntos,
que me xinga,
que eu xingo,
que me dá orgasmos,
e eu também,
e que, no fim de tudo,
diz que me ama.
Eu também.
Mas eu não havia me tocado disto.
De repente,
me vejo no meio da rua com um saco de pão
e um de queijo-lanche nos braços,
indo para a casa dela.
Fiquei parado,
aborrecido com o pão e o queijo na mão.
Estava tudo claro em minha mente.
Fui para casa furioso,
já entrando com cara mal.
Joguei o pão e o queijo na mesa da cozinha
e apontei o dedo pra ela.
- A culpa é sua!
Adorei dizer isto.
Mas ela é a calma em pessoa.
Fez cara de nem-te-ligo.
E é isto o que mais me irrita.
- É minha...? O que é minha culpa...?
- É! A culpa é sua. Eu nunca mais escrevi!
- Por minha culpa...?
- Mas é claro! Você não sabia que um escritor precisa
de um objetivo importante para escrever? Que ele
precisa querer dizer uma coisa através de seu
trabalho? E que através dele será dito algo que só ele
pode dizer, e que os leitores adoram a forma dele
escrever?
- E o que eu tenho haver com isso?
- Você tem tudo haver! A culpa é sua! É claro! Estou a
um ano tentando voltar para a casa da minha mãe!
- Sua mãe mora a dois quarteirões daqui e você a vê
todo dia.
- Não importa! Mas eu durmo aqui! E as minhas roupas?
Veja você: as minhas roupas estão aqui!
- Foi você quem trouxe. E você dorme aqui porque quer.
- Você está deturpando as coisas!
Eu odeio essa mulher,
eu odeio as mulheres,
eu odeio, eu odeio, eu odeiooooo.
Só falta ela me chamar de meu filho.
- Mas por que eu sou culpada de você não mais
escrever, meu filho?
- Ah! Quer saber mesmo? Vou lhe dizer. Olhe para ali!
Apontei para o pão.
E para o queijo.
- Sabe o que eu fiz assim que eu cheguei da faculdade?
Eu comprei pão! E queijo!
- E...?
- E eu gostei! Percebeu? E faço isso todos os dias!
Não entende meu desespero? Eu estou gostando de
comprar pão com queijo no final da tarde todo dia!
- ...
- Eu estou feliz, entendeu? Percebeu o problema? E
agora? Como questionar a vida se eu estou feliz? Como
pensar conflitos complexos se eu vejo felicidade em
derivados do leite e do trigo? Como querer mudar o
mundo se me sinto encaixado na vida? Como querer mudar
o mundo se sou feliz?
- E o que você quer?
- Eu quero um amor não correspondido, uma dor de
corno, um não sei o quê, um algo que me deixe bem
angustiado, uma batalha sindical, algo que mexa comigo
e com as pessoas. Algo que não tenha nada haver com
pão-com-queijo!
Desabafo feito.
Sentei.
Foi o tempo que ela tinha pegado o pão,
aberto,
colocado o queijo
e esquentado na chapa...
Achei melhor comer.
Alan, o Miranda.
Visite-me: www.alanmiranda.blogger.com.br
O autor é ator e professor de teatro. Atualmente está
em cartaz com a comédia Donzelos Anônimos, com direção
de Fernando Marinho, na Praça Pedro Arcanjo, todas as
segundas-feiras de outubro, no Projeto Pelourinho Dia
e Noite (Salvador, Bahia).
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