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O
Rato
Serguei é filho de Baala, a minha gata. Ainda é jovem,
diferentíssimo da mãe.
Baala odeia carinho, É introspectiva
e gosta de tocar, mas não ser tocada. Se você faz um carinho,
ela rosna, se olha para ela, rosna, Se der comida, rosna, se
está feliz, rosna. Não sei o que houve com ela, acho que só terapia
na coitada.
Já Serguei, é só carência e travessuras. Passou
da puberdade e adora colo e carinho.
Baala odeia isso nele
e sempre que pode, e não pode, rosna para filho e bate nele
também.
Agora há pouco percebi um movimento estranho
entre os dois e fui ver o que era. Serguei acabara de pegar um
ratinho que ainda estava vivo. Gatos domésticos raramente comem
ratos. Brincam com eles até que a morte chegue, e o roedor pare de
pular, ou agonizar. E isto pode durar horas. O Ratinho, coitado,
gritava e voava com a força das patadas e mordidas de
Serguei.
Refleti, então, como era cruel isso para aquele jovem
ratinho. Mas também pensei que achar aquilo cruel seria moralizar
algo que é próprio da natureza daqueles dois:
Serguei, o de
comer ou ao menos morder o rato.
O rato, de simplesmente morrer
e ser comido naquele momento.
Os biólogos estão acostumados com
isso e deixam a natureza seguir seu curso.
Era o que eu iria
fazer.
Inclusive estava conversando sobre isso tudo com Serguei
e James, o rato, que a essa altura já tinha até nome. Serguei
realmente não ligava para as minhas conjecturas. Mas James parecia
discordar. Essa coisa do mais forte vencer era uma grande sacanagem
para ele. Ao menos parecia.
E, se eu fosse um dos dois,
provavelmente eu seria James, que gritava, gritava,
gritava... Sempre me sinto o otário na história.
É sempre
complicado saber o que é certo ou o que é errado
nestas situações, já que a moralidade é uma invenção nossa, e a
fome - invenção da natureza - não participa dessas formulações. Nem
a fome, nem a morte, os instintos de maneira geral e nem as
fermentações intestinais. Essas coisas chegam e agente que se
arranje, ou não.
Então entendi a minha
responsabilidade. Parei o papo, alisei Serguei, o segurei e pendurei
James pelo rabo:
- Eis que surge o elemento racional para
atrapalhar o curso da natureza, e, por tanto, a sua morte, meu caro
James. Os Biólogos que vão à merda. Vai-te embora meu caro roedor.
Esse gato aqui come ração, e uma bola de algodão substituirá
tranquilamente a sua ânsia de brincar.
Mãe e vizinhaça ficaram
indignadas ao me ver levando James para o jardim da rua e
dando-lhe a oportunidade do esconderijo entre as plantas. E ainda
dei tchau.
Serguei parece não ter gostado. Mas, teve que correr
da mãe que resolveu rosnar de novo e bater nele.
A Serguei dei
uma bola de algodão, a James mais tempo de vida, aos biólogos alguns
desaforos, e a vizinhança duas ou três bananas.
Ganhei o
dia. (Às vezes me sinto um super-herói - baiano...)
Alan, o
Miranda. http://www.alanmiranda.blogger.com.br
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