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meiotom poesia & prosa |
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meiotom.blog ALAN MIRANDA |
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Seu Zé Seu Zé tá sentado, sozinho, no banco. Eu chego, aceno e sento ao seu lado. - Seu Zé. Tenho algo para lhe dizer que não sei se vai gostar. Peço pra ele dar uma olhada em volta. Tudo branco. Branco, branco, branco. E só eu e ele sentados em um banco de praça. Que também é branco. - Que é que tem? - O Senhor não acha estranho o ambiente? - Você acha? - Seu Zé, não há nada, só brancura, só isso. - E...? Não podia mais enrolar. - Seu Zé, o senhor faleceu. - Foi...? Quando? - Ontem. Pela manhã. - Estou morto? - Tá sim. - E você? - Tô não. Ainda não. Vim só me despedir do senhor. Ele me olha sem susto. Ri, suavemente. A gente se abraça. Ele ainda me dá uns tapinhas nas costas. Me levanto. Seu Zé continua sentado. Tô sem graça. Começo a caminhar. Paro. Falo que, esse ano, eu já perdi muita coisa. Ai, pega , chega ele e morre... Seu Zé dá uma risada educada. Digo que a gente conversou só umas 6 ou 7 vezes em 10 anos. De resto, me dava tapas nas costas e dizia: “Os Donzelos!”. Ele adorava essa peça. - Os Donzelos! Sim, sim, era assim mesmo... Velhinho, sem dinheiro, sem emprego, sem quase nada na vida, Mas amava ficar naquela Escola de Teatro. Como eu e muitos outros. Digo que tenho medo de ficar velho. E de morrer. Outra risada. Mas é forte saber que o senhor, seu Zé, mesmo velho, sozinho, sem dinheiro, humilde, deixou muita, muita gente triste e saudosa. Muita mesmo. - Os Donzelos! É seu Zé, os Donzelos... Volto para abraçá-lo de novo. Abraço seu Zé, de novo, no meio daquela brancura machadiana. Tenho a impressão de estar me despedindo não só dele, mas de tudo que é a Escola e o seu universo. Dessa vez, vou embora a passo firme. Seu Zé: - Vai voltar aqui, donzelo? Paro de novo. Respondo: - Acho que não, seu Zé... Sou ateu. Pra mim, morreu, morreu. Meu olhar é triste. E Seu Zé não para de rir. Alan, o Miranda. Ator e roteirista. http://twitter.com/alan_miranda_ http://www.alanmiranda.blogger.com.br/ |
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