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Seu Zé


Seu Zé tá sentado,
sozinho, no banco.

Eu chego, aceno e sento ao seu lado.

- Seu Zé. Tenho algo para lhe dizer que não sei se vai gostar.

Peço pra ele dar uma olhada em volta.
Tudo branco.
Branco, branco, branco.
E só eu e ele
sentados em um banco de praça.
Que também é branco.

- Que é que tem?
- O Senhor não acha estranho o ambiente?
- Você acha?
- Seu Zé, não há nada, só brancura, só isso.
- E...?

Não podia mais enrolar.

- Seu Zé, o senhor faleceu.
- Foi...? Quando?
- Ontem. Pela manhã.
- Estou morto?
- Tá sim.
- E você?
- Tô não. Ainda não. Vim só me despedir do senhor.

Ele me olha sem susto.
Ri, suavemente.
A gente se abraça.
Ele ainda me dá uns tapinhas nas costas.
Me levanto.
Seu Zé continua sentado.
Tô sem graça.
Começo a caminhar.
Paro.

Falo que, esse ano, eu já perdi muita coisa. Ai, pega , chega ele e morre...

Seu Zé dá uma risada educada.

Digo que a gente conversou só umas 6 ou 7 vezes em 10 anos. De resto, me dava tapas nas costas e dizia: “Os Donzelos!”. Ele adorava essa peça.

- Os Donzelos!

Sim, sim, era assim mesmo...

Velhinho, sem dinheiro,
sem emprego,
sem quase nada na vida,
Mas amava ficar naquela Escola de Teatro.
Como eu e muitos outros.

Digo que tenho medo de ficar velho.
E de morrer.

Outra risada.

Mas é forte saber que o senhor, seu Zé,
mesmo velho, sozinho, sem dinheiro,
humilde,
deixou muita, muita gente triste
e saudosa.
Muita mesmo.

- Os Donzelos!

É seu Zé, os Donzelos...

Volto para abraçá-lo de novo.

Abraço seu Zé, de novo,
no meio daquela brancura machadiana.
Tenho a impressão de estar me despedindo não só dele,
mas de tudo que é a Escola e o seu universo.

Dessa vez, vou embora a passo firme.

Seu Zé:
- Vai voltar aqui, donzelo?

Paro de novo.
Respondo:

- Acho que não, seu Zé... Sou ateu. Pra mim, morreu, morreu.

Meu olhar é triste.

E Seu Zé não para de rir.


Alan, o Miranda.
Ator e roteirista.
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