O “BOCA-DE-LATA” MORRE EM MEUS
BRAÇOS
Até hoje,
as pessoas ainda não sabem ao certo o que levou o minúsculo
“Boca-de-Lata”, um tipo popular da minha cidade, de pouco mais de um metro
e trinta de altura e no máximo trinta e cinco quilos, a dedicar seu último
ano de vida a ornar o túmulo de sua falecida esposa que, segundo consta,
era uma anã com diversas deformidades ósseas, e que morrera de parto. E a
empenhar-se em fazê-lo com tanto esmero e persistência, a ponto de
espantar os funcionários do cemitério.
Eu ainda me lembro de minhas
horas de recreio no grupo escolar, quando eu ouvia lá na rua o
Boca-de-Lata passando, exercendo aquela que seria sua única profissão em
vida: com um enorme cone de lata nas mãos, ele gritava, com sua voz
esganiçada e metálica, frases repetidas incitando as pessoas a comprarem
panos numa casa de retalhos e tecidos do centro da cidade. “Olha a flanela
boa de fazer camisa, tá em promoção lá na Casa Freitas, donas de casa!”,
esgoelava ele. E ia de rua em rua, gritando a cada dia uma única frase
certamente escolhida pelo comerciante que o contratava, das 8 da manhã às
5 da tarde.
Todos o conheciam, e alguns
moleques gostavam de segui-lo, imitando seu modo de caminhar que gingava
de um lado para o outro, provavelmente em função de suas pernas arqueadas,
e sua postura de tocador de clarim, apontando o cone de lata para cima,
com pompa militar.
Vinte anos mais tarde, eu era
um dos plantonistas do pronto-socorro de um grande hospital de periferia.
A ambulância chegou e eu vi uma maca descendo com um fardo minúsculo e
encurvado como um galho seco com uma flor de algodão murcha, que
estranhamente me pareceu familiar. Eu internei aquele ser bizarro em
péssimo estado geral, aparentemente mais um paciente com cirrose hepática
avançada.
Trágica surpresa. Até aquele
instante eu desconhecia que o Boca-de-Lata fosse um alcoólatra, e nunca
poderia supor que se tratasse de um escultor amador, cujo sonho era “ser o
maior escultor de todos os tempos”, como me contou tão logo ele conseguiu
recobrar a fala. Cochichou-me que nunca conseguiu vender sequer uma de
suas esculturas, com os olhos vermelhos e a voz esganiçada trêmula de
emoção.
Sua “obra-prima” tardia,
segundo ele, seria um pequeno anjo esculpido em madeira da melhor
qualidade, que ornaria o túmulo de sua esposa Marlene, morta mais de vinte
anos antes. Curiosamente, ele conseguiu montar seu atelier no próprio
cemitério, em uma pequena área que estava disponível logo ao lado do
túmulo dela.
Segundo mais tarde contou-me
um dos guardas do cemitério, enquanto esculpia, olhando todo o tempo para
um anjo que só ele enxergava acima da lápide, ele transpirava em bicas,
mas de tanto em tanto brilhava como uma pequena lamparina em campo
noturno, de tanta satisfação. Ele estava tão feliz quanto uma criança em
noite de natal, finalmente podia se dedicar a fazer o que amava, já que
não tinham tido filhos, e nada iria restar dele além de seu nome, com o
qual ele seria enterrado exatamente no local onde naquele momento ele
trabalhava, ao lado de Marlene. Livre para apenas esculpir, finalmente.
Apenas a piora da cirrose havia interrompido seus planos artísticos e
forçado sua estadia no hospital.
Embora ainda estivesse pagando
a décima prestação de sua futura morada eterna, o terreno que ora ocupava
como escultor e que um dia ocuparia para sempre, ele já via seu anjo, aos
poucos, ir surgindo no tronco de madeira, debaixo da pequena cobertura que
ele havia construído com blocos de alvenaria e um telhadinho, que parecia
uma casinha de boneca, seu “atelier”.
Em dois meses, para a surpresa
dos guardas, coveiros e pedreiros que mais freqüentemente acompanhavam seu
trabalho, já estava se aproximando a fase de acabamento, e ele ali,
empunhando seu martelo, seus cinzéis e lixas, parecia já ser parte da
paisagem do próprio cemitério, se visto com olhos para se identificar
detalhes.
Ao subir na escadinha que o
levava até o alto do túmulo, para tirar as medidas finais, ele tremia de
tanto entusiasmo. Ele estava tão feliz que quase podia sentir o que
Michelangelo sentiu ao completar seu Davi. Agora ele sabia que só voltaria
a se sentir assim um instante antes de sua morte, que ele julgava ser o
ponto alto de sua até então insignificante
existência.
E aquele era um belo
cemitério, sem dúvida nenhuma, ornado com muitas estátuas em mármore ou
bronze, elaborados nichos e pequenas capelas raiadas e matizadas com
cúpulas prateadas ou cinzentas e paredes bem ornamentadas. Entre as
lápides havia muitos pequenos jardins com tanques de plantas aquáticas e
até uma pequena fonte cristalina, decorada com três figuras de peixes de
onde escorriam filetes de água.
E vários outros anjos, imagens
de Jesus, Maria, José e diversos santos assistiam, silenciosamente, a
glória final e o drama anônimo daquele quase anão encurvado e cabisbaixo
que, entretanto, sentia-se um gênio imortal quando olhava para os céus, em
busca de mais esta réstia de inspiração divina.
Ele, literalmente, parecia
existir agora apenas para completar aquela obra fúnebre, e nada mais. Seus
parcos recursos financeiros, economizados tostão a tostão, agora lhe
permitiriam dedicar-se à arte em tempo integral.
Às vezes, ao pôr-do-sol, ele
finalmente parava para descansar e então comia ali mesmo um enorme
sanduíche de pão com mortadela, enquanto ia bebendo pequenos goles do café
preto que trazia numa velha garrafa térmica, e antes de partir sempre se
ajoelhava aos pés do túmulo da esposa, e rezava por alguns minutos.
Então trocava as flores do
jarro que ficava num pequeno pedestal, e ao sair pelo portão principal,
antes que um guarda dele se esquecesse e o trancasse ali dentro, ele ainda
se voltava na direção em que o túmulo ficara na distância, e atirava um
beijo no ar. Exatamente como por seis anos fizera para ela da esquina de
sua casinha na periferia, quando saia de manhã caminhando na direção do
centro, onde começava sua diária e barulhenta peregrinação, deixando-a
cuidando dos três cômodos da casa onde ela, enfrentando as limitações
impostas por seu corpo minúsculo e disforme, se esmerava para desempenhar
o orgulhoso papel de rainha do lar e de Senhora Boca-de-Lata.
Uma estranha expressão de desconcerto pairou em meu rosto e no
rosto de todos os funcionários do cemitério, naquela quarta-feira nublada
em que o artista, finalmente, deu sua obra por terminada. O resultado
final, ainda no chão, me pareceu muito ruim, quase catastrófico. Eu tinha
concedido a ele uma alta hospitalar em função de seus insistentes pedidos,
e deixei de almoçar para levá-lo de carro ao cemitério, para que ele
fizesse a inauguração da escultura.
E agora lá estava ele
colocando o anjo no ápice do pequeno pedestal especialmente construído
para isto, transparente de tão pálido, com olhos baços e ictéricos,
visível dificuldade para respirar e um volumoso edema abdominal que o
transformava quase em um gárgula, mas olhando triunfantemente para todos
nós. Eu, como convidado de honra, fazia o possível para disfarçar minha
decepção.
Havia muitas imperfeições
visíveis na escultura, já que a madeira é um material dos mais ingratos
para este tipo de obra, não permitindo quase nenhum erro. A asa esquerda
do anjo estava maior do que a direita, o nariz dele estava torto, e ele
parecia ter uma perna mais curta que a outra. Mas a imperfeição mais
impressionante estava no aspecto da fisionomia do anjo: era a assustadora
expressão de uma criança que tivesse sido arremessada numa cova de tigres, onde dúzias de
outras crianças já tivessem sido rasgadas em pedaços perante a próxima vítima.
A face do anjo era de terror absoluto.
Dois dos funcionários,
sorrateiramente, trocaram de calçada e trataram de sumir atrás de outros
túmulos, temerosos de que o pequeno escultor medíocre lhes perguntasse a
opinião sobre a obra que tanto tempo e esforço havia lhe custado. Três
outros, de tão desconcertados, se apiedaram dele e resolveram bravamente
permanecer ao meu lado e enfrentar o pior.
Após um silêncio mais do que
sepulcral, visto que todos estavam perante um sepulcro de fato, ainda do
alto da escada Boca-de-Lata nos pergunta, finalmente, o que achamos de sua
homenagem à falecida, daquele anjo aleijão que deveria, supostamente,
zelar por seu sono eterno.
A pergunta fatal foi
endereçada aos poucos presentes aos pés do anjo. Agora éramos eu, dois
guardas, um coveiro e uma incauta visitante que não conseguira fugir a
tempo. A senhora, pega de surpresa, permanecia em estado catatônico à
espera de que alguém emitisse uma opinião e permitisse que ela pudesse
escapar para a rua.
Apenas eu, amparado em minha
autoridade clínica, criei coragem e me esforcei para gaguejar o mínimo
possível na reposta:
- Bem, este anjo está...
Bem... Quero dizer... Ele está muito diferente dos outros aqui deste
cemitério.
- Diferente como?
Perguntou-me, já arregalando os olhos, o pequeno e temperamental
artista.
- Sei lá... Olha, me desculpe, eu
sou médico e não entendo nada de arte, mas acho que foi um belo esforço da
sua parte, a falecida deve estar muito feliz lá no céu... (disfarcei meu
constrangimento o melhor que pude, enquanto enxugava duas grossas gotas de
suor que me escorriam da testa).
Mas o mal já estava feito. Ele
desceu da escada, e então passou a contemplar sua obra de todos os ângulos
possíveis. Chegou até a deitar-se sobre o túmulo da esposa e examinar sua
obra vista de baixo. Definitivamente, ele não parecia nada satisfeito
agora. Os poucos presentes sumiram dali, antes que a coisa fosse longe
demais e eles tivessem que admitir que aquele fosse o anjo mais horroroso
que tinham visto em suas vidas. Fiquei entregue à minha sorte, mas ele
nada mais disse.
Disfarçadamente, afastei-me da
cena e pedi ao Seu Zé Lourenço, o coveiro mais antigo do cemitério, que
ficasse de olho nele. Ele me pareceu mais debilitado do que nunca. Não
fosse o constrangimento da situação, eu o teria levado de volta ao
hospital naquele mesmo instante.
Já passavam das seis e meia
quando Seu Zé Lourenço finalmente se aproximou do velho Boca-de-Lata,
avisando-lhe que o cemitério já estava fechando. Na verdade, os portões do
cemitério já haviam sido fechados por ele desde uma hora antes, mas
apiedou-se do escultor desastroso que, sentado em seu banquinho, em cima
de seu futuro túmulo, continuava fitando fixamente seu anjo, agora já na
penumbra, com os olhos marejados de lágrimas.
Zé Lourenço teve que ampará-lo
para que ele pudesse ficar de pé, e praticamente carregou-o até sua velha
Kombi, que felizmente estava estacionada na vaga mais próxima da entrada
principal, e levou-o diretamente para o hospital, temeroso que o choque
matasse o pequenino, que de tão deprimido não se mexia mais e foi o tempo
todo deitado no banco de trás.
Aquela tarde deveria ter sido
o ponto máximo da vida dele, mas terminou de forma quase trágica. Quando
cheguei para assumir mais um plantão no dia seguinte, informaram-me que
meu paciente favorito, o Boca-de-Lata, estava na pequena Unidade de
Terapia Intensiva, nas últimas.
Ao aproximar-me de seu leito,
com imensa dificuldade, ele conseguiu, mesmo com um balão intra-esofágico
insuflado para tentar conter uma hemorragia digestiva alta causada por
varizes de esôfago (comuns nos casos de cirrose avançada), me fazer seu
último pedido.
- Doutor... Por favor... Vai
até o túmulo da minha mulher e tira o anjo que eu fiz de lá... Ontem de
noite, quando eu punha sangue pela boca sem parar, eu vi um anjo lindo, de
verdade, e ele me disse que vai sempre aparecer lá no cemitério e velar
por Marlene e por mim... Meu anjo não precisa mais ficar lá, tira ele,
doutor...
- Fica tranqüilo,
Boca-de-Lata, eu vou lá e peço para o Seu Zé Lourenço descer a sua
escultura e guardá-la em algum lugar seguro.
-
Doutor...
- Sim?
- O senhor pode me abraçar?
Com cuidado, sem arrancar o
soro, a cânula do balão e a sonda vesical, me aproximei daquele quase
anão, agora pesando menos de vinte e oito quilos, e o abracei. Em menos de
dez segundos, ele não mais se mexia. Morreu em meus braços.
Sem conseguir me soltar
daquele corpo, eu não conseguia chorar. Até então, nunca havia chorado na
frente de paciente, enfermeira ou colega algum. Mas uma lágrima desta vez
me traiu, pois eu também podia sentir intensamente que o anjo que
prometera velar por ele e Marlene estava a meu lado naquele
instante.