| Meiotom - Crônicas |
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lamento |
AMAURY MELLO OLIVEIRA |
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CONTEMPLAÇÃO
Amaury Mello Oliveira
NIETZSCH,
Fragmentos do Anticristo. É um doloroso e arrepiante espetáculo ao
abrir a cortina da corrupção do homem, que é sentida mais fortemente ali
onde até agora se aspirou à virtude.
Entendo por corrupção, essa afirmação de que todos os valores da
humanidade reúnem agora, seu mais alto desejo de decadência. Denomino
depravado um animal, uma espécie, um indivíduo, quando perde seus instintos
e prefere o que lhe é pernicioso.
Tentarei narrar uma história dos ideais da humanidade, que seria
quase a explicação do porque o homem é tão corrompido, e em seus valores
não há verdade moral nem hierarquia de valores. Denomina-se o cristianismo a religião da
compaixão. O caso da
morte do Nazareno seria o primeiro ponto de vista, mas há ainda um mais
importante, suposto que se meça a compaixão como origem de todas as
virtudes. A compaixão é a praxe do aniquilamento, esse instinto
depressivo e contagioso visa à conservação e elevação da vida, tanto
como multiplicador da miséria quanto como conservador de todo miserável,
instrumento capital para a intensificação da decadência.
Nada é mais insalubre, em meio a nossa doentia modernidade, do que a
compaixão cristã. É necessário dizer quem é o oposto:- os
teólogos e tudo o que tem sangue de teólogo no corpo, que deveriam ter
visto de perto a fatalidade, melhor ainda, tê-la vivido em si para entender
melhor o padecer com elas. O
instinto de petulância dos teólogos por toda parte onde hoje alguém se
sente “ idealista “, em virtude de uma superioridade superior, se
reivindica um direito de olhar a existência, exatamente como o padre que tem
todos os grandes conceitos na mão. São eles, que jogam com um benevolente
desprezo contra o “entendimento“, os “ sentidos “, as “ honras “,
o “ bem-viver”, a “ciência “, vendo tais coisas abaixo de si como
forças perniciosas e sedutoras, como se humildade, castidade, pobreza,
santidade, em uma palavra, não tivesse feito até agora, indizivelmente mais
danos à vida do que quaisquer terribilidades e vícios...
Enquanto o padre vale ainda como uma espécie superior de homem, esse
negador, caluniador, envenenador da vida por profissão, não há nenhuma
resposta para a pergunta: o que é verdade?
É exatamente igual ao advogado consciente do nada e da negação,
vale como
representante
da “ verdade “...
Nem a moral nem a religião, no
cristianismo, têm algum ponto de contato com a realidade real.
Somente coisas imaginárias – ( “ Deus “, “ alma “, “ eu
“, “ espírito “, “ a vontade livre e a não-livre “ ).
Somente efeitos imaginários – ( “ pecado “, “ redenção “,
“ clemência “, “ castigo “, “ remissão dos pecados “ ).
Uma transação entre seres imaginários e uma ciência imaginária da
natureza, filosoficamente, diz-se das ingênuas doutrinas que admitem que
todas as coisas foram criadas por Deus, para propiciar a vida humana. Esse puro mundo de ficções distingue-se
muito em seu oposto, do mundo dos sonhos, por espelhar a realidade, enquanto
ele falsifica desvaloriza e nega a existência. Só depois que o conceito “ natureza “ foi
inventado como contra-conceito para “ Deus “, “ natural “ tinha de
ser a palavra “ condenável “ – aquele inteiro mundo de ficções tem
sua raiz no ódio contra o natural.
A preponderância dos sentimentos de desprazer sobre os sentimentos de
prazer é a causa daquela fictícia moral e religião:- uma tal preponderância,
porém, fornece a fórmula para decadência... A mesma conclusão nos obriga uma crítica
do conceito de deus. – Religião, seria uma forma de gratidão, e para isso
precisa de um deus que teria poder de ser útil e pernicioso, poder de ser
amigo e inimigo e ser admirado no bom como no ruim;
Tem-se tanta necessidade do deus mau quanto do bom, um tal deus ninguém
entenderia: para que se haveria de tê-lo? Sem dúvida, quando um povo sucumbe,
quando sente desaparecer definitivamente sua crença no futuro, sua esperança
de liberdade e as virtudes do submisso como condições de conservação lhe
entram na consciência, então é preciso alterar o seu deus. Ele se torna agora oculto, temeroso, modesto, convida
à “ paz da alma “, a não mais odiar seu amigo e inimigo, moralizando de
toda virtude privada, tornando-se deus para todos, homem privado e
cosmopolita... Outrora
representava um povo, toda a agressividade e sede de potência da alma de um
povo: - agora é meramente o bom deus...
De fato, não há alternativa para deuses;
ou são a vontade de potência – e então serão de povos – ou
ainda, a impotência de potência – e então se tornam necessariamente
bons... Como se pode ainda hoje permitir a
ingenuidade de teólogos cristãos, para decretar o desenvolvimento do
conceito de deus, do “ deus de Israel “, ao deus cristão, somatória de
todo o bem, para um progresso? Se
tudo o que é forte, senhorial é eliminado do conceito de deus, para um símbolo
de proteção para os cansados e tábua de salvação para todos os que se
afogam, tornando deus dos pobres, pecadores e dos doentes por excelência,
com o predicado “ salvador “ e “ redentor”. Sem dúvida: - com isso “ o reino de
Deus “ se tornou maior. Outrora
ele tinha seu povo “ eleito “, hoje, ganhou “ o grande número “ e a
metade da terra para o seu lado, não se tornou a despeito disso, nenhum
orgulho deus de pagãos: - permaneceu judeu, o deus de todos os cantos e
insalubres do mundo inteiro!...
Seu reino neste mundo é, antes como depois, um hospital, um
reino-ghetto... Difíceis de compreender, os judeus imaginaram por
tanto tempo à sua volta, até que ele, hipnotizado por seus movimentos, se
tornou indivíduo versado em metafísica.
Então ele tramou outra vez o mundo a partir de si – e
transfigurou-se em algo pouco espesso, tornou-se “ ideal “, “ puro espírito
“, “ Absoluto “... Degradação
de um deus; Deus se tornou
“ coisa em si “... Com a morte na cruz, Paulo toma corpo com
os ensinamentos, o sentido e o direito do Evangelho inteiro e lançou somente
aquilo que podia aproveitar. Não
a realidade, não a verdade histórica!...
E mais uma vez o instinto de padre do judeu cometeu o mesmo grande
crime contra a história – simplesmente riscou o ontem e inventou para o
seu uso uma outra, falsificou a história de Israel mais uma vez, para fazê-la
aparecer como pré-história de seu feito... A Igreja falsificou mais tarde a história
da Humanidade em pré-história do cristianismo... Nada ficou intacto, nada ficou sequer semelhante à
realidade. Paulo deslocou
o centro de gravidade daquela inteira existência na mentira do Jesus
“ ressuscitado “, no fundo, simplesmente não podia aproveitar a
vida do redentor, necessitava da morte na cruz e algo mais ainda...
Queria o fim; conseqüentemente, também os meios...
Sua necessidade era a potência, para isso aproveitou conceitos,
ensinamentos, símbolos, com os quais se tiranizam massas e se formam
rebanhos. A invenção de
Paulo, seu meio para domínio de padres, para a formação de rebanhos: - a
crença na imortalidade – isto é, a doutrina do “ julgamento “... Tirou-se da vida toda a gravidade.
A grande mentira da imortalidade pessoal destrói toda a razão, toda
natureza que há no instinto – porque tudo que é benéfico nos instintos,
que propicia a vida, que garante o futuro, desperta agora desconfiança...
Que cada um, como “ alma imortal “, seja de igual ordem que o
outro, que na totalidade de todos os seres a “ salvação “ de cada um
possa reivindicar uma eterna importância, e não como os carolas imaginam
que por amor deles, as Leis da natureza são constantemente violadas. O cristianismo deve a essa deplorável
bajulação da vaidade pessoal sua vitória, a “ salvação da alma “ –
o veneno da doutrina e mágoa das massas, forjou para si a principal arma que
tem contra tudo o que é nobre, e nossa felicidade sobre a terra...
A “ imortalidade “ concedida a cada Pedro e Paulo foi até agora o
maior atentado contra a humanidade, e não subestimemos a fatalidade que, a
partir do cristianismo, se infiltrou até na política!
Ninguém hoje tem a coragem de ter direitos particulares e de domínio,
de ter um sentimento de veneração por si e seus semelhantes...
Nossa política está doente dessa falta de coragem!
O aristocratismo dos sentimentos foi encoberto pela mentira da
igualdade das almas, é no cristianismo que traduzem toda revolução
meramente em sangue e crime. Os Evangelhos são inestimáveis como
testemunho da corrupção já incontável no interior da primeira comunidade;
o que Paulo, com cinismo lógico de um rabino levou até o fim, foi o
processo de degradação que começou com a morte do redentor. Esses Evangelhos Têm suas dificuldades por trás de
cada palavra empregando somente conceitos, símbolos, atitudes, que estão
comprovados na praxe do padre, como arte de corrupção psicológica.
A Bíblia em geral não tolera nenhuma comparação, dizem eles, “ não
julgueis “, mas mandam para o inferno tudo o que fica em seu caminho –
julgam eles próprios ao exigirem precisamente as virtudes para as quais são
aptos. Reivindicam para si
os conceitos “ Deus “, “ verdade “, “ luz “,
“ espírito “, “ amor “, “ sabedoria “, “ vida “, como
se fossem sinônimos de si, para com isso delimitar o “ mundo “. Que ninguém se deixe induzir em erro: -
grandes espíritos são descrentes, a liberdade diante de toda espécie de
convicções pertence à força, o poder-olhar-livremente...
O homem da crença o “ crente “ de toda espécie, é
necessariamente um dependente. Um
homem que não é capaz de se propor como fim, em geral não é capaz de
propor fins a partir de si. O cristianismo foi o vampiro do Império
Romano. Essa organização
era firme o bastante para suportar maus cessares, mas não o bastante contra
a mais corrupta espécie de corrupção, contra o cristão...
A tortuosidade de carolas, a clandestinidade de conspiradores,
conceitos sombrios como inferno, sacrifício dos inocentes como mística no
beber sangue, o fogo lentamente atiçado da vingança tornou senhor de Roma,
a mesma espécie de religião que Epicuro havia feito guerra combatendo “ o
cristianismo “, ou seja, a corrupção das almas pelo conceito de culpa,
conceito de castigo e de imortalidade. Epicuro teria vencido todo espírito
respeitável no império romano, por serem epicurista: - então apareceu
Paulo... Paulo, o ódio feito carne, feito gênio, contra Roma e
“ o mundo “, o judeu que adivinhou com auxílio da pequena seita cristã,
à margem do judaísmo, se pode acender um “
incêndio do mundo “, com o símbolo “ Deus na cruz “.
Esse foi seu instante de Damasco: -
Ele compreendeu que tinha necessidade da crença na imortalidade para
desvalorizar “ o mundo “, que conceito “Inferno “ ainda se tornaria
senhor sobre Roma – que com
“ além “ se mata a vida... Renascimento foi a transvaloração dos
valores cristãos, o ensaio empreendido com todos os meios, instintos e todo
o gênio de levar os valores nobres à vitória...
Até agora não houve nenhum questionamento mais decisivo que o do
Renascimento. Tomar de
assalto a sede do cristianismo e levar os valores nobres ao trono, quer
dizer, infiltrá-los nos instintos daqueles que estavam sentados ali um
perfeito feitiço colorido extraterreno.
Uma obra tão divina que em vão se busca uma segunda possibilidade
semelhante. E o que aconteceu?
Um monge alemão, Lutero, veio para Roma trazendo no corpo todos os
instintos vingativos de um padre malogrado, revoltou-se em Roma contra o
Renascimento... Em vez de
entender o que havia acontecido, a superação do cristianismo em sua sede
devido à corrupção, (pecado original) e que o Papa não mais estava
sentado no trono, entendeu seu ódio tirar desse espetáculo somente seu
alimento, um homem religioso só pensa em si... E Lutero restabeleceu a Igreja;
tomou-a de assalto... O
Renascimento – um acontecimento sem sentido, um grande vazio!
Uma obra alemã como tantas outras, o Reich que já estava para algo
irrecuperável... Há um
milênio, enredam e confundem tudo o que tocam com os dedos, tem na consciência
todas as meias-medidas de que a Europa está doente e a mais anti-higiênica
espécie de cristianismo que há, a mais incurável, a mais incontestável, o
protestantismo... Se não
pudermos dar cabo do cristianismo, a culpa será dos alemães... Atibaia, 12 de Maio de 2.006.
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