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crítica |
AMAURY MELLO OLIVEIRA |
POESIA
“Arte de excitar a
alma”
Crônica
Amaury Mello Oliveira
A grandeza e a perfeição da poesia está
em que ela expulsa o concurso estéril e esterilizante das coisas; é toda ela, sonho e emoção, -
emoção e sonho que apaga-se ao primeiro sopro da vida, mas que para o poeta em
sua agonia, por um mistério impetuoso e súbito, se petrificam pela surpresa
agitada do ritmo, que age como um estranho dilúvio.
Então, tais coisas semelhantes ao ar e
fluidas, coagulam-se em forma de mármore rajado com estrias de bronze. Das paixões que para nós são
aéreas, impalpáveis e velozes, eles os poetas, fazem catedrais góticas, cheias
de música, complicadas e imorredouras. Eles têm o dom de influir
profundamente da lamentação ao número, de subordinar à medida as dores imensas,
de infiltrar a mocidade ou a velhice humana na primavera ou no inverno do mundo
e fazer assim coincidir a dor própria com a dor universal.
A poesia – como toda forma de arte não é
uma invenção pessoal, é o produto também de uma emoção social e humana. O fim social da linguagem é a
expressão, a transmissão, a comunicação de sentimentos, ela não realizaria este
fim se não fosse entendida senão por uma escolha de espíritos; produto das faculdades emotivas da
humanidade, é um órgão dos sentimentos, uma expressão da sua
vida.
Os grandes poetas da humanidade, só são
obscuros para os comentaristas maliciosos, nós o vulgo os compreendemos à
primeira leitura, apesar das diferenças dos tempos e dos meios. È que eles souberam a muitos
séculos antes de nós, sentir as emoções que ainda hoje experimentamos e, -
souberam exprimi-las excelentemente, - dando-nos a nós a profunda consciência
dos nossos próprios sentimentos, e emprestando-nos a sua língua divina para
exprimi-los.
Eles são sem nenhuma dúvida, os
intérpretes de nós mesmos, os idealizadores do passado, os mestres do sentimento
e os profetas do futuro.
Imaginem um mundo sem poesia e sem arte, seria alguma coisa como que a
preocupação de indivíduos sem inspiração e inúteis, nossa atmosfera espiritual
sufocada.
Não fiquem tristes aqueles que não fazem
versos, porque há uma poesia da ciência que é a filosofia, como há uma poesia da
crítica, que é o humor além de que a prosa moderna que se torna cada vez mais
poética. O pensador de hoje
pode não pensar por metros e rimas, mas há de escrever poeticamente para merecer
o nome de escritor.
Qualquer que sejam as diversidades dos
climas, as aptidões das raças, as variações das épocas é sempre a poesia que nos
faz penetrar nas profundezas da alma humana, como os vulcões nos fazem assistir
as revoluções internas do globo.
Por isso, a poesia é mais filosófica e mais seriamente verdadeira do que
a história.
Os grandes poetas refletiram sempre a
aspiração universal, foram os vaticinadores, os que diziam as ânsias e ao mesmo
tempo o imenso desejo de escalada da espécie humana, descobriram os astros antes
dos homens e adivinharam constelações num hemisfério ainda por conhecer. Antes da realização das ousadias
da mecânica, os poetas sonhavam o vapor, o telefone, o fonógrafo, a máquina, o
automóvel, o aeroplano, que é o mais velho sonho da humanidade, e o computador
digital, uma inovação mais significativa do século
20.
Tradicionalistas, sentiam a natureza
pasmada e dominada pelo homem que penava, sofria, fazia do sangue suor e
materializava o sonho. Nunca
houve na vida humana um momento igual ao presente, o momento em que todos são
poetas e a poesia vive nos menores gestos, nas menores idéias, em cada canto, em
cada corpo, em cada cidade. O
ritmo mecânico regra como uma apoteose à beleza, todos os delírios, o do pratico
que descobre, o do rico que esbanja, o do ladrão que mata, o do anarquista que
incendeia, o da multidão que vibra com a fúria da satisfação na beleza, o sonho
ainda maior de superar, de criar o super-homem, de ser maior que a
espécie.
Acredito que sem o dom da poesia ninguém
possui o senso estético, a faculdade própria de conhecê-la. A natureza é a paisagem, o amor é
a beleza, o brilho da mocidade é a vasta escola de sentimentos que colorem no
mar tumultuoso do coração humano.
Neste largo círculo de impressões envolve-se o espírito do poeta, indo
buscar em tudo o que se depara, a comoção estética, sempre nova nos mais velhos
sujeitos, sempre livre nos mais ferrenhos moldes onde a queiram constranger as
escolas de pouca duração literárias.
Admiremos a divina preocupação dos
poetas, mas não nos perturbemos com fórmulas preconcebidas, nem queiramos
submeter à dosagem científica o pedaço de azul de que precisa a alma humana para
fugir à esmagadora melancolia da vida.
O poeta é, pois, o grande Intérprete, o grande Elucidário do mundo, da
Ilusão inevitável. Os
problemas se limitam ao ser humano, esforçando-se para compreender um mundo de
experiência através dos recursos da humana inteligência, a terra jamais
pertencerá ao homem de bem; - vê-se que para o grande Intérprete, toda a face do
planeta é a expansão superficial de uma deslealdade íntima e irredutível que é o
elemento primário do universo.
Atibaia, 17 de fevereiro de 2.006
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