Meiotom - Crônicas


 

crença

AMAURY MELLO OLIVEIRA

 

 

A religião é um fenômeno presente em todas as culturas e civilizações.   As diferenças entre as várias religiões derivam da maneira como cada uma concebe o mundo superior e as relações entre os homens.   Ela é o elo social mais poderoso na conservação da sociedade.

Proponho constituir um amável concurso de religiões, que seria, ao mesmo tempo, um curso de opiniões e gêneros de filosofia.   Com esse pensamento, a idéia de aproximar os homens separados por ideais eclesiásticos, e em que uma equipe representante de cada doutrina explicaria o seu credo, sem qualquer ofensa aos alheios.

Dezenas são as religiões e suas divisões ao longo do tempo, impossível que todos participassem, para o proposto, ficaria com o judaísmo, cristianismo e islamismo, acrescentaria o budismo, espiritismo e teosofia.   Essas conferências já dariam um curioso tratado das religiões comparadas, os empecilhos que vejo nesse evento seria reunir no mesmo salão, embora em dias diversos, os emissários e sectários das sete religiões acima citadas.

Cada noite o amplo salão tomaria quanto possível à feição de templo da religião que se expunha: - (informa no prefácio) – O judaísmo uniria nos seus cinco livros sagrados todas as medidas indispensáveis à reorganização de um povo roído de vícios, e do espírito de anarquia, que posto em liberdade, levava para a pátria todas as vilezas do cativeiro.   De um código de bem-viver fizeram os judeus a lei do bem-morrer.

O cristianismo seria dividido em duas partes:- (primeira) O catolicismo romano acordava no oriente, e em particular na Palestina, a consciência da sua condição política e da sua inferioridade social, reunindo todos os desesperados da felicidade terrena, aos quais oferecia, com a doçura da sua doutrina, consolo e esperança.   Foi na escuridão da Idade-Média, porém, que ele se caracteriza definitivamente, tomando as formas do catolicismo atual.

O protestantismo (segundo) - surge quando Lutero solta o grito de rebeldia, nos domínios da Igreja Romana contra os sacerdotes que infringiam as velhas leis pontificais, dos soldados de Cristo dentro da disciplina social e moral.   Dessa rebelião nasce o protestantismo, cuja finalidade consiste na volta do cristianismo às suas formas iniciais, despindo-o das demais incorporadas, por necessidade política, durante o período medieval.

O islamismo surgiu no oriente que se enraizava no judaísmo, mantendo por intermédio deste, certo contacto com o cristianismo ocidental.   Maomé seu fundador, estabelece a paz entre tribos árabes e com as comunidades judaicas, estabelecendo o controle das rotas comerciais.   Morre, deixando uma comunidade espiritualmente unida e politicamente organizada em torno dos preceitos do Alcorão.

O budismo teve origem pelos ensinamentos do Príncipe Sidarta Gautama, o Buda.   As quatro nobres verdades constituem o núcleo da doutrina: - Duka, a existência é dor; Samudaya, a origem da dor é o desejo; Nirodha, o fim da dor é a completa supressão do desejo; Marga, o caminho para a superação da dor é formado pela compreensão, pensamentos, palavra, ação, modo de vida, atenção e concentração corretos.

O espiritismo, que não constitui uma religião propriamente dita, teria o retrato de Allan Kardec e um orador, apresentaria as máximas do codificador com musicas espiritualistas.

A teosofia síntese de todas as religiões, fecharia a brilhante série, falando o preletor ladeado por doze gráficos das principais religiões, ao som do belo hino teosófico.   Seria enfim, com o devido respeito, a feira-livre da alma, com preços marcados em árabe, páli, hebraico francês e latim.

A simples circunstância de oficiarem na mesma sala, embora em dias diversos, já seria motivo de espanto.   As religiões eram e continua sendo, um veneno a mais no coração dos homens, veneno esse que vai evaporando, que os ódios se vão dissipando, e que os deuses vão aos poucos se transfigurando, de modo a nutrirem alguns dos seus fiéis à esperança de um dia, vê-los fundidos em um só.   Porque na verdade, Deus é, ou deve ser, um só na estrutura e no espírito.   A diversidade da sua figura é um defeito dos olhos que o Vêem.

Quem examina atentamente as religiões que dividem a humanidade e lhe têm custado tanto sangue e tantos séculos, vê realmente que todas as divergências não passam de uma questão de coerência.   Se o sentimento religioso não fosse tão melindroso de deterioração, transformando-se na mais indomesticável das paixões, os homens civilizados de todas as raças e de todos os climas, já teriam visto e estariam todos de acordo.   A máxima cristã: - “não faças ao seu próximo aquilo que não queres que te façam”, é encontrada em todos os dogmas, como uma das pedras fundamentais de qualquer doutrina ou sistema.

A religião é introduzida no indivíduo, em idade em que ele ainda não tem a faculdade de julgar as coisas, essas lições ficam-lhe no subconsciente, daí o caráter coletivo do sentimento religioso e o alastramento das doutrinas de acordo com as raças e as regiões geográficas, sufocando no indivíduo os direitos adquiridos posteriormente pela cultura.   Transmitindo no espírito infantil a idéia de um Deus, que jamais ele se libertará dela.

O indivíduo pode elevar-se nas ciências, nas letras, na filosofia, aperfeiçoando e polindo a inteligência; no domínio religioso, porém, ele pouco diferirá do seu contemporâneo que permaneceu analfabeto, alheio às conquistas que ele realizou na esfera do conhecimento.   A diversidade do solo influi quase nulo sobre os resultados da semente.   O prestígio da fé exerce a sua influência sobre nós até depois de desaparecida.

À medida que se vá descuidando a propagação das doutrinas nos espíritos infantis, menos os homens serão apaixonados pelos credos dos adultos, e desse modo, mais preparados para a fraternização, que não é no caso, senão a soma final das renúncias.   Com efeito, desse enfraquecimento do ensino religioso, começa-se a compreender que as religiões são monumentos sociais que certos homens eminentes, encarnaram as aspirações do seu tempo, construíram e deixaram como instrumento de disciplina dos povos.

Evidentemente o espírito humano está reclamando medidas severas e providenciais que o disciplinem de novo, restabelecendo a segurança e a marcha da Humanidade.   Creio que nós caminhamos para o desaparecimento dos dogmas, que neste momento preocupa o mundo e, em particular os que têm uma parcela de responsabilidade no seu destino.   A Humanidade precisa ter fé, e urge o aparecimento de quem lha inspire, porque a religião não só lhe é indispensável aos anseios da alma, como à sociedade, para sua disciplina.

O homem moderno precisa em suma, como Arquimedes, de um ponto de apoio fora da terra.   A fé religiosa é indispensável à felicidade, na sua relatividade.   Na terra falta alguma coisa que não encontramos, nem encontraremos jamais; - “Dizem que tendo Deus idealizado o mundo, metera mão à obra com a maior animação, de repente, porém, morreu, quando os trabalhos já iam adiantados, daí ficamos nós, os homens e todas as coisas à toa, como material abandonado no campo, sem atinar até hoje, para que é que o Grande Arquiteto do Universo precisava de nós” .

Somos dessa maneira, simples tijolos de Babel, amontoados na planície.   Em cima o céu imenso e mudo, e em torno, a solidão.  Atibaia 17/ 02/ 2.005. .

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