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Do caminho

 

1.

Do silêncio I 

Sentado à praça,

o atenorado senhor

lê os breviários

de tão afortunada vida.

 

Mais tarde, no quarto,

ao lado da coleção de insetos,

desdobra o bilhete

que outrora, quando moço, endereçou a si:

- debaixo da pele

   carnificina-

 

2.

Do Silêncio II

No banho, a moça

cala o corpo, enrubescida

— a mãe irrompe à porta —

não vê a hora de ocupar-se

uma vez mais,

das roupas de baixo da filha.

3.

Do Silêncio III 

turíbulo na mão,

início de presença

mas a fumaça não ascende

névoa nos óculos

das senhoras da primeira fila

fogacho de meia-idade.  

4. 

Do Inabordável

eu já era

Nos alicerces da casa de batismo

Na maçaneta que destravava os dias

a procura pelo fio

— o desejo de amar o mundo — 

5. 

Da Acídia 

na encosta da  mulher

fios desencapados soldam  a ligadura

Destravo a fome e o fogo se instala em carne viva

sou beirada

6.

Do Sagrado 

Faz um calor.

O burburinho abotinado dos pés anuncia um passo.

As pedras aguardam no pó.

Nenhuma ave rasgou,

nenhum réptil umideceu o ar.

No lugar um repouso.

Na respiração a única via.

O silêncio recorda o corpo.

E o que teima é saber

o quanto temos do dia.  

7.

Da Precisão 

quando me aproximo  do espelho

tudo é  vermelho entre nós. 

8.

a Missão

é a única coisa que resta antes de partir.

9.

Existindo já era a forma de ser aquilo que queria, não esforçando a feitura de um outro mais bem acabado, sabia que mesmo sem se mover já estava sendo. O olho do outro imediatamente me dizia quem eu era, destravando todas as possibilidades que vagavam na lembrança. Quantas vezes tentei ser outra e tantas vezes fui a mesma. 

10.

Crescer nos torna menores

E uma flor a mais é o suficiente. 

11.

Um salto por vez. Nunca o fatal.

Vivo para o preparo de uma refeição que nunca será comungada. A eucaristia final é terrível, não pode ser praticada.

12.

A dobradiça da porta contém a possibilidade de morrer de luz. No mergulho não há espaço. É como olhar para trás e encontrar uma parede e, num gesto desesperado, dar um passo adiante e encontrar ela mesma.

Lado a lado com a parede fica-se mais dentro de si. A saída é deixar a oura vida entrar.
 

13. 

Não me olhes com os olhos de ontem. Não será possível nenhuma ponte entre nós. Olhe-me hoje, façamos um vocabulário do sol claro na janela, da noite que passamos solitários que sustenta esta vontade no olhar.

14. 

Um salto por vez. Nunca o fatal.
Vivo para o preparo de uma refeição que nunca será comungada. A eucaristia final é terrível, não pode ser praticada.
 

 

Ângela Castelo Branco mora em São Paulo, é mestre em Educação e membro do Atelier do Centro- SP (espaço interdisciplinar de formação em arte), atua na formação de educadores e artistas. Possui um livro de poesias publicado pela editora Laser Print: “Orações” (2008) e dois livros independentes: “Oferenda” (2008) e “O que digo, O que me diz” (2009). Atualmente escreve poemas em interlocução com o artista plástico Rubens Espírito Santo.

Site do atelier do centro: www.atelierdocentro.com Blog:www.angelacastelobranco@blogspot.com E-mail: angela.ito@bol.com.br