Meiotom - poesia


 

O Belo e a   Fera

marco aqueiva

 

 

I

 

O paladino desliza com as mãos pensas

na sala de espera

 

Enrodilhado e limitado ao norte

por infindas e inúteis passadas

na sala de espera

 

O paladino sabe que as patas são seis

supõe então que o adversário não mais

que um monstruoso inseto é não mais

que um coração roído de cansaço

na sala de cirurgia 

 

Enquanto esconde lama entre os lírios

do peito, espaneja o e o fim

do cerco com seus olhos ao céu baixo

na sala de espera

 

II

 

Na sala de cirurgia

qual boneca de borracha

consistência estranha e repulsiva

senão mansamente viscosa

mal se abriga a memória fria

da fereza traiçoeira

 

Na sala de cirurgia

cada vez bem menos alto

oscila o fogo e a agonia

incontroláveis e ocultos

varando o entrelaçado

de cavaleiro e sua grei

 

Na sala de cirurgia

na inércia do corpo

no avisado negativo

dessa inércia outra imagem

se esculpe precisa e sonhada

– a do cavaleiro que lhe lambe

 

o rastro e a baba lentamente

 

III

 

Na sala de espera

o cavaleiro enfiado

nos passos mudos de espanto

 

Na sala de cirurgia

os físicos cavalões

lavam suas mãos e confiança

 

Ao último ronco do réptil

acompanhado dos fios

das armas do cavaleiro

 

A vida resvala em nuvens

pretas na grande cidade

E à sombra do cavaleiro

vai alta a lua vazia

 

Que líquido aquele escorre

da mesa de cirurgia

desmantelada?

 

Fanta uva mansa e turva

vertida ao certo e em fadiga

e em outras águas implícitas

IV

 

Na sala de cirurgia

o cavaleiro de seu périplo

livre de nunca ter saído

 

(sem ar-

-livre assim o diz a película

“Do Cavaleiro contra a Besta

 

Leda” – como se põe nas vazias noites

do outro lado da fita em desamparo)

 

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MARCO AQUEIVA é o nome literário de Marco Antonio Queiroz Silva. Autor de Neste embrulho de nós (vencedor do III Prêmio Literário Livraria Asabeça 2004), é editor associado da revista O Escritor, da União Brasileira de Escritores.