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I
O paladino desliza com as mãos pensas
na
sala de espera
Enrodilhado e limitado ao
norte
por infindas e inúteis passadas
na
sala de espera
O
paladino sabe que as patas são seis
supõe
então que o adversário não mais
que um monstruoso inseto é não mais
que um coração roído de cansaço
na
sala de cirurgia
Enquanto esconde lama entre os lírios
do
peito, espaneja o pó e o fim
do
cerco com seus olhos ao céu baixo
na
sala de espera
II
Na
sala de cirurgia
qual boneca de borracha
consistência estranha e repulsiva
senão mansamente viscosa
mal se abriga a memória fria
da fereza
traiçoeira
Na
sala de cirurgia
cada vez bem menos alto
oscila o
fogo e a agonia
incontroláveis e ocultos
varando o
entrelaçado
de
cavaleiro e sua grei
Na
sala de cirurgia
na
inércia do corpo
no
avisado negativo
dessa
inércia outra imagem
se esculpe
precisa e sonhada
– a do
cavaleiro que lhe lambe
III
Na
sala de espera
o
cavaleiro enfiado
nos passos mudos de espanto
Na
sala de cirurgia
os
físicos cavalões
lavam
suas mãos e confiança
Ao último ronco do réptil
acompanhado dos fios
das
armas do cavaleiro
A
vida resvala em nuvens
pretas na
grande cidade
E à
sombra do cavaleiro
vai
alta a lua vazia
Que líquido aquele escorre
da
mesa de cirurgia
desmantelada?
Fanta
uva mansa e turva
vertida ao
certo e em fadiga
e
em outras águas implícitas
IV
Na
sala de cirurgia
o
cavaleiro de seu périplo
livre de nunca ter saído
(sem ar-
-livre
assim o diz a película
“Do
Cavaleiro contra a Besta
Leda” – como se põe nas vazias noites
do
outro lado da fita em desamparo)
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MARCO AQUEIVA
é o nome literário de Marco Antonio Queiroz Silva.
Autor de Neste embrulho de nós (vencedor do III Prêmio Literário Livraria Asabeça 2004), é editor associado da revista O Escritor, da União Brasileira de Escritores.
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