O SOCO NA NÉVOA
Para Mariana Ianelli & Sérgio
Santana
For
man has closed hiself up, till he sees allthings thro’narrow chinks of his
cavern
William
Blake
1.
O
PARADOXO
A
enfermeira comenta
sobre os
fetos
que ficam no
útero
além do
tempo necessário,
suas
unhas crescem e
como
são finas,
eles se cortam no
rosto,
sua
pele se descola do
corpo,
eles evacuam e
depois de comerem as
próprias fezes sem terem nascido morem e
apodrecem.
2.
A
PORTA
Fumando uma
idéia
dentro desse
açougue
metafísico
:
É
quase
impossível
não pensar no
paradoxo
quando irrompe nas
esquinas,
a
humanidade
com
sua corrompida
verticalidade
que
jamais se tornará o
diamante
sonhado
pelo SER
em
Bento Prado
Jr.
se proliferando
como a
imaginação
paralisada
como o
som da
chuva
atravessando
gerações de
nuvens
até ser ofuscado
por essa
matéria
escura
do Sr.
Klee,
impossível não-pensar
nisso
ao vermos a
turba
exilada
em
tristes
pedaços de
carne
sem
nenhum êxtase
ou os
incontáveis
mortos
imitando a
concha
no
ácido do
sublime
carvão do
Eu
:
(
Um
assassino se escondendo
dentro do
tempo
)
Enviando a essência franqueada para campos de concentração dentro do Sol
(
Seus
raios cantando o
infinito-foda-se )
Impossível não pensar nos olhos
Do
Saturno do Sr.
Goya
Na
capa do
Ou o
poema
contínuo Do Sr.
Helder
mirando os
raios,
estes
que
escrevem
um
cachorro
morto no
céu
.
Impossível
não pensar no
Mozart-quântico
que
mora no
fundo da
multidão-sono
como uma mônada-semente
que
não
vinga
apodrecendo no
jardim
esquizocênico...
Não pensar
nas balas-perdidas, no
perfume das
granadas
explodindo no
bar das
Parcas...
Num eclipse-invertido
seguido de uma chuva
fina
por
dentro do
olhar
da
criança
recém-esquecida...
Nesse bar-iceberg
para o barco-bêbado no
sangue
dos
amantes-kamikases
(
Não há
outros?)
habitando
como Mozart o
fracasso da
fusão
do
um
em
um
(
Nuvens de
vapor)
no céu de
Titanic-world...
Impossível
não pensar no
fracasso
invisível
dos
cadernos de
cultura
onde o
tédio de
Camus
encontra o de
Valéry
e
ambos
são
dissolvidos
pelo olhar de
um catador de
papel
às 4 da
manhã na
portaria da
USP
(
Apenas
um
esqueleto de
vento comenta essa
idéia
esquiva)
Enquanto ainda sonhamos
com a
devolução das
auroras
roubadas
ou
com o
cheque
sem
fundos do
carinho
entre
estranhos,
impossível
não pensar na
covardia
disso:
A
visão de
um catador de
papel neutro-efervescente
totalmente anulado
pelo primeiro
círculo,
nem na
covardia desse
falso-poema
da ficçionalização do
encoberto
ou
em outras
nadificações
que alimentam
em
nós
o olhar de
Saturno
e o
desejo
por
carnificinas
tão
banais
que equivalem a
ouvir, no
cinema
um celular tocando no
meio do
filme,
como
um
veneno para o
sentido
oculto
nas
vozes dos
atores,
anulando,
não as
chacinas,
mas a
intensidade
das
ausências,
como
um grito
em
Bach.
PAUSA PARA UMA
PERGUNTA
:
É
melhor
continuar sendo o
fantasma de
um
poema
ou
em
um
poema?
Ou
outra
pergunta
?
Que se abre no
sono-dos-sonos
da
superficialidade, nessa
massa
flutuante
de
anti-seres,
onde alguma
coisa
há
indo de
encontro, ao nada-
absoluto
que
não
há.
É impossível não pensar no pouco tempo que nos resta
Para tentar voltar ao
outro
:
Ao
outro-agora.
Impossível
não pensar na gratuidade,
onde o
Sol nasce pisando nas
nuvens,
para vomitar
sua
luz
no
banheiro
sujo da
humanidade
:
Esse
oceano
imóvel...
Não pensar nessa
chuva
de satoris
falsificados
através do
sonho das
multidões...
Nem na
implosão dos
cemitérios
verticais da
arte
Criando
um
gigantesco anti-smog
Para o
sono dos
sentidos...
Não pensar no
cansaço da
visibilidade
,
Na
inauguração da
fábrica de
suicidas-amadores,
(
Não há
outros?)
Na
essência
evaporada
passando
elo
buraco da
agulha
e desaparecendo no
brilho
surdo
da
película de
Berkeley.
Podemos
ouvir
nos
ossos a
voz
do
grão de
areia
cantando o
nosso
nome para o
azul,
na
tela
Solidão do Sr. Iberê
Camargo.
Não pensar no
pouco
tempo
Para projetar
nosso
riso
na
festa dos
cadáveres
sem
centro,
isso equivale ao
sono
desesperto
na
saída do
baile
funk
ou ao
sono-allegro-disperso
de uma festinha
universitária,
em ambas erguemos
um
brinde
seco
para o
véu do
corpo,
enquanto a verdadeira
festa
móvel dos
galhos
avança
pelos
destroços da
calçada,
até alcançar os do
asfalto,
ali os
pneus dos
carros cantam uma
ária
dodecafônica
para as
marcas
das
calcinhas nas bundinhas das
mãezinhas
de
13,14,15,16,17,18,19,20 e 21
que rebolam
para o
sempre e o
mesmo,
opaciadas
por essas
minúsculas asinhas de
Ícaro
quebradas e retorcidas
em
seus
ventres,
como seqüestrados
em
porta-malas,
crianças
que irão
cair
para o
sempre e o
mesmo
rútilo
vaso
sanitário do
projeto
humano
:
Uma
biblioteca
deserta
nos
subterrâneos
de uma
igreja
gótica
abandonada...
Enquanto
isso,
Um
bêbado
canta
um
hino
Que
mistura os
hinos
do Corinthias e
do Flamengo
co o
Hino
Nacional
e o
resultado parace
mais
autêntico
do
que o
país
em
si...
É impossível não pensar em esculpir
um
cão
negro co os
restos dessa
criança
jogada na
vala
do
silêncio
ou na
gaveta de
cimento
das
cintilâncias.
Essa é
para o Sr. Auden
:
O
cemitério da
memória transcende a
ficção dos
fatos?
Posso
ouvir a
sua voz ecoando no
jardim, dublada
Pelo esqueleto azul de Bruno Tolentino
:
-
Por
exemplo,
em Hamlet, é
fácil
notar
que o
amor e a
morte possuem a
lógica de
um
assassinato,
com uma
sutil
diferença...No
amor a
ausência
é evocada
para tentar materializar o
fantasma de
um
vivo.
Na morte, a vala comum do silêncio
explode e amplia o
meio do
rosto,
pétalas caem para dentro...
Por
que
não conseguimos
contornar o
nada
com
nossa
mudez?
E há um não-grito caindo
No
piso do
Banco Dostoievski, do
Hotel
Proust,
Do
Google Bank...
Um
não grito no
cemitério
clandestino do
universo...
Ainda estou no
açougue-presídio, a chegada da
tropa de
choque
não
me acordou do
metafísico.
É impossível não comparar
a
chegada da
tropa de
choque
com a
inércia dos
anti-corpos...
Não pensar
em Simone
Weil
se esquecendo de
Jesus
no
meio da
chuva
:
E se a
partícula
pensa.
Ela pensa.
Também choveu no
banho de
sol
Interrompido pela rebelião
em
volta do
presídio de
segurança máxima,
centenas de teresas
em
chamas,
formam uma
flor
...........................................................
São os
comandos de
um
lado e as
facções do
outro
Ela está
pensando,
dentro da
cabine do
helicóptero
da
polícia
ou da
CIA
(
Que
diferença
fará?)
Pensa a
policial...
Nem
mesmo
são
coisas,
como podem
pensar?
Simone Weil diz
para a
chuva.
A
mesma chuva
que
dezenas de
anos
depois
molha o
visor do
capacete dos
soldados,
Simone Weil
passa
por
mim e entra na
fábrica.
Esqueça a
tropa de
choque, procuro
pensar,
pensar
como as
partículas,
pensar
nos
mortos
que sonham
conosco
quando estamos
acordados,
pensar no
fantasma do
universo,
nos
raios desse
fantasma
saindo do
Sol,
em Cy
Twonbly
desenhando o
canto dos
pássaros
dentro do
açougue.
Em
Mozart...
É
melhor
não.
Me dizem as
partículas-Bartleby
O nome do jogo, é sonhar
Pode
ser uma
bela
inversão da
lógica da
morte,
ao
tentar não-pensar
penso,
logo,
sonho.
Sonho
com Chet Baker fumando
um
cigarro
na
sacada do
hotel,
antes de
cair,
com
minha
mãe
morta
me
acordando,
sonho
que
não
existo,
sonho
com Baudelaire e dizendo
que
:
A
vida
humana
vale
menos do
que uma
fábula de
Akutagawa.
Sonho
que Bogart e Camus
são a
mesma pessoa,
sonho
que
Miles e Coltrane estão
tocando com os
Beatles,
sonho
que Jorge de
Lima está lendo A
invenção de Orfeu
para
Brian Wilson,
sonho
um
peixe de
gelo e
lentamente
me transforo
nu
peixe de
fogo,
sonho
que
acordo e
não
me lembro
onde deixei
meu
corpo,
sonho
que
acordo e
não
me lembro de
ter
acordado
e as duas
sensações
são a
mesma,
sonho
que posso
enxergar a
energia do
silêncio,
sonho
que
acordo
fora do
sonho e pergunto
:
Pergunto ao
silencioso
inferno
que
não funciona
direito,
Pergunto ao
alto
fundo dos
oceanos,
Ao
imóvel fantasma do
universo,
pergunto
para as
paradas
cardíacas,
para os
buracos
negros das
balas,
para o
brilho e a
fumaça dos
pneus
queimando
MEU CORPO,
Para os soldados de
13,14,15,16,17,18,20 e 21
Cantando e dançando
em
volta da
fogueira...
Para a
escuridão das
covas
vazias,
para os
espaços
livres da
minha presença,
infinitos
ou
não,
que
importa?
Pergunto anulando o
não-grito :
Se
não há tempo
nenhum, em
lugar algum,
que estranho
anti-sonho é esse,
onde nada revela
sua essência e
propósito?
E a
resposta,
meus
caros,
É
como
um
soco,
Tão
forte
que
me
joga para
fora,
Tão
óbvia,
que
me recuso a
escrevê-la.
Apenas
me
levanto
Dentro de
mim
mesmo
Em algo
que jamais senti
ou pensei
antes
E entro na
Névoa.
Marcelo
Ariel
Dezembro de
2007