Meiotom - poesia


 

Tratado dos Anjos Afogados - Ed. Letra Selvagem

marcelo ariel


NA MORTE

 

Na morte
o núcleo do silêncio
onde logo estaremos
uma vez dentro
sim é não
e não é nada
os de fora dizem
morremos
não podem ouvir nossa voz
num sussurro dizendo
tudo está em nós.

 

 

ROSA DO INFERNO

Nonada barulho das bombas do centésimo explodindo o Cristo Redentor, o senhor mire e acerte essas crianças são as hordas clonadas...

 

DIÁRIO DOS FILMES

Em "Crash"
Cronemberg alcança Camus
ao tentar recriar a aura parada do cotidiano,
noto que entre a cena final e a cena no ferro-velho
se insinua uma suave dimensão
épica para uso dos suicidas.

 

AQUI

 

A volúpia do ser invísivel é como esse torpor ouvindo "Meu nome é ninguém" no crepúsculo de Cubatão. (O menino de nove anos que nunca pisou na zona industrial internado com leucemia). Depois ficamos sabendo que o ar era o Stalker. No hay graça nonada? Então vamos para Santos, o cão-mendigo-criança atravessando a praia do Gonzaga invisível como o Deus dentro do vento destroçado onde o fantasma do oxigênio dança com a morte no andar do tempo e as irradiações do sonho e as do sol constroem essa prisão que Hegel (Um pássaro morto) ou Wittgenstein (Uma orquídea seca) chamaram de certeza do improvável (O nosso único trunfo) contra o fracasso antecipado do exército das musas, enquanto na esquina o gênio do niilismo se levanta numa nuvem de maconha transgênica logo ali onde outro zumbi adolescente vomita as asas na música dos gritos e o absurdo do início e do final são a maesma picaretagem do invisível.

Marcelo Ariel, natural de Cubatão, um pós das nascentes fuliginosas das chaminés do imprevisto, fruto de um caos Norma Benguel-Artaud literário, do livro TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS, Ed. LetraSelvagem, www.letraselvagem.com.br