Meiotom - poesia


 

 

marcelo ariel

O TEATROFANTASMA
 
1.
 BLUES PARA ESTAMIRA
 
 
o teu olhar
no olhar da mulher revirando o lixo
o teu olhar
no olhar do homem sentado no Iate
o teu olhar
no olhar do índio desdentado
o teu olhar
no olhar de Maura Lopes Cançado
era sempre o teu olhar
esse olhar
que pensávamos ser do outro
era teu
o olhar  que depois
na onda continua aberto
na ausência
do nosso
que foi apenas a casca
do Vosso.
 
2.
 
BLUES PARA MIM MESMO
 
Que eu caia no abismo
do incondicionado
Que eu não seja Real
que só tu o sejas
Tu que infinatamente
és nadificado
Ó Laico
 Santo dos Santos
que santifica o mundo
Onde tu estavas
quando cem mil foram trucidados
Estavas no grito
do filamento
da lâmpada?
Na atenção das
cadeiras vazias?
Onde Tu estavas
quando vinte mil
foram empalados?
Estavas
no egoísmo dos plásticos?
Onde Tu estavas
quando quinhentas
árvores foram queimadas?
Em nossa voz
derretendo
na casa vegetal da Alma?
No túrbido heredograma?
Nessa rutilância sombria
se vendo em nosso sangue?
Sim, sentimos o mar
dentro dele
como a
rua sem saída
do tempo...
Em ti
o Anjo de Durer pede
um cigarro de oxigênio
para o Saturno de Goya,
O que eles dizem
um ao outro?
Tu o sabes?
É o nosso verdadeiro nome?