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Caleidoscópio negro

 

A vida é uma tela de Francis Bacon. Foguetes soltos no espaço. Corro em disparada em direção ao descaminho. Trilhos me fazem andar em linhas curvas e perigosas. Tenho vertigens, vejo imagens ocas e brancas. Eu sabia que não poderia haver amor entre um escorpião e uma cobra. Guizos presos no meu dorso. Dentes e pernas não me afligem. Atalhos e mãos cessam minha fúria de fêmea no cio. Crinas nascem e morrem no meu sexo. Cavalos feridos são simplesmente assassinatos sem golpes cruéis de faca. Minha dor é olhar o mundo e não ver nada além de um poço fundo e imundo - desalinho - cavo o meu próprio umbigo. Flores não nascem em mim. Esterco. A morfina não adormeceu noites nem aliviou o terror das minhas lobotomias. Do lado de fora, o sol e a lua se encaram, frente a frente, como se não houvesse precipícios. Insulinas me invadem e me tornam menos doce. Não sei se punge mais os meus rasgos ou meus remendos. Queria entender o vermelho-morte de Almodóvar. O amarelo suicida de Van Gogh. Arrancar com carinho os lírios que brotam à margem do meu corpo. Como sonho pisar em minha própria sombra!!! Lucio e seus olhos oniscientes. Cristalinos. O terceiro olho da ignorância. O meu monstro de sete cabeças. O nosso amor é um labirinto repleto de portas falsas. Caranguejos roçando folhas à procura de abrigo. E eu, de cócoras no escuro, devorando com aflição meus pequenos defuntos. Fetos inocentes flutuam dispersos na minha barriga. Quente feito mármore. E eu não tenho coragem de arrancá-los com as pontas dos dedos. Punhos verdes e inertes. Meu corpo delgado vomita pores-de-sol. Arco-íris entorpecidos adormecem depois das tempestades. Lucio se foi e minha cegueira não me deixou degustar os detalhes mórbidos da sua partida. Deito na minha gaiola de aço e espero o pássaro negro e cego devorar o resto dos meus olhos. Esbranquiçado.