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BERTOLUCCI POR carlos pessoa rosa

 


BERTOLUCCI SEM UTOPIAS

Um artista pós-moderno está na situação de um filósofo, o texto que escreve, a obra que realiza, não são em princípio governadas por regras já estabelecidas, e não podem ser julgadas mediante um juízo determinante, aplicando a esse texto, a essa obra, categorias conhecidas. Pós-moderno devia ser entendido segundo o paradoxo do futuro (pós) anterior (modo). Lyotard

 

Um jantar. França 68. Na mesa, um jovem estrangeiro diante da discussão do filho com o pai, o velho e o novo rei, o matriarcado agonizante e o vitorioso novo. Será? Primeira ruptura do olhar. O desinteresse do estrangeiro irrita o pai. Irritamento transformado em elogio tão logo percebe que o jovem fala da ordem das coisas ao redor. Para o pai, velho-poeta, o caos antecede a percepção da ordem, sendo esta uma necessidade humana diante dos mistérios da existência, e que uma petição não passa, diante do todo, de um poema. Não passamos de um ponto no tempo-espaço. Jantar ou banquete? Conflito de gerações. Os mais novos ainda protomatéria, indiferenciados, informes, tentando alguma forma no anárquico, no caminho da individuação. A saída ferida, conflituosa da mesa. O convite sensual da mãe para que dormisse na casa. O incesto insinuante no toque da moça no pai, no beijo no irmão, dos corpos nus flagrados na madrugada. A casa labirinto, atemporal, pouco a ver com 68 afora as colagens e esculturas de atores das artes e da política que fizeram época, entre os três um jogo pelo conhecimento da história do cinema, representação dentro da representação, a casa, inconsciente com seus arquétipos, sendo a trama apenas mais um elemento da bricolagem, abundância das citações de elementos roubados a estilos ou períodos anteriores, clássicos ou modernos, certa dose saudosista da utopia perdida, a modernidade não mais, agora, erótica por excelência, onde afetos entrecruzam-se, ritual de passagem, a jovem, Afrodite, a que fez até Zeus perder a razão, doa a virgindade ao estrangeiro, o sangue, veículo das paixões, na comunhão dos lábios, os três mergulhados em banho purificador a sancionar a puberdade, pedaços de corpos, fragmentos, imagética pós-moderna, imersão como regressão uterina, o estrangeiro sempre a querer humanizar a relação, afeto-amor-sublime, o amor antigo, no fundo do cinema, sair de mãos dadas, roubar um beijo, estética moderna, saudades, mas Afrodite perversa, sado-masoquista, o amor não sublimado, no nível animal, satisfação apenas dos instintos, herói em missão e virgem a conquistar se inserem na ilustração mítica não somente como sentido da vida do homem e da mulher, mas também como uma abrangência de todos os aspectos da existência. À pulsão evolutiva aglutina-se a pulsão sexual, nada de incesto ou conflito de gerações, mas a constatação, como fundo o erotismo que se diferencia da pornografia pelo estético, o incesto, forma de autismo, relações entre os deuses, para abrir o psiquismo, desenvolver o psíquico de uma sociedade ou pessoa, a cabana, habitação nômade, local da existência corporal, átrio que introduz ao outro mundo, mas a vergonha diante da descoberta dos pais, o velho impotente sem poder interferir no fluxo do rio, sempre o mesmo, mas águas sempre outras, a morte simbólica, a realidade pela pedra no vidro, a porta, saída para o mundo real, no capitalismo, representações ditas realistas evocam a realidade sob a forma de nostalgia ou de paródia, como ocasião de sofrimento mais do que satisfação, sublime prazer, dor prazer deriva da dor, conflito entre faculdades de um sujeito, faculdade de conceber e “presentificar” algo, a utopia de um amor para um lado, da violência de outro, assim caminhamos, para chegar a nada, um ponto caótico, anárquico, pouco modifica a ordem, ativar os diferendos, salvar a honra do nome, guerra ao todo, testemunho  em favor do “impresentificável”. Os eternos sonhadores. Bertolucci sem utopias.