Meiotom - poesia


 

 

EDSON BUENO DE CAMARGO

pedra

 

dá-me uma rocha

e seus quatro cantos

voltados para a origem dos ventos

dobrando-se até que sobre uma rosa

 

dá-me ás pás do moinho

e movimento para transformar

grão em trigo

em alquimia de transformar e ser transformada

ai também se dá a roda

a grande mó e seu ruidoso trabalho

ai também se dá a rocha

esculpida a roda na pedra

 

dá-me um ramo de trigo

e suas bagas que chamam o ouro

e este ouro não se acumula

consumido mata a fome

e este é o único que vale de fato

 

dá-me uma roda

e esta movimenta o carro

e seus raios de fogo

cintilando o ouro do circular

uma roda de carro não é nada

sem o vazio que preenche seu meio

para que passe o eixo do carro

 

a roda

do vento

do moinho

do carro

só serão pelo conhecimento do homem

e do seu dom de transformar

a pedra em movimento

 

 

amargo

 

afinar-se com a palavra amargo

e todo o significado que esta traz

o medo inconstante

da água em movimento

trazido com a estação das chuvas

vento breve que arrepia a espinha

em tardes claras

 

o inverno que insiste em dar a sua voz

mesmo já começando a primavera

 

as flores caídas sobre o asfalto úmido

dão à retina

todo o amarelo possível

há acúmulos nos meios-fios

onde caminha a água

 

a noite obstrui como a vida

toda a luz que é

precisa para o ver

 

esperamos todos os anos

as tardes  mais longas

deixando para trás

as noites de escuro não trespassável

 

 

 

prata

 

cravar palavras em espelhos

faca aguda de prata

que reflete minha face

 

dissolver em múltiplas faces

como se estilhaçasse

a própria verdade em tantos  reflexos

que devorassem a luz

com tantos crispares

 

(há razões que desconhecemos,

e pelas quais ainda assim lamentamos)

 

beber os filamentos de vidro

delicadamente misturados à água

como que com isso bebêssemos seu nome

e depois nos untássemos com terra líquida

originária de terremotos

 

migram narcisos em vôo ambíguo

os ventos que carregam flores

não choram nas margens do rio

transportam a casa do sol nascente

nos sonhos do menino que viaja nas cordas da guitarra

 

lembranças são como a brisa no quarto

carregam o pó dos ossos velhos

 

 

comer maçã

 

tenho o estranho hábito

de comer maçã olhando o horizonte

esta insondável natureza

de degustar nuvens com os olhos

em insolência aristocrática

 

tudo o que envolve

além do sabor da fruta

se impregna de gotas de chuva

e azul do céu

 

ou em tarde frias e cinzas

em que o paladar se torna fumaça

e toda a neblina do cheiro

devolve tudo como leve incenso

 

 

quatro sementes

 

quatro sementes de maçã

sobre toalha colorida

 

o menino brinca inadvertido

sem que se aperceba

com quatro possibilidades de árvore

 

somado o menino

mais uma

 

 

 

primeira chuva

 

1

 

no caminho

uma rosa caída obre a calçada

galho arrancado á força

e deportada para o cimento

 

membro decepado de uma roseira

e com tal violência

que a rosa não se apercebe calçada

tem memória de roseira

e formato de pedra

 

2

 

uma escada para o nada

o vazio entre lugar algum e coisa nenhuma

nunca foi usada

de tal modo que o desmonte de horizontes

não dependerá mais só do Sol

 

3

 

há uma mecânica de devorar tempo

desde o princípio de tudo

se cultuava no caos que nos amava tanto

e nos espera

quer que voltemos ao seu ventre

 

4

 

á primeira chuva

a rosa já se embebera de morte

não era mais nada

um galho seco

 

 

asas de vidro

 

anjo de asas de vidro

escorrem pelas tuas costas

líquidas

escamas de peixe

perfume de pequenas margaridas

secando sobre lápides invisíveis

 

odor de tardes vermelhas

faz lembrar lavanda verdadeira

caídas e caladas flores roxas

em escadas de jade

lisas como o talco pedra moído e branco

no vento que move teus cabelos

 

pequenas salamandra amarelas

que incendeiam os olhos sonolentos

a devorar o ferro de pregos velhos em madeira podre

os ferrolhos da porta que range

sem o lubrificante óleo de baleias assassinadas na praia

o som coagulado em ferrugem fluida

que em outros momentos e lugares

chamaríamos sangue

 

que negro sonda a noite de corações latentes

que vibram com a música patente das colheres com pouca prata

contendo sal

 

abram os ouvidos do metal

para que soem sinos de dentes brancos

que brilham como as primeiras gotas ao Sol

água corrente e fresca

dos cântaros de barro fresco

alisados com seixos rolados em espuma rala

que trincam ao rápido esfriamento

(revelando-nos  segredos)

o cálcio que doam os ossos da terra

quando moinhos de pás serpentes

roubam a força dos ventos

e transformam e transbordam

grão em graça

 

 

 

gen

 

nutre o gen e germe

de coisas pequenas e quinquilharias

agradas amigos e ancestrais

pedras de lugares diversos

flores secas

e gemas de facetas brilhantes e de pouco valor

ouro de mercador

moedas de países que nunca conheceremos

 

o sonho devora vasos e vasos de água

aqui é lugar algum

 

- andarilho

lava teus pés

e pousa esta noite

 

 



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