Meiotom - resenhas


 

 

denilson lopes

 Denilson Lopes (Professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e organizador de O Cinema dos Anos 90 (Chapecó, Argos, 2005)
 
 
                                    Uma Outra Cidade, Um Outro Cinema
           
            Finalmente, não mais nostalgia piegas da era JK nem mais um documentário sobre os excluídos do poder oficial. "Concepção" de Jose Eduardo Belmonte, logo, nas primeiras cenas e frases, diz para que veio: falar de uma Brasília classe média pelos que nasceram ou poderiam ter nascido aqui, sem culpa, nem caricatura. É uma declaração de amor e ódio à cidade, como são todas as relações complexas, difíceis, as que valem à pena.
            O filme se nutre da música não só pela trilha sonora criteriosa selecionada por Zepedro Gollo, mas ela é mesmo a fonte-matriz da indignação e intempestividade do filme. O filme traz o espírito do rock que possibilitou no fim dos anos 70 e início dos anos 80 uma outra geração expressar sua rebeldia, criar uma Brasília punk contra a capital da ditadura militar. Mais os momentos são outros, o filme também vem embalado por música eletrônica e sertaneja. Os tempos se acelararam e estilhaçaram as pessoas e sonhos, como tão bem captado pela montagem do próprio diretor e de Paulo Sacramento.
            Como produzir uma obra dissonante quando o choque e a ruptura são estratégias do marketing? Como falar senão de utopias sociais, mas pelo menos de sonhos e perspectivas? Filmes tão diversos como "Nunca Fomos tão Felizes" (1984) de Murilo Salles; "Verdes Anos" (1983) de Giba Assis Brasil ou mesmo "O Sonho não acabou" (1981) de Sérgio Rezende - este tendo também como cenário Brasília - realizam, ao mesmo tempo, um retrato lírico da juventude na passagem da ditadura para a abertura política e do que restou dos anos 60. Talvez seja nesta linhagem que "Concepção" possa ser melhor entendido, mas com uma diferença crucial. O movimento concepcionista que os jovens personagens do filme criam, já no início, aparece como paródia. Os discursos são falsos e as citações soam como frases de efeito, slogans sem força . Mas a paródia começa a dar errado, emerge do desejo adultescente de ser sempre outro, não ter idade, ser outro a cada dia, mais do que uma brincadeira inconseqüente, um elogio do hedonismo; uma busca frágil de um lugar e de uma cara. Tudo está perdido. Tudo estar por ser feito.
Esta busca já estava presente tantos nos curtas de Belmonte, especialmente "Dez Dias Felizes" (2002), bem como em "Subterrâneos" (2003), seu primeiro longa, ainda inédito no circuito comercial. Filme todo rodado no centro comercial Conic, uma outra anti-imagem da cidade, que também já contava com a fotografia de André Luis da Cunha, capaz de fazer da cidade e dos seus vastos horizontes e largas pistas um labirinto sufocante, em que o refúgio ocorre nos espaços fechados.
Esta busca é bonita na fragilidade de seus personagens traduzida pelo equilíbrio dos protagonistas. Matheus Nachergaele encarna, sem estrelismo, X, guru sem querer ser, deflorador do tédio dos outros personagens, todos compostos por atores menos conhecidos mas que compõem um elenco harmônico e integrado. Apesar do olhar masculino que conduz a narrativa que conta com as boas atuações de Milhem Cortez, Murilo Grossi e de Juliano Cazarré, candidato a símbolo sexual de uma nova geração; as personagens femininas representadas por Rosanne Holland e Gabrielle Lopez ganham força na narrativa. Contudo, não vá se procurar espessura psicológica, eles são mais como aparições de um grande videoclip em que se transformou a realidade, à deriva por uma cidade-imagem.
Mas o que fazer depois da festa, da orgia? Como enfrentar as pobrezas do cotidiano? Nesse momento, em que o brilho da noite e da fantasia tão bem encenado se desfaz? O que resta? Se em "Subterrâneos", a música de Gorecki parecia encarnar uma possibilidade do sublime em meio a tanta aspereza, de delicadeza em meio a tanta violência; em "Concepção", sem medo de ser sentimental, a aposta se dá, para além do cinismo, numa frágil possibilidade de acreditar e da beleza nem que seja por um momento, como numa fala de X. Este momento pode ser o suficiente para iluminar uma vida, mesmo que tudo esqueçamos, como nos é pedido, mais de uma vez, no filme.
"Concepção" confirma uma vocação e um outro cinema que há muito a cidade devia ao país. "Concepção" se junta a "Amarelo Manga" de Cláudio Assis, também produzidos pela Olhos de Cão, como exemplos de um cinema que não tem medo de Hollywood, mas não faz cópias de segunda categoria, nem são superproduções diluídas pela busca de tentar atingir um público internacional. "Concepção" é um filme irregular, insensato, irrequieto, necessário. Que venham outros!.