O encanto do Deserto esmagador: revendo um
Berlolucci polêmico
por Chico Lopes *
Quando vi
“O céu que nos protege” (“The sheltering sky”,
1990) pela primeira vez, foi em VHS, nos tempos imediatamente posteriores ao
lançamento do filme, que tinha provocado polêmicas. Conservava da produção a
lembrança vaga de Debra Winger, como Kit, enfiada num
esconderijo, feito uma das esposas do chefe da caravana beduína em que se
engajara, tendo uma relação sexual com o sujeito, relação que é observada pelas
frestas do esconderijo por garotos que, pelo lado da fora, dão risadas daquilo.
Um deles explica, inclusive, com a língua, para os outros, o que está sendo
feito lá dentro.
Depois, quando o filme era mencionado entre apreciadores
leigos de cinema ou cinéfilos, sempre se ouvia opiniões do tipo “é uma chatice”,
“é uma monotonia danada”, ou “é um fracasso de Bertolucci”, mas também não era
impossível achar quem admirasse o filme, e, por vezes, com um entusiasmo que
parecia um pouco equivocado também, um entusiasmo a que não faltavam umas boas
pitadas de esnobismo.
Para tirar essas dúvidas, recentemente comprei uma
versão do filme em bancas, a um preço promocional satisfatório. É o tipo do
filme que acaba mesmo em cestos promocionais, notado e comprado por pouquíssima
gente, numa era de consumismo cultural.
Quando o filme saiu nos Estados
Unidos, o diretor Bernardo Bertolucci estava no apogeu, tendo
recebido nove Oscar por “O último imperador”, e na certa o
cinema industrial norte-americano esperava muito dele. Como esperou dos nossos
Hector Babenco e Walter Salles Jr. , que não
deram a eles exatamente o que esperavam. Nesse particular, só mesmo o mais
recente Fernando Meirelles parece ir dando-se bem.
O
Bertolucci que filmou “O céu que nos protege” adaptava o livro
de um escritor, Paul Bowles, não necessariamente popular entre os
norte-americanos. Tipo difícil de classificar, Bowles foi mais visto como
compositor de vanguarda durante um bom tempo, e dificilmente seus livros,
apreciados por uma certa faixa da crítica mais informada, teriam encantos
assegurados para espectadores de cinema na cartilha de Hollywood. Viveu com a
mulher, Jane, uma vida conturbada e nômade, interessado pela África e por
lugares do mundo que a América careta jamais poderia aprovar, e o casal tinha
esses traços que, se nos parecem menos imprevisíveis hoje em dia – era
bissexual, rico, niilista e chique –, não tinha mesmo como ser aceito por aquele
puritanismo todo.
A crítica se dividiu. Roger Ebert, crítico respeitável
e muito lido, gostou. Vincent Canby, do New York Times, achou-o “o mais sedutor
e o mais hipnótico filmes de Bertolucci”. Outros, como Pauline Kael, acharam-no
tedioso.
Em geral, o comum foi o espectador anônimo achar que o filme era
mesmo uma chatice, tratando de “dois inúteis perdidos no deserto”. Posso
compreender essa aversão. Kit e Port Moresby são um pouco o símbolo de uma
América tão opulenta que pode ter, entre seus filhos desgarrados, gente rebelde
e chique a ponto de trocar todo o conforto e civilidade pelo deserto da África
do Norte, com suas misérias, doenças, seu primitivismo intratável. É natural que
isso pareça excessivo, esse ócio de “frescos” bem alimentados, ricos, que, a
qualquer momento, podem ser resgatados de suas aventuras no Terceiro ou Quarto
Mundo por alguma providencial embaixada norte-americana.
Grandeza incompreendida
Pois, na minha revisão,
topei com um filme de que, decididamente, mal me lembrava. Tem uma grandeza
incompreendida, essa produção, e é uma grandeza tão óbvia que a incompreensão me
deixou um tanto perplexo. Primeiro: dois atores ótimos, escolhidos com perícia
para os papéis principais, John Malcovich e Debra Winger. Difícil imaginar
atores melhores, tanto que Campbell Scott, no papel do inseparável amigo Tunner,
deixa a sua fraqueza de ator completamente exposta, por contraste. A fotografia
de Vittorio Storaro (fotógrafo de alguns filmes de Visconti e de “Apocalypse
Now”, de Coppola) é magnífica. Percebam como, jogado numa cama do quarto daquele
hotel, languidamente, Malcovitch está aninhado sob uma luz alaranjada-ígnea que
vem da rua e torna o seu canto um cubículo infernal, não menos. Ele se aninha no
Inferno, naquele calor que sentimos que deve dominar Tanger, a cidade onde
estão. Essas luzes e sombras de Storaro dão ao filme uma organicidade muito
forte, muito fiel ao mundo literário de Bowles. A fotografia, decididamente, é
um dos personagens desse filme.
Claro que isso não fica muito claro para
o público em geral, mas o casal Kit e Port, inspirado em Jane e Paul Bowles,
carrega aquele mal-explicado Tunner como um elemento de “ménage à trois”, por
suas predileções bissexuais. Bertolucci não enfatiza, mas não escamoteia isso, e
Kit carrega um livro de Djuna Barnes (ver na abertura) em sua mala, o
“Nightwood”, o que revela sua abertura intelectual. Autora de peças teatrais,
mulher liberada, novaiorquina, com o marido compositor de vanguarda, a verdade
está lá, e Bertolucci não cai na vulgaridade de escancará-la. Mas, é claro que
isso restringe bastante o filme, para as platéias. Bissexualidade não é coisa
para todo mundo.
“O céu que nos protege” vai nos
presenteando com sutileza após sutileza, e precisa de espectadores sofisticados,
ou se estiola (o que as bilheterias escassas confirmaram). Ele desvenda o
colonialismo cultural e a impossibilidade de comunicação entre mundos tão
diferentes de um modo que não satisfaz aos apetites dos espectadores meramente
“voyeurs” ou turísticos. Veja o outro “casal”, paralelo à trajetória de Kit e
Port, que se desenha: os Lyles, com uma mãe feroz, autora de livros de viagem, e
seu filho gordo, desmunhecado, pateticamente dependente, cleptomaníaco e Édipo
esmagado. São ingleses detestáveis, e a gente nem sabe o que fazem naquele
fim-de-mundo, que o tempo todo criticam, com amargo sado-masoquismo – o filho
até se oferecerá, com aquele corpo grotesco, para Port, para, rejeitado, ao
menos roubar-lhe o passaporte...A mãe é uma megera completa. E atitude deles, de
desprezo total aos nativos, é só uma explicação mais completa, definida e
antipática do colonialismo mais complacente e escapista que orienta os
“viajantes” norte-americanos Kit e Port. Bertolucci está lúcido o tempo todo,
entendendo muito bem a questão colonialista que ali se ergue.
O deserto,
no cinema americano, no imaginário popular que se criou a partir daí, não é de
modo algum o Deserto dos ascetas, o deserto implacável, intolerável, esmagador,
que sabemos ser, em realidade. Está mais para aquela incrível fantasia kitsch de
“O jardim de Allah”, velho filme de Marlene Dietrich em que ela
faz uma ricaça em busca de conhecimento (ou passarela de moda?), que desfila
roupa após roupa sobre os camelos, sem que nenhuma brisa ou ventinho que seja
lhe desfigure os cílios e a maquilagem imaculada. Mas, indo mesmo para uma
produção mais sofisticada e recente como “O paciente inglês”, o
que se tem é o glamour daquelas tomadas aéreas em que as dunas são extremamente
sedutoras, de uma beleza de tirar o fôlego. Essa beleza, naturalmente, está lá,
e Vittorio Storaro precisa dela, mas a sensação para o espectador, é bem menos
confortável. Mesmo com Kit tendo perdido o marido e se entregado (no que parece
uma fantasia romântica feminina com o “sheik das Arábias” que vai de Rodolfo
Valentino ao Omar Shariff de “Lawrence da Arábia”) ao chefe de uma caravana de
beduínos, o terror da incomunicabilidade está lá. Não há consolos escapistas –
aquilo é esmagador, e está bem clara a razão de a primeira cena dessa produção
ser um homem de ponta-cabeça. Apavorada com a morte do marido (e já se viu cena
mais atroz que aquela em que Port uiva na mão dos médicos, esperneando feito
animal, pelo tifo que o consome?), é muito lógico que Kit sinta que não lhe
resta mais nada senão entregar-se àquela caravana, nada entender, nada falar,
apenas cair num torpor absoluto. É inesquecível a cena em que, perdida naquele
forte onde parece haver uma única pessoa falando francês, a areia do deserto
constantemente entrando pelas frestas, tenta ajudar o marido em sua febre
delirante, vagueia como uma criatura absolutamente perdida, apalpa o Nada em
todas as direções: de um lado, o marido e a Morte, de outro, o Desconhecido
completo...
O público dificilmente mergulha nessas viagens de niilismo, e
as traduções cinematográficas do desespero e do “choque de culturas” encontram
sempre escassa receptividade. “O céu que nos protege”, poético e belo, é acusado
de monotonia, quando o seu assunto é, pasme-se, precisamente o que essa
monotonia incompreendida abriga. Naturalmente, um filme como “O paciente
inglês” será sempre mais palatável. Ou pode-se ficar com aquela África
à medida do deslumbramento turístico que “Entre dois amores”, de Sidney Pollack,
com Meryl Streep, oferecia. As escolhas “normais” são essas, geralmente.
Diretores mais artísticos e comprometidos, por sua liberdade e sua coragem
existencial, são sempre punidos pelo público vingativo com o
insucesso.
Rever “O céu que nos protege” nos dá algumas
lições importantes, por causa disso. Paul Bowles foi um grande escritor (ele
aparece, em carne e osso, ao início e ao final do filme, no café de Tanger) e
hoje em dia é menos lido. Mas seus contos soberbos me acompanharam, em alguns
anos, e senti vontade de relê-los, revendo o filme. E os que conhecerem “O céu
que nos protege” só agora sentirão vontade natural de saber quem é ele, desde
que tocados pelo filme. Que, realmente, é uma produção para “gatos
pingados”.
No entanto, sabemos que na cretinização geral a que estamos
submetidos, pela indústria cultural, gatos pingados são os únicos que ainda se
arriscam a ter
pedigree.
Chico
Lopes: Chico Lopes é autor de
"Nó de sombras" (IMS, SP, 2000), e de "Dobras da
noite" (IMS, SP, 2004), contos prefaciados o primeiro por Ignácio de
L.Brandão e o segundo por Nelson de Oliveira. Tradutor, publicou também nova
tradução do clássico "A volta do parafuso", de Henry James
(Landmark, SP, 2004). Tem vários livros inéditos de ficção, poesia e
ensaio.
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Francisco Carlos Lopes Rua
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