
O público adorava, nos anos 50, os melodramas da Universal
que consagraram o diretor
Douglas Sirk e lançaram o astro Rock
Hudson: eram títulos como "
Sublime obsessão", "T
udo que
o céu permite", "
Almas maculadas", "
Imitação
da vida", "
Palavras ao vento". Hudson chegou ao
estrelato com esses papéis, e por eles também ganhou certa fama de bonitão sem
talento dramático que parece, em retrospecto, um pouco injusta pois, embora não
fosse grande ator, era uma figura cinematograficamente apropriada e tinha
competência. A crítica da época não levava esses filmes a sério, a despeito do
enorme sucesso popular.
Por algum desses lapsos comerciais que não se
compreende, esses filmes não existem em
DVD no Brasil. Para
suprir a lacuna, só a distribuidora
Classic Line lançou um
deles: "
Palavras ao vento", de 1956.
Fico impressionado
com o pouco senso de oportunidade dessas distribuidoras. É claro que "Imitação
da vida", por exemplo, faria um sucesso extraordinário junto ao público mais
nostálgico. Sempre é lembrado pelo funeral, em que se ouve cantar Mahalia
Jackson, pelo clima de tragédia sobre
amor
e racismo, e, quando se cita Lana Turner para alguém, é por seu papel nesse
filme que ela, belíssima mulher e atriz às vezes lastimável, é lembrada. Quanto
a "Tudo que o céu permite" e "Sublime obsessão", são os filmes que marcaram
Rock como astro típico de Sirk, e nos dois ele contracena com
uma atriz esquecida, Jane Wyman.
"
Tudo que o céu
permite" teve uma espécie de versão pelo diretor Todd Haynes há alguns
anos, "Longe do paraíso", que foi bem acolhida pela crítica, mais pela evocação
de Sirk que pela qualidade do filme. O diretor Todd Haynes usou Juliane Moore e
Dennis Quaid para contar a história de um casal trágico, cercado pelo
preconceito: ela ama um jardineiro negro e ele, o marido, ama outro homem. Claro
que houve distorção: em "Tudo que o céu permite", Jane Wyman é uma viúva jovem,
numa cidadezinha americana arqui-conservadora, que se interessa por um
jardineiro, o branco Rock Hudson, e sua família e amigos se opõem.

Haynes exagerou na dose em sua versão e o filme
não é grande coisa, não pode superar nem de longe o original, já que certas
coisas são feitas de contexto e época, realmente: Sirk transgredia a moral
rígida dos anos 50 com habilidade e tecia pactos com o público sem deixar de
colocar suas idéias. No caso da homossexualidade no filme de Haynes, o ator
Dennis Quaid está bem, mas o personagem não existia no filme de Sirk, e a
clareza dos tempos atuais, no tocante a esse assunto, é uma sentença de morte,
em se tratando de uma estética de contenção, paródia perversa e distanciamento
como a de Sirk - com a coisa revelada, perde-se uma tensão preciosa. Fica bom
para o Gay Lib e péssimo para a
Arte.
Em
"
Almas maculadas", o trio Rock Hudson-Dorothy Malone-Robert
Stack deu as suas caras pela primeira vez. É aí que começou a nascer
"
Palavras ao vento".
HUMOR PERVERSO E PARÓDIA
DOLORIDA"
Palavras ao vento" veio
lamentavelmente desprovido dos extras que na edição original americana, da
Criterion, são fartos. Ainda assim, a cópia é muito boa, e o filme é um pouco a
quintessência, o resumo da obra de
Douglas Sirk: um melodrama
que roça a tragédia grega, tão carregado, perverso e ao mesmo tempo frio que sua
atualidade não se perdeu. Curioso que, hoje em dia, Sirk tenha mais prestígio
junto à crítica que com o público, que deve achar o seu trabalho muito próximo
ao "novelão".
"
Palavras ao vento" não economiza no
over: começa pelo fim, quando o milionário bebum Kiley corre freneticamente
pelos cenários de torres de petróleo de um Texas de estúdio com seu conversível
amarelo (amarelo ao cubo; as cores dos filmes de Sirk são propositadamente
exageradas) e entra em sua casa sob rajadas de vento, com folhas se esparramando
até pela sala, seguindo-o, tudo ao som da música de Victor Young cantada pelo
conjunto The Four Aces. Os três outros personagens do quarteto fatal - Mitch,
Lucy e Marylee - estão à janela, olhando, ansiosos, à espera do desfecho. Sirk
coloca o filme todo no início, em perfeita diagramação cenográfica. Repleto de
back-projections e de coisas que outros diretores de menos talento achariam
temerário fazer (o corredor rosa-choque do hotel em Miami é quase uma piada), o
filme de Sirk é assim, um melodramalhão assumido em que tudo que importa é
velado.
Essas folhas ao vento, tão apelativas e marcantes que depois
foram imitadas em tantos filmes, não me saíam da memória de cinéfilo, mas não vi
o filme e sim o seu trailer no velho cinema de minha cidade natal, no início dos
anos 60. Vendo-o agora com a nitidez do DVD, vejo que Lauren Bacall, mulher
charmosa, nunca foi grande atriz, que Rock não devia ter sido tão desprezado
como ator, mas que o melhor do filme se concentra nos irmãos Kiley e Marylee,
cripto-incestuosos, cheios de ódio um pelo outro, vividos por Robert Stack e
Dorothy Malone (ela ganhou o Oscar de melhor coadjuvante por esse
papel).

Stack é prodigioso, muito adequado para essa
mistura de hilário, grotesco e sublime que define um personagem trágico. Malone
é dominada por sua ninfomania de tal maneira que sua fúria, dançando de camisola
enquanto o pai morre de enfarte numa escada, é algo para não se esquecer nunca.
Fica para ela também aquele final quase abusivo, quando só lhe resta acariciar
uma fálica torre de petróleo colocada na mesa de trabalho que pertenceu a seu
pai. Em comparação com eles, Rock fica parecendo vacilante e careta demais e
Lauren Bacall não parece ter entendido o seu papel, não põe nele toda a
intensidade que poderia ter. Os dois formam o casal destinado ao happy-end, mas,
quando se começa a pensar na história direito, vê-se que nada, nada é garantido,
que tudo é ambíguo demais. Há interesses escusos, vãos e abismos demais em tudo
- Bacall pode ter se casado só por interesse, Hudson, amado por Malone com
desespero infrutífero, é talvez "amigo" demais de Stack (seu interesse por
Bacall não nos soa convincente).
É ótimo que as novas gerações
brasileiras possam conhecer
Sirk, ainda que só por esse filme.
Pedro Almodóvar confessa que viu "Palavras ao vento" inúmeras vezes e
sempre revê, e é até possível constatar que, do exagero de cores da era
consumista e industrial norte-americana que Sirk usa, com ajuda fundamental do
fotógrafo Russell Metty, Pedro tirou inspiração para muitas das aberturas de um
kitsch engraçado e revelador de seus filmes - há algo de "sirkiano", por
exemplo, nas cores, nos adereços femininos, no apartamento e no táxi de
"Mulheres à beira de um ataque de nervos". O alemão R.W Fassbinder, imensamente
soturno e trágico, cultuava Sirk abertamente, e em "O desespero de Veronica
Voss", isso é mais do que evidente.
E, francamente, é muito divertido,
com o que se sabe hoje em dia, ver um personagem dizer a
Rock Hudson
que é hora de se casar, mas ele, se esquivando, alega: "
Eu já
tenho problemas suficientes com encontrar petróleo".
De coisas
assim, o cinema de Sirk era feito. Mas a impressão final de "
Palavras ao
vento", a despeito de suas paródias, é de uma imensa seriedade e
poesia.
Chico Lopes:
Chico Lopes é autor
de
"Nó de sombras" (IMS, SP, 2000), e de
"Dobras da
noite" (IMS, SP, 2004), contos prefaciados o primeiro por Ignácio de
L.Brandão e o segundo por Nelson de Oliveira. Tradutor, publicou também nova
tradução do clássico
"A volta do parafuso", de Henry James
(Landmark, SP, 2004). Tem vários livros inéditos de ficção, poesia e
ensaio.
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Francisco Carlos
Lopes
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