| Meiotom - Contos |
|
|
E(U)X |
PAULO CONDINI |
|
|
|
Como
uma bola de borracha, sinto-me ganhando volume. A cada instante me parece que
cheguei ao limite de todo o espaço que poderia ocupar e, no entanto, momento
a momento sinto-me tomando mais volume, devorando o espaço à minha volta,
enchendo-me, tal qual um balão.
Tudo
parece ser capaz de me fazer assimilar o espaço circundante. Um som, um
cheiro, uma lembrança
— principalmente as lembranças. Não sei dos nomes das coisas que
me levam a isso. Só sei que me fazem
ficar assim. Incho. Estufo-me. Agrando-me do caos. Do nada. Uma pressão
de dentro para fora. Um desequilíbrio de fora para dentro. Perco peso. Ganho
volume.
Quando tento fazer alguma
coisa — porque sinto que é
preciso fazer algo —, me dou
conta de que não posso mais sair pela porta, nem pela janela. Apenas não
posso porque o meu corpo parece ser maior do que cada uma delas. Então deixo-me inflar mais, perder a forma, até sentir algumas partes de mim encostando nas paredes, no lustre. Empurrando e derrubando mesas e cadeiras. Grudando-me ao chão e ao pó acumulado. Sentindo a pele ficar a cada instante mais delgada, elástica. Não sinto dor alguma. Somente a desagradável sensação de estar inflando. De ser elástico. Um conteúdo volátil contido pela pele cada vez mais fina. Todo o espaço é nada para me conter. Vou além. Mais alguns instantes e restará muito pouco espaço entre o meu contorno e os limites do quarto do qual agora tomo conta quase que integralmente. Mesmo os trastes que nele estavam, arrastados pelo meu expandir, encravaram-se em mim, totalmente aderidos, formando reentrâncias e saliências nos tecidos extremamente delgados. Ocupo, finalmente, todo
o espaço. Apenas as paredes me circundam. Estou prestes a varar por cada uma
das frestas das janelas e da porta de entrada, ou pelo buraco da fechadura. Todos
os átomos propondo-se a um reagrupar definitivo. Nesse
momento tomo consciência de que começa a ocorrer como que uma mudança de
ritmo no processo de pressão, e descubro que contenho o espaço que antes me
contivera. Alguma coisa, cujo nome também não me ocorre, inicia um novo
ciclo. Primeiro o tato. Num instante, cada célula da minha periferia começa
a sentir o material que a limita, como se cada uma delas tivesse ganho vida
autônoma e, tactilmente, fosse manipulando o material, sentindo o seu calor,
depois o seu sabor, o aroma, a conformação de suas fibras
— a intimidade de outras células entretecidas —,
e, finalmente, escutando cada ruído nascido dos espaços
intercelulares alargando-se para dar passagem a algo que também não posso
identificar. Tudo isso acontecendo concomitantemente em cada célula do meu
corpo. Surpreendentemente,
minha percepção não perde um só detalhe da ocorrência. Consigo absorver
todos os movimentos de cada uma das minhas células: todos os seus processos
de descoberta; sentir todos os tatos; ouvir todos os sons; provar todos os
sabores; ver todos os interstícios de todas as fibras dos vários materiais
em contato com o meu corpo; identificá-los um a um; analisá-los; descobrir
suas constituições e propriedades... Então
consigo perceber o essencial. Entendo que o ruído de algo, que flui para
dentro desses interstícios, nada mais é do que eu próprio invadindo dimensões
e espaços intercelulares, intracelulares, até que cada átomo de meu que,
aos poucos, vou me desfigurando de estruturas vagamente lembradas, e me
refazendo agora em novas estruturas. Novos seres. Novos eus. Novas experiências
materiais. Apenas uma vaga lembrança do que era. Novas realidades
existenciais. Isso
se deu, inicialmente, com cada um dos materiais em contato com meu antigo
corpo. Depois, os vários compostos complexos formados, iniciaram um processo
semelhante entre eles. Expandindo-se, agora, para dentro. Uns com os outros.
Unindo-se. Sentindo-se. Analisando-se. Interpenetrando-se. Recompondo-se.
Transformando-se em novas substâncias, já totalmente diferente das
anteriores. Massa quase etérea, convergindo para o centro e topo do quarto,
em direção ao que anteriormente fora um lustre: onde apenas uma lâmpada
pairava pendente, ligada a um soquete convencional, conectada, por um fio
comum, ao teto do quarto, agora também já sem identidade. Ruídos
surdos, como que de passos. Ondas
de calor muito tênue, como que de um corpo, aproximando-se. O
que antes fora porta entreabrindo-se, e uma mão acionando o interruptor que
também antes fora. Um
frêmito de prazer percorre todo o espaço. Uma
pressão em direção ao centro. O
eu/ambiente comprimindo-se à velocidade da luz, até chegar ao volume antes
ocupado pelo bulbo da lâmpada/memória. O
eu/memória/bulbo incandescendo e nos tornando luz... PAULO
CONDINI. |
|
|