A guerra é um edifício frágil, a verdade
é seu grande truque.
Maria Bentham, o histrionapólogo
inventor do Panóptico e intérprete de todo
sentimento, senta-se
à mesa diante do flamejante datashow, tira um a um
lentamente
num clima de suspense seus quatro óculos (o par espelhado, o de
grossas lentes para miopia, o de lentes verde-musgo, o de
astronauta), deixa
cair no chão (sem querer?) o colar de
havaiano, pega a pasta rosa onde se lê
em letras garrafais
MÈTODO, levanta-se aparentemente para que todos vejam o
que está
escrito com pincel atômico em seu terno (Quando Ouço a Palavra
Globalização Vou Logo Sacando meu Re-Método), senta-se
novamente. Inicia a
palestra, "esta é uma síntese de algo que já
apresentei no Instituto
Hudson":
"1. Um jogo de
cartas embaralhadas e distribuídas pelo Azar.
2. A rivalidade
essencial: um que deseja o desejo do outro, o terceiro
desejado
pelos dois rivais. O que é o terceiro? Oras... o Prêmio, o inefável
X, uma coisa tão fugaz quanto um pássaro morto. Se o primeiro
envia ao
segundo um pedaço de madeira carbonizada, pode esperar
que vem incêndio. Se
o segundo envia ao primeiro uma lâmina, o
ataque virá como degola. Se o
segundo padece de fome por falta
de sal, o primeiro o alimenta (não se luta
com sal, mas com
espadas). Não matamos (com cerimônia) covardes, fugitivos,
pessoas que estejam sentadas, ou simplesmente observando o
combate. Isto
aqui cá entre nós: para os lobisomens a lei do
extermínio selvagem, o
massacre total, a pilhagem e a
incorporação posterior com a tábua das leis
da moral.
3.
O orvalho da morte é lenda popular, não tenham medo. No máximo,
pequenas
asfixias ao léu, decididas pelo Destino, ou de vez em
quando um ou outro
alguém pode derreter como um sorvete ao sol.
O mais chocante dos espetáculos
porém é o oferecido quando você
junta 340 quilos de trotil, o mesmo elemento
usado antigamente
nos gases para a iluminação noturna das cidades (uma
pétala duas
pétalas, ah camélias), porque este não é tosco como a pólvora
que precisa de calor e não perde o poder nem mesmo imerso na
água. Quando o
alvo é um navio de civis, oh que espetáculo
fascinante (quer dizer,
terrível!). Tanto estardalhaço, tanto
sentimentalismo, tantos cadáveres
inchados boiando chegando à
praia domingo de manhã entre os castelos de
areia. Mas isso é
muito errado. O bom mesmo é a paz, a harmonia. Mas por via
das
dúvidas, esconda-se na penumbra, observe o inimigo arrumando um
jeito de
deixá-lo sob a luz vertical do sol ou da lua (o
crepúsculo é a hora
apropriada).
4. Agora podemos falar
nos
submarinos."
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"Se não tivessem voz/ As garças desapareceriam/ Sobre a neve da
manhã"
Sono-jo