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A Madeira e a Memória
1. Murilo Rubião escreveu um contro impressionante, Ofélia, meu cachimbo
e
o mar. Alguém conta a história de sua família a uma interlocutora
silenciosa
e desinteressada. O último desabafo do narrador nostálgico é a conclusão
de
que ele apenas gostaria que toda sua genealogia fosse verdadeira. É a
velha
história da memória como invenção embaralhada do passado, mistura de
lembrança e esquecimento, sobretudo pela procura de um pedigree para uma
família estilhaçada no tempo. Tudo se complica porque o pedigree é apenas
uma forma de identificação num mundo que não pára de fluir. Mas Ofélia
não
está nem aí, parece totalmente imersa no presente. Quem afinal é esta
misteriosa Ofélia, revela-se no final do conto – apesar de um professor
triste ter sugerido a possibilidade de que Ofélia não se revela, mas
passa
por uma nova metamorfose.
Então, presta atenção Ofélia. É engraçado como objetos de madeira retêm a
memória. Coisas de plástico, por sua vez, não têm calor nem profundidade,
vivem num presente opaco e vazio. Coisas de plástico bóiam no
esquecimento.
Mas felizmente meu passado é de madeira. Vejo o porta-recados feito por
meu
avô, por exemplo, ele que só fazia objetos claros, sólidos e úteis, nada
de
gracioso, nada de encantador.
2. Ele se foi, meu avô, mas na madeira rígida e funcional percebo seu
olhar
severo, as mãos duras de artesão. A madeira preserva a memória de uma
lucidez que não está mais entre nós. E sei que mesmo depois que minhas
mãos
que tocaram aquelas mãos nem tão duras assim também se consumirem, os
objetos de madeira permanecerão, como testemunho de alguém que os pensou,
projetou, prensou, doando-se ao mundo em coisas úteis e duráveis, de
madeira.
3. Somente em seu leito de morte, descobri que meu avô sonhava com
barcos,
que para além de seus traços rígidos de artesão, meu avô também dormia no
mesmo leito de rio, no mesmo entreato de sonho e vigília em que seu neto
vivia. Meu avô, à beira da morte estava à beira de um rio - o Araguaia.
Quando morria, meu avô via no quarto um aguaceiro só e me avisava: “na
pescaria noturna, não esqueça o farol, que meu barco só se tranca por
fora e
só se abre por dentro ”. Depois disso, as margens se apagaram na
escuridão
líquida e viva.
4. Hoje, vejo na madeira um pensamento maduro. Quando a toco sinto uma
réstia de calor que ela reteve, o que me leva a uma conversa com o
porta-recados, sobre memória:
Presta atenção, madeira, meu tataravô era um saltimbanco, um cigano, um
andarilho no vasto Império Austro-Húngaro no distante século XIX. Dono de
um
teatro brincante, usava trapos coloridos e um anel de guizos. Meu trisavô
não quis manter a tradição da família e por isso partiu, como um judeu
errante, pra longínqua América do Sul. Meu avô perfez a segunda negação,
ao
não deixar às suas filhas o nome do velho saltimbanco Tomanick, ficando
um
pouco mais distante do Império, já extinto. A família adotou o
sul-americano
Barbosa, de caçadores de índios. Mas o que meu avô sabia e não sabia
(sabia
pelo que de si fazia e não sabia pelo que esquecera) era a sina de
saltimbanco e andarilho, (você está me ouvindo, madeira?, aliás,
Ofélia?).
Isto porque, de primeiro, meu avô foi criança prodígio, pianista em meio
à
prataria, depois, guarda da fronteira no longínquo Paraguai. Ainda
trabalhou
em ferrovias, teve uma ou duas sorveterias (e as crianças de então,
adultos
de hoje, nunca tinham visto sorvetes coloridos). Contador, administrador
e
pescador nas águas turvas do Araguaia, viveu em mais de cem cidades,
percorrendo o centro vertiginoso da América do Sul e teve tempo pra fazer
papel de rude saltimbanco numa curta passagem como ator de circo.
Agora penso que eu talvez seja a terceira negação: em frente a esta tela
colorida, pensando numa Hungria que vi no cinema, numa América do Sul dos
livros de história e poesia, sem saber desta história onde a verdade
começa,
onde termina a mentira.
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