Panelinha, Panelão, Panelaço
à meia luz,
ao som de zeca baleiro ao violão,
nas mesas de
alumínio branco sob o incenso de batata frita,
estão sentadas as
panelinhas.
cada uma com seu
jeito muito próprio
bem apropriado de
adoçar, de deglutir, de edulcorar, de decupar,
de decorar (o
ambiente):
cá entre nós entre
os dentes, dizendo, aqui não aqui diferentes os idiotas nas mesas
outras, sempre, aqui não todo mundo brother lá se odeiam aqui não
inveja injeção objeção sujeição lá não lá só barbárie aqui sim todo
mundo é bárbaro selvagem maluco por outro lado os de lá não são sim
tolinhos lobinhos aqui só moinhos lá songamongas aqui sim todo mundo
do bem por dentro bem dentro da mesa aqui os lá de fora não lá estão
por fora são de se jogar fora dá o fora,
enquanto isso, lá
na balcão de bar de
fórmica vermelha
os solitários
também trocam olhares de cumplicidade
o que também dá na
mesma
tudo é o mesmo
dentro do panelão em que fervem as panelinhas em banho-maria
- só o que muda é o
tempero e o jogo dos legumes.
tempero e legumes
minha vó me dizia
(que nostalgia)
são a alma do cozidão
diante da imensa
panela de ferro
- mas vem
cá, espera aí
que será este som
de batucada?
meio disforme,
raivoso demais, ruidoso demais,
risonha besta
demais de dentes de metal demais sobre o mar
cor de verde
caipirosca demais
atrapalhando
os versinhos de zeca baleiro?
espia só:
é o povão batendo
panelas nas janelas amarelas!
olha só:
estamos em 1984!