Meiotom - poesia


 

 

daniel faria


 

Insidiosa alegria à
beira-mar
& uma promessa de
esquecimento




1. Sereias Stereofônicas


Eles me querem todo-ouvidos, invadir a lucidez, o que dela me restou,
fazer-me translúcido ao seu bombardeio de ruídos. Gritos entrando pra
dentro, esvaziando o pensamento, repleno de barulhos criados em suas
máquinas de ensurdecer, de inocular a alegria insidiosa.

Eles não querem que você me escute, que eu te ouça. Eles interpõem sua
muralha de barulhos entre tua boca e meu ouvido. Eles nos querem calados,
atônitos, bonecos fantasmas insones.

As sereias se cansaram de esperar e arrombaram nossas portas a pontapés,
carregando autos-falantes e fones de ouvido, pousaram com suas garras de
aves de rapina sobre o que restou de nossos pensamentos.




2. Espinho não machuca flor


Me lembro de um cara dando tapas na barriga dela e dizendo
este filho ainda a ser concebido vai ser meu! E era um fim de noite todos de
ressaca depois do bombardeio das sereias barulhentas e risonhas,
desgrenhadas sereias que naquela hora já dormiam em seus ninhos.

Me lembro de um cara apertando o rosto dela com as mãos como
se fosse uma sanfona ou pior um fole. A noite apenas começava o calor subia
dos paralelepípedos como um vapor e o que subia junto eram as falsas
promessas sem as quais a noite seria trancada a sete chaves.

Me lembro de um cara colocando de propósito a música dela predileta na
praça no meio dos bêbados. Era fim de tarde o sol já tinha sido afugentado
pelas batucadas na praia já tinha sido insultado trabalhando como escravo
para os vendedores de cerveja e água de coco.

Me lembro de um cara dizendo pra ela meninos de rua deviam ser espancados.
Era meio-dia as pessoas já não tinham sombras onde esconder os olhos as
coisas não tinham perspectiva tudo estava parado e o vento era claro e
ofuscante rebrilhando as carcaças de caranguejos na areia.

Ah musa ridícula – a manhã em pílulas clama pelo esquecimento.




Daniel Faria é historiador. E-mail: krmazov@hotmail.com