Possuído pelo
nome
Eu não me lembro
Mas sei que estava lá
No dia da repartição dos
nomes
Das parcelas de terra que a cada um caberia
O solo para
pisar
E a terra que se reparte em água que se
reparte
Em ar que se reparte em fogo que
se
Reparte em alma
Que se respira.
Meu nome caiu em mim
Como alguém
que cai em si
Ao se apreender no nome doado
Onde antes havia gruta -
voz gutural -
Mancha imortal surpreendida
Em traços inscritos em
pedra
Que acenderam no corpo o sopro
Criador das imagens que são
você
Seu você mais profundo
Abismo tão distante quanto as últimas
constelações
Mas que é você, a quimera presa em seus ombros,
O
pássaro rosa-azul, de motivos florais nas asas,
O pássaro que
absolutamente não canta
Mas salta de seus olhos enquanto você
dorme,
Aninha-se nas asas do Simurg.
É com este nome que lhe caiu como uma
pedra
Como um soco na boca
Do estômago
Que você se depara no
hipermercado
Com a mulher de dentes cinzentos
De quem mastigou
cinzas de cigarro o dia inteiro
Usando um chapeuzinho meio caído de
lado
E um vestido puído ex-rosa meio azul
Mulher que te observa como
Adão a seus animais
anônimos
E vê você pegando entre as prateleiras coloridas
Sob a voz que anuncia
o melhor
ou
Como ser feliz usando o plástico de matéria-prima
Os pacotinhos violeta
de ração para os gatos
Sabor carne, sabor frango, sabor salmão
"O
mesmo sabor de patê, mas com menos sal"
A bruxa explica.
O mesmo
nome no outro
Dia à noite
Vê com você a Sempreverdejante
Mestre
que ensina o caminho
Das flores negras presas na sua garganta
Mestre
de pele dourada com arabescos de flores
Pele boa de morder
De Sofia
Eterna
Destruidora de homens, destruidora de cidades,
Destruidora de
navios,
Arrebatadora do silêncio, solapadora da auto-suficiência
Com
um sorriso
Com um jogo extremo de percussão:
"Esta música infernal",
dizia o capuchinho Cavazzi.
Tudo menos o
poeta.
Quero me redimir.