Meiotom - poesia


 

 

daniel faria


 

Fazer o quê?



O branco persegue o azul. O branco assassina o azul

e a vista cansada ao

sol de dezembro injetado na veia -

Areia quente e branca nos olhos.


* * *


Mal saio de casa

e a poesia me persegue;

a poesia não cabe

em qualquer teoria, a teoria

persigna a poesia.


* * *


Meu irmão me disse que só sabe que amo porque escrevo. Fazer o quê, prezado leitor?


* * *


Não diante do senso, do Juízo

de Oito-Olhos

basileu desta cidade

esburacada pelas crias

de um buraco-negro

(o Aleph não,

o Aleph é teologia barata e falando nisso não sei porque tanto se diz que o diabo

pressupõe a existência de deus. Pode ser que apenas o diabo seja, ou deus esteja

usando silenciador em seu revólver)


* * *


Uma cratera pode se abrir

e te tragar em cada esquina,

há no subsolo de Campinas

uma porção de ampulhetas

sedentas de areia branca.


Fazer o quê, prezado leitor?

Calar-se?


Olha olha

O silêncio

cala fundo

cava fendas

cria calos

em tudo o que digo, além disso

não há silêncio &

silenciamento é o que há


o que há é o silenciamento,

apenas,

e seus mandamentos


gritantes, por sinal.


* * *


Tudo o que você deixou

de dizer virou um carrapato nesta língua

anêmica,

onde a palavra

jaz esquecida

na ponta da língua

ou numa tradução

equívoca

de Philip Larkin:

a roda

da vida

é foda

mas se pode

escolher

se outro inocente

vai se foder

com a gente.


* * *


O verbo não se fez carne

para o cala-te boca.


O terminal rodoviário cria musgos pelos desejos perseguidos

e assassinados, enquanto trocamos impressões sobre o clima

alguém jogou uma pedra na janela do 331,

minha linha,

ainda se vê a mancha de sangue onde o menino foi atropelado

que lembra a marca do corpo do jovem que se suicidou aos pés da rádio muda.


e alguém me dizendo mil vezes que no mundo se fala demais.






_______________________________________