Meiotom - poesia


 

 

daniel faria


 

Poema brechtiano para
um 31 de março esquecido



a noite é clara
no terreno baldio
uma centena de jovens
que mal batem à máquina de escrever
esperam armas de fogo, o combate

que não acontecerá.

a cidade-monumento, a cidade-estátua
a cidade-mármore
não foi feita para isso
e se cobrirá de esquecimento.

mas naquela noite
provavelmente depois de um dia chuvoso
quando os pais resavam
ou simplesmente dormiam
o sono dos justos
os filhos aprendiam a diferença
entre o sereno e o gatilho
entre o pequeno e inútil gesto de bravura
e a fuga daqueles que acenderam a pólvora.

nunca mais os ônibus circulariam daquela forma
com aquela ansiedade
de quando conduziram os combatentes a seus lares,
após deporem a munição inexistente.

a cidade respirou aliviada
vencedores e vencidos partilharam o butim.

mas não se negará que houve heroísmo nesta história.