|
|

Sobre um certo Marcelo Ariel, a bandeira e o
cemitério (quando do lançamento do Dulcinéia Catadora na Biblioteca
Alceu Amoroso Lima)
Sou uma coisa meio azulada. E não é porque não sou sua, nem de quem
quer que seja (inclusive aquele que escreve), que não trago comigo uma
emoção autêntica. Passo levemente minhas mãos translúcidas pelo seu rosto
e você pensa que se trata do seu jeito único e pessoal de ver as mazelas
ou os encantamentos do mundo. Mas tudo bem. Chamo isso de “minha
generosidade”: apagar-me em benefício alheio. Não me escondo nas sombras
que vazaram dos seus olhos. Pense na sombra como um contorno que dá
textura real ao Inferno leve e melancólico que te consome. É que pra
conversar no inferno, fazer-se entender sobre o inferno, o cachorro e a
criança se lambem, resmungam, olham-se fixamente nos olhos. Pra falar
no inferno, o cascudo às vezes é a palavra necessária. Estou aqui muito antes de você
nascer, e sobreviverei às suas pálidas ilusões de “marcar presença” no
mundo. Pense numa espiral azulada que se concentra num turbilhão. Pense na
força, voracidade e violência de um turbilhão faminto, cheio de facas
afiadas, que se desfaz aos poucos ou que desaparece inesperadamente. Um
turbilhão com todos os nomes possíveis, o seu, que me lê, e também o
daquele que neste momento me escreve. Trata-se, você bem vê, de uma leveza
estranha: capaz de operar um deslocamento nas coisas com sua palidez
azulada (a professora de história explicou um dia: as letras Ordem e
Progresso são azuis, como azuis são as ruínas de um hospício abandonado).
É uma leveza capaz de ferir, de conhecer seus ínfimos êxtases e de
manter-se em perplexidades passageiras. Uma leveza atravessada pela
multidão assombrosa de anônimos, apaixonados,
caçadores e visionários. E você (te ensinaram este nome) chama o turbilhão
de “meu íntimo eu”. Agora, se você não está entendendo aonde quero
chegar, pense na bandeira de uma nação qualquer, manchada com sangue de
ketchup, formando uma espécie de tapete vermelho de boas vindas na entrada
de um cemitério.
|