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O dom de ser observado
O sol te fisgou No flagrante delito De caminhar pelas ruas.
O sol tem dedos Azuis, e unhas afiadas No ofício das sanguessugas.
O sol se retorce por dentro Do meu couro cabeludo Como se o seu cérebro Fosse massa de modelar.
O sol é uma puta, ou melhor O sol é um olho vigilante Que joga o clarão sobre você, Imigrante ilegal, atrás Dos muros da cidade qualquer.
O sol está grudado em sua pele E nas paredes quentes do meu apartamento.
O sol torrou meus olhos E se esconde no capuz preto Porque sabe que é culpado Porque, no íntimo, Reconhece que o sol é um justiceiro Cheio de razão, apesar
De você ser frio e verde escuro Por dentro.
O sonho de Gregor 1
Anuncio ao interfone uma carta Num envelope tão branco, Quase translúcido.
Na carta, ainda que num texto Repleto de linhas negras De um plástico indecifrado Ofereço o seio canceroso De minha mãe:
A ser levado num tupperware, A qualquer funcionário dedicado E indiferente.
Ou quem sabe Ofereço trechos da minha carne Ao grande açougue Dos robôs sanguíneos -
Tanto faz, afinal Qualquer carne é branco-rosa E repulsiva, Como a dos peixes Quase podres entre as pedras De gelo.
O envelope, contudo, É quase translúcido E tem que passar pelas mãos De Oito-Olhos (desta vez Convertido numa velha de cabelos vermelhos, Responsável pela comodidade Do condomínio).
2
Oito-Olhos interrompe o laborioso serviço de faxinar o asfalto com torrentes de água, aperta a vista como o senhor de sua atenção que ele é, tenta desembaraçar o conteúdo, as linhas negras que amarram a carne da carta.
Oito-Olhos sorri com indisfarçável alegria:
Ali, Onde não sou digno De confiança É onde sou fraco. |
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Olá amigos, seguem notícias de Uberlânida.
E, Flávio, por favor, me diz aí seu endereço, só falta você pra eu mandar o meu quasecordel Apocalipse segundo o Cambuí!
é estranho porque, como tenho lido as coisas de vocês no meiotom e nos blogs, sinto como se a gente estivesse conversando. Será isso uma ilusão da internet? De qualquer jeito, seguem aí meus palpites nessa conversa.
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