| Meiotom - poesia |
|
|
|
anderson dantas |
ESPELHO
(um soneto
reflexivo)
A água é uma chama
molhada.
Estamos sós com
tudo aquilo que amamos.
NOVALIS
Já Anderson não sou!... À cova
escura
Meu olho espreita, evadindo-se
no vento
E à luz retorna, eterno fogo,
meu tormento.
Desfaço-me em lâmina, dor
vermelha e impura.
Ninguém distingue tal víbora
sombria
Foi carvão, carne ou maresia,
amada louca.
Mulher, cadela ou arpão, aguda
asfixia
Um cintilar rubente, um leve
pousar na boca.
Não me arrependo: nem pela má
rima
Minha mísera língua esquecida
em juventude
Que flores alaram-me a vida por
uns instantes?
Nenhum dos deuses eu fui... foi
a concretude
Apunhalando-me!... Ah! Não me
amem, mutilados
Levo meus versos, lavro minha
alma posta em tiras.
4
PUNHAIS
(um idílio de
sangue)
O mar é o campo, o campo,
mar.
Com quatro girassóis
eviscerados.
O vento degolado na
proa
O casco manchado de
escarlate.
Três cordas
rebentam
na música onde Orfeu
imerge.
Os olhos ardem de
sal
enquanto as pedras
ressoam.
VEJA A
CURVA
Veja a curva que faço ao longo
de teu caminho
veja que avanço como para um
vinhateiro guardado
por hirtas aranhas e sonhos do
medo purpúreo.
sinta meus longos dedos e
tímidos olhos chovendo,
Outono que o sol floresce com
guitarras e lâmpadas de pranto.
veja o esforço que faço ao
longo do teu caminho
ouça meu galope branco e minhas
crinas às costas
golpeando, martelo de vento e
assobios adejando
beba estes suores noturnos que
derramei em tuas pétalas,
ainda que estas planícies em
sonho, estes lábios no delírio.
e este vermelho e rijo corpo de
artelhos e mares de anil,
centopéia de fogo, monstro das
madrugadas febris
veja o sangue que alaga ao
longo do teu caminho
cheire o vapor de meus pêlos, o
hálito de minha flor,
e se deixe levar pelo meu
abraço de nuvens e beijos de seda.
sinta meu espesso lago em tuas
colinas chorando,
Outono que a distância
entristece com violinos e lâminas
[de pranto.
Veja a curva que morre ao longo
de teu caminho.
SÃO JOSÉ e
1996
Do meu
quarto
estrangulo a sombra.
Meu nome, sons de
mim
dédalo de sol.
Arrancai o ramo
verde
que
se afunda nos olhos.
Juntai os cabelos à
deriva
marulhar e sina. Eu
sonho
que
componho e arranho
dentro de Maio.
(poemas do
livro O Amor Duplo e o Desespero das Águas)
Anderson
Dantas, gaúcho, 38
anos.
Publicou os
livros SCHATTEN, Gravuras Nocturnas (poemas) e A Leveza de Leonardo (Novela) e
possui uma dezena de livros inéditos de poemas, contos e novelas. Na web possui
o blog: http://albumzutico.blogspot.com e participa do
blog e grupo de discussão
http://linguaepistolar.blogspot.com.
Atualmente mora
em Location:Florianópolis,
Santa Catarina, Brazil.
|
|