Meiotom - Contos


 

 

diogo costa

 

CIGARRO DE MACUMBA

 

 

 

Diogo Costa ¹

 

 

Ele saliva pelo que está detrás do cemitério; fresquinha, recém arriada, com um maço de Hollywood. Cofia o bigodinho e dá uma lapada na cachaça. O bigodinho está no aprumo pra mostrar que é homem; enxuga a boca na camisa, estilo grunge, Kurt Cobain, ex-cortador de cana; e bebe de graça. O maço de Hollywood é afanado também.

 

Já o devoto, todo de branco, assistia a tudo. E quis contenda: “Vamo amarrá camisa, seu porra!” Muito justo; sem cuspir o mentolado, cofiou o bigodinho e aceitou. Dobrou as mangas da camisa xadrez, rubro-negra, como se fosse um lenhador americano. Na verdade, era um rato, sem pêlos, com veias grossas e cheias de trombos; mas não iria caminhar dez passos de costas, com pistola, pra depois atirar. Desafio de caboclo é se amarrar na cauda, um baforando e o outro iniciando contagem, atados pela camisa. Então duas peixeiras tomaram fresca. Enferrujadas de salitre, respiraram. O som na bainha de couro foi azeite pros ouvidos no tango de macho: dois pavões inchados, girando como galos, procurando espaço pra furar carne. De longe escutavam um violino-serrote, riff de guitarra pra capiaus: era um sertanejo com seu rádio, no programa inusitado que tocava “Dark Entries” do Bauhaus. “Posso terminar o cigarro?”. Muito justo. Esperou solene, numa boa. A paciência foi obra do santo. Montou e fez de cavalo: de todo modo tragou o mentolado. Sorriu pela rixa prometendo vencedor; igualmente morto, e furado.

 

 

 

¹ Diogo Costa. Vive em Salvador. Autor, entre outros, de Gol De Dedão (Antologia De Contos Prêmio Waly Salomão, 2006) e Espírito De Porco (Antologia De Contos da Univap, 2005). Edita o blogue: http://mastigandolinguas.blogspot.com