RETORNO II
Fazer o que todos pensam e
não fazem, o retorno se faz leve aos que esquecem os
caminhos trilhados e se perdem em novas trilhas
desconhecidas em descobrimentos
ir embora aos poucos
no refazer as lembranças e desfazer o tempo passado
entre um ato e outro
desconsiderar as possibilidades nas
felicidades desencontradas onde estava; registrar a cena
sobre o muro divisório das duas vidas: a estrada se
sucede em esparramada terra sobre os ossos do ofício
desfazer o que chama tempo subdividindo-o em etapas
alternadas de ir e voltar,
enfatizar o ir, desdobrar
as voltas, tornar longe o que teve de início
em cada
pôr do sol ter em mente o cansaço do corpo, nada
ultrapassará a sua memória nem atrapalhará o momento em
que deitar o corpo ao relento e saber estar sozinho
sobre as vozes ouvidas, desconsiderar os verbos - ações
descabidas - e se distrair em adjetivos: o belo e o feio
justapostos em momentos
não voltar o corpo e seus olhos
diminuirão as imagens anteriores;
ir e voltar exige a
concentração possível, tratar igual as possibilidades e
retirar o escopo com que prenderá o corpo ao entrevisto: os
perigo permanentes das margens e orlas;
a lateralidade
envolve questões maiores na precisão com que se destaca aos
andares e andores de imagens esquecidas de suas sacralidades
desse momento em diante o perigo é pouco provável, você
estará à mercê do inconstante grito dos pássaros azuis - a
gralha na passagem do carro - que levam as sementes entre o bico
e a boca que se abre no grito; a semente fertilizará o solo
em outra planta;
na sua volta, plantação passada de árvores
daninhas a se esconderem, fosse a floresta a mágica razão de
o continente avançar em milímetros sobre a outra placa: os
avisos são luminosos em enganosos dizeres e figuras
refletir sobre o transitado caminho do desentendimento:
afinal, quem é você que pára sobre o acostamento e pede
carona ao norte e ao sul?
a perdição entra pelos ouvidos
em palavras impuras de certezas e o pedido de silêncio sobre
a vida atravessada ao lado claro da razão para ser alcançada
logo à frente ciente de que o aprisionamento é o maior
castigo ao que sente
aonde for, ter o sentimento aceso
do passo certo e o registro de cada aceno ou abraço colhido
pelo trajeto refaz o acontecido em filme caricato de canções
e sopros sobre o rosto,
a brisa encanta os poetas com o
balanço das folhas, das cortinas e dos extremos
ter como
companheiro na volta ao ciclo a anterioridade com que alimenta
seus menores anseios: retornar exige esforços continuados
e o cajado ajuda na caminhada;
nada dizer na chegada,
todos saberão dos seus motivos e compreenderão o seu
silêncio: o silêncio como bagagem.
(Pedro Du Bois, em POETAS EM OBRA, Volume
VIII) | |