Tal o vento
infante
arfante
arrogante
extravagante
maneiras de dizer que a vida
passou por aqui no sentido norte
e do sul trouxe o frio
o lamento
o tormento
com que os cavaleiros de antes
traziam suas sortes
e levavam o gado
o que restou do gado
em lombos de burros
tais os burros de carga
escorregando patas lisas
em territórios ásperos de
passagens dificultadas
de pedregulhos soltos
águas correntes
barros deslizantes
encostas íngremes
e passageiros tristes
tais as tristezas mercadejadas
nos postos de pesagem
onde se recuperavam as forças e
as vontades
decidiam que a caminhada
seguiria em frente
antes do próximo poente opaco em
fechamentos
repetindo trajetos
repetindo histórias
repetindo frios e chuvas
repetindo os meses anteriores
de onde vieram
e para onde foram
de onde voltaram
e onde ficaram os que morreram
nas quedas
nas tréguas
nas léguas não percorridas
das desgraças
tais as desgraças recomeçadas em
cada recrutamento
na ansiedade e nas lembranças
desmemoriadas das aventuras
antecipadas ao frio do corpo em
roupas não apropriadas
e o grito guerreiro dos que se
escondem em ecos das paisagens
tais as paisagens de destruidos
sonhos
na revoada das gralhas
empilhadas sobre a mesma árvore
debulhada em cada canto de mata
tal a mata fechada dos perigos a
rondar bichos
e peçonhas de destruídas vidas
em picadas
onde se afogam mulas carregadas
e homens desprezados em suas
moradas
suas namoradas
suas oradas
suas desmemoriadas
sinas reconstituídas
em sinais de saudades
riscados em troncos de árvores
em corpos de inimigos
em longas conversas
de finais de tardes
tais as tardes que refletem a
última claridade
onde se enxergam os passados
altaneiros
desproporcionais aos atos
praticados
tais as práticas deixadas em
orlas
em beiras
em desfiladeiros
em tocaias
em atalaias
de caboclos brancos
negros e mulatos
cabeludos
ralos fios
de cabelos brancos
escondidos sob a aba
do chapéu desabado
sobre o rosto
tais os rostos indefinidos em
desventuras
trazidos em olhos recém fechados
de mortes súbitas
em doenças corroídas
corrompidas
comidas entranhas
em tosses e sarcasmos
com que se referiam à própria
sorte
tal a sorte descolorida das
loterias não apostadas
em cartas mal escritas de
lamentos estéreis
das notícias não remetidas como
mentiras
dos tempos passados longe
ao longe
em longas caminhadas.
(Pedro Du Bois, em POETA EM
OBRAS, Volume IV)