Meiotom - poesia


 

título: tropeiros

Pedro Du Bois

 

Tal o vento infante
arfante
arrogante
extravagante
maneiras de dizer que a vida
passou por aqui no sentido norte
e do sul trouxe o frio
o lamento
o tormento
com que os cavaleiros de antes
traziam suas sortes
e levavam o gado
o que restou do gado
em lombos de burros

tais os burros de carga escorregando patas lisas
em territórios ásperos de passagens dificultadas
de pedregulhos soltos
águas correntes
barros deslizantes
encostas íngremes
e passageiros tristes

tais as tristezas mercadejadas nos postos de pesagem
onde se recuperavam as forças e as vontades
decidiam que a caminhada seguiria em frente
antes do próximo poente opaco em fechamentos
repetindo trajetos
repetindo histórias
repetindo frios e chuvas
repetindo os meses anteriores
de onde vieram
e para onde foram
de onde voltaram
e onde ficaram os que morreram
nas quedas
nas tréguas
nas léguas não percorridas
das desgraças

tais as desgraças recomeçadas em cada recrutamento
na ansiedade e nas lembranças desmemoriadas das aventuras
antecipadas ao frio do corpo em roupas não apropriadas
e o grito guerreiro dos que se escondem em ecos das paisagens

tais as paisagens de destruidos sonhos
na revoada das gralhas
empilhadas sobre a mesma árvore
debulhada em cada canto de mata

tal a mata fechada dos perigos a rondar bichos
e peçonhas de destruídas vidas em picadas
onde se afogam mulas carregadas
e homens desprezados em suas moradas
suas namoradas
suas oradas
suas desmemoriadas
sinas reconstituídas
em sinais de saudades
riscados em troncos de árvores
em corpos de inimigos
em longas conversas
de finais de tardes

tais as tardes que refletem a última claridade
onde se enxergam os passados altaneiros
desproporcionais aos atos praticados

tais as práticas deixadas em orlas
em beiras
em desfiladeiros
em tocaias
em atalaias
de caboclos brancos
negros e mulatos
cabeludos
ralos fios
de cabelos brancos
escondidos sob a aba
do chapéu desabado
sobre o rosto

tais os rostos indefinidos em desventuras
trazidos em olhos recém fechados
de mortes súbitas
em doenças corroídas
corrompidas
comidas entranhas
em tosses e sarcasmos
com que se referiam à própria sorte

tal a sorte descolorida das loterias não apostadas
em cartas mal escritas de lamentos estéreis
das notícias não remetidas como mentiras
dos tempos passados longe
ao longe
em longas caminhadas.


(Pedro Du Bois, em POETA EM OBRAS, Volume IV)