Meiotom - poesia


 

 

EDSON BUENO DE CAMARGO

 

teu desenho

 

teu perfil

risca a noite

em perfume que indica

tua sombra

quase tátil

pelo olfato dos olhos

 

com ouvidos ou sem

ausente a luz é quase o mesmo

e ainda assim busco teu desenho

com o feixe nervoso da ponta de meus dedos

 

mesmo que com a imagem lembrada

concebo cada detalhe

ciclos passados em turvas turmalinas

estas que emprestam sua cor à noite

 

 

 

abraço

 

quando fecho os olhos

um escuro sólido me envolve

confortável

como  abraço

                        de velha mãezinha

 

a qual abraça o filho retornado

depois de muitos anos de guerra

 

 

 

Goiás Velho

 

a velha

o cão

e o rio

 

a velha cozinha poesia na velha panela de cobre e faz doces

o cão dormita o sono do mundo

e o rio corre sem pressa para a eternidade

 

 

 

parte

 

onde em minha  índole.

se esconde o ser feminino

e que me fala esta parte

ainda obscura em mim

 

tenho aprendido

a ouvir esta voz quase calada

sussurro suave sublime

sob subjugo cruel e impiedoso

de patriarcados e opressões religiosas

 

mas sinto:

carrego mais da grande mãe

da terra que criou tudo e chama tudo de volta

do que tenho me apercebido

 

há uma geradora de início de tudo

há uma criadora  de mundos

há uma necessidade maternal

sob a pele grossa e dura

de criar a verdade com a palavra

palavra princípio feminino por excelência

pois as coisas se criam assim que nomeadas

 

a poesia

é a mulher onde está o melhor de mim agora

 

 

 

boa hora

 

abutres voam baixo

círculos perfeitos

matemáticos do ar e éter

constroem rotas magnéticas

onde o centro geodésico é a morte

 

é necessário morrer

para que nos visitem

estes anjos alados de negro

convidados de primeira e boa hora

 

nossos sonhos não tem a menor importância

nossas crenças de nada valem

também posses e poses não mais influenciam

 

para os que banqueteiam nossas carnes

todos somos iguais e requintado

bom alimento

 

a morte é a única real democrática

é anti-demográfica

é voltar aos nossos mais primitivos elementos

 

 

 

asas de anjo

 

livro com asas de anjo

traz palavras de ave

penas brancas ou azuis

poemas inflados de ar

palavras de peso menor

nunca chumbo, pedra ou dor

 

asas de morcego podem conter

a última luz do luar

flores de dente de leão (em fuga)

ronronados de gatos pequenos

canto do galo que acorda o sono

as coisas que foram esquecidas

 

um livro que voa à noite

tem que posar à tardinha

pôr-se a dormir em seu ninho

a digerir os sonhos roubados de véspera

 

 

 

pálpebra

 

a minha pálpebra esquerda

carrega o peso de uma casa

casa de amplos ambientes

salas e objetos em desordem

 

o peso cronômetro

aumenta ao movimento do ponteiro

a minha pálpebra canhestra

já desdobra

como um vício

 

porque a água que a casa traz

já comeu séculos de vento

e a chuva precipita à chegada da tarde

 

monjolos batem igual a um ponto

batuque de grão esmagado

ritmo sem pressa da farinha grosseira

das que os dias nunca terminam

e nunca ninguém passa fome

 

a pálpebra verga à noite

quando finalmente durmo

 

 

 

vísceras sentimentais

 

 

mulher que amo com as tripas

que teu amor me alimente

que se avolume no ventre

que se ruminem as renúncias

digira todas as dúvidas

e o amor seja longo e contínuo

 

mulher que amo com os pulmões

que se inflem em fogo a cada respirar

queimando cada gota de oxigênio

em tua homenagem

e este amor me deixe sem fôlego

e a cada beijo carbono

não me sufoques nunca

 

mulher que amo com o coração

que todo meu sangue não seja suficiente

que se esculpa com carne e gelo estrutura

das todas que se constroem em vermelho vivo

que seja corda incontrolável

de relógios que devoram o tempo

e ainda assim permanecer o amor

 

mulher que amo com músculos e tendões

que minha carne te vista no frio

e se não suficiente uses minha pele

cubra a tua nudez toda noite

que seja tão quente cobertor

que não mais sintas frio nunca

para que não te esqueças no claro

este amor

 

mulher que amo com o fígado

e sorvas bílis como prova de amor

amor cultivado em humores com ódio

até que os olhos se esverdeiem de vez

mas que adestres esta toda cólera que trago

porque a fêmea é a domadora do macho

e é teu ventre geratriz do universo

 

mulher que amo com o baço

e converta esta douçura em açúcares

que bebes com lábios ávidos

onde toda a dor não é amarga

e convertas todo fel que há bebido antes

 

mulher que amo com os rins

e produzo jóia elástica

pedras de calcita e sal

para construir castelos de sonhos

e dedico a ti todas as cólicas

e a tortura nauseante

de estar dependurado em parede

 

mulher que amo com a gônadas

e por ti imito Urano se necessário

e sem estas ainda sou teu escravo

mas se me preservas

serei de teus desejos criado

 

e contudo que sou um homem

de vísceras sentimentais

pois te amo com o corpo todo

além do sublime desejo

 

 

não sou mais sábio

 

minha mãe olha-me a face

veja que os fios de minha barba

imitam o algodão ao Sol

como teus cabelos

 

agora estou tão velho como tu

e no dia que mais quero os teus braços

sou tão pesado que nem posso me carregar

 

minha mãe

o tempo passou para nós

e não sou mais sábio que ontem

dos meus dias de herói

só carrego cansaço

da trajetória que sei

só o caminho dos astros no céu

à passagem do zodíaco

 

mas ainda posso ver o Sol nascer

pelo vidro de meus óculos

esquentar o frio da noite das canelas cansadas

na quenturinha do sentado na soleira da porta da rua

 

minha mãe posso dividir um sorriso

e te abraçar um abraço amigo

te recontar histórias e cantigas

antes que o dia termine para nós

 

 

Edson Bueno de Camargo nasceu em Santo André - SP, em 24 de julho de 1962, em uma noite de contingência; mora a partir de seu segundo dia de nascimento em Mauá – SP.

 Publicou: “De Lembranças & Fórmulas Mágicas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007; ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006,  “Poemas do Século Passado-1982-2000 edição de autor - Mauá - 2002; “Cortinas”, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi - Mauá - 1981; participou de algumas antologias poéticas.

Recebeu as premiações: 1º lugar nacional - 4º CONCURSO LITERÁRIO DE SUZANO – Categoria Poesia - 2008; 1º lugar do PRÊMIO OFF-FLIP DE LITERATURA – 2006 – categoria Poesia; 2º Classificado- X PRÊMIO ESCRIBA DE POESIA – 2008; 2º lugar com o poema “serpentário” e Menção Honrosa com o poema “esquisito” -  3º CONCURSO NACIONAL DE POESIA - COLATINA 2007 PRÊMIO “FILOGÔNIO BARBOSA”.

Participa do grupo poético/literário Taba de Corumbê da cidade de Mauá –SP.

 

Edson Bueno de Camargo

Rua José Cezário Mendes, 104 Vila Noêmia – Mauá – SP – Brasil.

CEP – 09370-600

correio eletrônico: camargoeb@ig.com.br

 

http://www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html

http://umalagartadefogo.blogspot.com/

http://inventariodn.blogspot.com/

http://www.eldigoras.com/eom03/indic/buenodecamargoedson.htm

http://www.gargantadaserpente.com/toca/poetas/edson_bc.php

http://www.pensador.info/colecao/camargoeb/

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=5443045