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Helena Albergaria e o teatro questionador da Companhia do Latão


*Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos


Desde criança, impulsionada pelo pai, um médico neurologista que adorava cinema e teatro, Helena Albergaria despertou sua paixão pela arte de interpretar.
Estreou profissionalmente ao lado de Gianfrancesco Guarnieri e Fernando Peixoto, passando a integrar, pouco tempo depois, a Companhia do Latão, fundada por seu marido, o diretor e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Sérgio de Carvalho, cujas montagens, sobretudo de Brecht, levaram-na a consagrar-se como uma das mais importantes companhias teatrais da cena paulistana.
No cinema, onde acumula cerca de duas dezenas de trabalhos, atuou , dentre outros, em Que Horas Ela Volta?, grande sucesso de público e crítica em 2015, e foi por duas vezes premiada, uma delas pelo curta-metragem  Um Ramo e outra pelo longa Trabalhar Cansa.


Quando a descoberta do teatro?
Muito cedo, ainda na infância. Meu pai adorava cinema e teatro. Eu, minha mãe e minha irmã íamos frequentemente ao CineSesc, em S.Paulo, com ele. E também ao Cineclubinnho que havia no Museu Lasar Segall. Mesmo formado em medicina (ele era neurologista), meu pai tinha uma excelente biblioteca, com muitos livros sobre cinema, teatro e literatura. Apesar de ter sido uma criança bastante tímida, desde pequena eu sempre adorei a ideia de poder me transformar em outra pessoa, de me por no lugar do outro. Quando eu estava no segundo ano da escola, a professora pediu que os alunos escrevessem uma redação e eu criei a Dona Rosa, uma cozinheira, e eu fui para a aula vestida como se fosse ela. Tanto a professora como os colegas adoraram. Também não posso esquecer das peças de teatro que eu fazia em família, apresentadas em minha casa, com as participações de minha irmã e de meus primos. Isso quando eu estava com mais ou menos 12 anos. Adulta, fui fazer o curso de teatro na Escola Macunaíma. Logo em seguida, fui indicada pelo Sérgio Corrêa para fazer Ardente Paciência, ao lado dos grandes Gianfrancesco Guarnieri  e Fernando Peixoto. Com eles, a quem devo minha estreia como atriz profissional, fiquei mais de dois anos viajando pelo pais.


E o encontro com a Companhia do Latão?
O Sérgio de Carvalho, diretor da Companhia do Latão, era muito amigo da Alessandra Fernandes, minha amiga e foi ela quem nos apresentou. Colaboro com o Latão desde o início, em 1996, e estreei como atriz em 2001, fazendo A Comédia do Trabalho. No Latão já fui bilheteira, figurinista e dramaturga.


Por que Brecht como autor central da Companhia do Latão?
Brecht é daqueles autores que olham a vida dialeticamente, o que é algo raro. Muitos artistas, mesmo aqueles que se intitulam de esquerda, não olham a vida dialeticamente. Sua dramaturgia não tem clichês maniqueístas e é de uma impressionante riqueza histórica, estabelecendo, inclusive, conflitos psicológicos extraordinários entre as personagens. Sintetizando, em Brecht a razão ilumina a emoção e vice-versa. Tennessee Williams, por exemplo, morreu estudando Brecht. E sempre digo que se pudesse imitar alguém, imitaria Brecht e Tchecov.


Que momentos merecem destaque na história da Companhia do Latão?
É quase um lugar comum dizer que tudo é importante, mas é verdade. A colaboração, por ser tão contínua e baseada mais na experimentação do que no acerto imediato, mistura as experiências. Muitas vezes,  uma cena criada anos antes é aproveitada em uma nova peça. Mas, das muitas histórias contadas, gosto demais do Patrão Cordial, na qual fiz uma adaptação muito freudiana da Eva, de Brecht,  na peça Os que Ficam,  na qual me envolvi muito com a dramaturgia e o figurino e ainda pelo encontro extraordinário com o elenco. Outra montagem foi o Círculo de Giz Caucasiano,  uma das peças mais amorosas que já fiz e pela qual fui indicada a vários prêmios, entre eles o Shell ,no Rio de Janeiro.


Como tem sido levar os espetáculos da Companhia do Latão para fora do eixo Rio-SP?
É surpreendente como temos um público enorme e entusiasmado em todos os lugares. Acho que dialogamos muito bem com as pessoas,  com gente que quer ouvir histórias que falem dos seus problemas e do seu tempo.  Por vezes, nos deparamos com públicos mais conservadores e ideologicamente avessos a nós, porém,  mesmo nesse embate, aprendemos muito.


Além do teatro, sua atuação no cinema tem sido intensa.  Ele é tão sedutor quanto o palco?
Para mim, o cinema é tão prazeroso quanto o palco ainda que com muitas diferenças. Entre curtas e longas metragens foram quase 20 filmes. Cada diretor tem um modo de trabalhar e tenho tido uma parceria intensa  com o maravilhoso Coletivo do Caixote, especialmente com o Marco Dutra e a Juliana Rojas, que eventualmente colaboram com o Latão. Recebi alguns prêmios pelo curta Um Ramo e pelo longa Trabalhar Cansa, dirigido por eles e representantes do Brasil, no Festival de Cannes. Atualmente estou em cartaz com o longa Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert, e rodei também o novo filme dela, em fase de finalização, Mãe Só Tem Uma . A Anna tem um sistema de direção baseado na improvisação, que é muito semelhante ao do Latão, então foi bem divertido de fazer.


Estar fora da televisão é escolha ou contingência?
Acho que um pouco dos dois. Nunca recusei, mas também nunca fui atrás. Tive uma experiência ótima com um especial para a TV Cultura, chamado Valor de Troca e, recentemente,  fiz o seriado Psi, muito bem dirigido. Gostaria agora de começar a fazer mais.


O quer fazer para levar o teatro ao interior do país?
Investimento e vontade de circular debatendo. Nós mesmos, sem dinheiro, viajamos algumas vezes para o interior, por exemplo, do Ceará. Já apresentamos nossos espetáculos em muitos assentamentos agrários. Os encontros e debates são sempre muito prazerosos,  mas necessitam de muita vontade e investimento da nossa parte. Viajamos muito pelos SESCS, com uma estrutura melhor. E é muito bom quando podemos conversar e aprender com o público. Algumas peças nascem desse diálogo, como, por exemplo , O Nome do Sujeito, estimulada por uma viagem que fizermos ao Recife.


Planos para 2016?
Muitos desejos certamente! Devemos estrear uma nova peça,  no primeiro semestre. Adoro esses começos em que as questões ainda estão bem abertas. Amo ensaiar, não precisa nem dar em nada.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo(USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestrando em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.