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Alexandra Baldeh Loras: a narrativa eurocêntrica e o racismo

                                                                      Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Mestra em Gestão e Mídia pela Sciences Po (Paris), Alexandra Baldeh Loras, ex-consulesa da França em São Paulo, é escritora, palestrante e consultora empresarial. Seu trabalho com líderes empresariais tem-se voltado, sobretudo, para a conscientização sobre diversidade de gênero e raça. Coautora de Gênios da HumanidadeCiência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente, fecundo estudo sobre a importância do continente africano no campo científico, suas reflexões em torno das mazelas geradas pelo pensamento racista são mais do que oportunas no atual cenário mundial, pautado, comumente, por radicalismos grotescos.

Como se constitui o pensamento racista?
O pensamento racista é de uma sociedade eurocêntrica, pois foram os europeus católicos que ganharam e que contaram a história, portanto eles são os vencedores. Desde a bíblia, se fala que o povo negro era uma maldição, os negros eram retratados como punição.O papa Nicolás V estabeleceu a pirâmide das raças e decidiu que os negros não tinham alma, como  forma de poder usar os negros como força de trabalho sem remuneração. Ou seja, uma manipulação econômica. E até hoje estamos dentro dessa narrativa, explorando a África de uma forma sutil, pois não chamamos mais colonização de países, no entanto, a Europa ainda explora a África e a inferioriza. Poucas pessoas viajam para a África ou questionam como é possível os pequenos países da Europa serem tão ricos. Riqueza vinda da escravidão, dos 400 anos de escravidão e dos 300 anos de colonização.

A que se deve a ocultação da civilização africana por pensadores ocidentais?
A série 13 Reasons Why mostra como o bullying pode levar ao suicídio. Ela mostra 13 pessoas que atacaram uma menina dentro de uma escola e a violência que este bullying pode trazer, do transtorno mental ao físico. Eu gosto de trazer a reflexão de que nascer negro em nossa época é nascer numa sociedade que faz um bullying generalizado, porque se você imagina um mundo inverso, é muito violenta a situação que sofremos, não é uma brincadeira. Somos vítimas e temos milhares de razões para chorar. O sistema é muito cruel e chocante. Imagine um mundo inverso, onde tudo que fosse feito pelos negros fosse considerado lindo, intelectual, maravilhoso, superior, com todas as referências históricas nos livros didáticos somente com negros. Se o ser supremo fosse negro. Se inventores, revolucionários, políticos, cientistas, fossem todos negros. Se a narração fosse afrocentrista. Se os programas de televisão e os desenhos animados tivessem apenas protagonistas negros, com a presença, de vez em quando, de brancos. Se os príncipes e rainhas fossem todos negros. Se a mulher branca fosse sempre a faxineira da novela e o homem branco sempre o safado e criminoso. Se a mulher branca fosse a amante super-sexualizada, aquela que destrói os casamentos dos ricos negros. Como seria esse mundo? Não seria humilhante e cruel, chocante? Essa é nossa realidade em 2017, num país como o Brasil, que tem a maior população negra do mundo, depois da Nigéria. Até Iemanjá foi embranquecida. É claro que ela é um orixá e é negra.

Quais as principais contribuições africanas no campo da ciência, tecnologia e inovação?
Quando comecei a fazer meu mestrado sobre inventores negros, na Universidade Saint Paul, descobri que a geladeira foi feita por um negro, assim como o marca-passo, a antena parabólica, o semáforo, o celular. Mexeu muito comigo, pois não tinha referências e isso foi apagado dos livros didáticos. Eu estava numa posição de exceção, estudando numa escola da elite, então isso mexeu muito comigo, de me dar conta que tinha uma dignidade negra, contribuições imensas de negros na modernidade. Então, fiquei chocada e decidi me dedicar a reequilibrar as verdades. O branco não é melhor do que o negro e o negro não é melhor que do branco. Os seres humanos são cheios de talentos e potenciais imensos. Se você olhar o Brasil, está se privando de um potencial imenso, de uma negritude que, infelizmente, não tem oportunidade, exceto no Carnaval. Mas se você pegar o talento que é colocado dentro do Carnaval, a partir da sua organização, a maior produção criativa mundial, no final fica claro uma coisa: se você olha esses talentos, se eles tivessem essa mesma oportunidade no resto do ano para mostrar sua logística e criatividade dentro da economia brasileira, o país seria seguramente a primeira potência mundial.

E a importância da África no campo da escrita e do ensino?
Basicamente as maiores bibliotecas encontradas no mundo foram na África, nas civilizações dos dogons, do Egito, da Alexandria e do Zimbabue, com milhares de manuscritos encontrados por lá e com vários alfabetos também, mas que não são divulgados. É dito que a transmissão africana foi oral, mas isso é uma grande mentira e traz consequências no desenvolvimento das crianças negras ao redor do mundo, porque 85% das crianças negras escolheram a boneca branca como linda e boazinha e a negra como a feia e mau, já que nossa sociedade é doente, já que quebra a autoestima do ser humano negro fazendo-o não se enxergar em nenhum papel de protagonismo, de liderança. E a ausência dessa liderança faz com que uma criança de cinco anos tenha uma baixa autoestima. Como ela vai conseguir conviver numa sociedade que a inferioriza de maneira sutil e subliminar. No Brasil, os negros consomem um trilhão e meio de reais por ano. São 120 milhões de negros no Brasil. São Paulo é a cidade mais negra do mundo. Sempre se fala que é Salvador, mas não é verdade. Salvador tem 80% de negros e São Paulo 40%, mas aqui temos 15 milhões de pessoas, então estamos perto de oito milhões de negros. Não há nenhuma outra cidade com tantos negros. Nem na África.

O comércio internacional nasceu no continente africano?
O comércio internacional nasceu também do continente africano, na parte de Tombuctu, no século XIV. Era uma das cidades mais importantes da rota comercial. O Brasil também pode se tornar primeira potência mundial, quando enxergar o poder do afro-consumismo, que é de 360 bilhões de dólares nos Estados Unidos. O que tem de se desenvolver no Brasil é a propaganda com negros, para os negros se sentirem parte, terem a dimensão de pertencimento. Hoje eu enxergo essa falta de pertencimento, de se reconhecer, por isso, desenvolvi uma plataforma, uma startup que se chama protagonizo.com, onde negros que falam inglês, francês e outros idiomas e são formados em boas universidades podem se cadastrar para o reequilíbrio dentro das empresas. Essa diversidade pode aumentar em 35% a rentabilidade da empresa, porque se você deixa apenas homens brancos que estudaram na FGV, PUC e Mackenzie juntos para falar com o verdadeiro público brasileiro, é muito difícil eles entenderem que a diversidade vai agregar valor. O fato de trazer mulheres, de trazer negros e de reequilibrar isso, provoca 35% de rentabilidade. Você cria, assim, maneiras diferentes de pensar, enxergar, deixa o analfabeto funcional se desenvolver e falar o que faz sentido para ele. É preciso lembrar que 70% da população brasileira que trabalha é analfabeta funcional, por isso, é importante pensar nessa população que tem outras maneiras de raciocínio.

A democracia racial é fato ou mito no Brasil?
A democracia racial no Brasil é um mito. Quando cheguei aqui, esperava encontrar 54% de negros em tudo, porque o marketing do Brasil no exterior é de que aqui há uma democracia racial e está tudo resolvido. Esperava chegar num país onde ligaria a televisão e veria protagonistas negros, veria desenhos animados e novelas com negros. Ao invés disso, só vi o negro no papel de serviçal ou criminoso. Eu vejo hoje que existe uma crise de confiança nas instituições políticas, nas empresas e nas marcas. Hoje, a uberizacão mostra o quanto as pessoas estão prontas para compartilhar e ter confiança através do Uber, Airbnb , Blá Blá Car . Dispostas a dividir, compartilhar, por isso, vejo no Brasil uma dimensão de inteligência emocional que pode reequilibrar rapidamente e o país se tornar um líder na transformação do mundo que queremos ver. Eu vejo o quanto estamos numa época de pós-escravidão, onde mesmo a favela é uma maneira de como os negros tem-se virado no pós-escravidão. Precisamos de justiça, equidade e equilíbrio. As cotas são importantes, mas talvez a palavra cota precisasse ser mudada para meta, precisamos ter metas de reequilibrar e ter uma verdadeira sociedade democrática. E uma verdadeira sociedade democrática seria ter 54% de negros, como o IBGE mostra, no Congresso Nacional, na mídia, no Senado, nos bancos, nas novelas, nos desenhos animados. E enxergar que sem as cotas vamos demorar 180 anos para reequilibrar de maneira orgânica nossa sociedade. Creio que em 20 anos de cotas, poderemos ter algum equilíbrio e dignidade. Quando vejo a eleição do Trump, vejo como boa noticia e por quê? Porque estamos enxergando o mostro no espelho. No Brasil, ficamos com um racismo cordial, achando que isso é um detalhe. Com as cotas nos EUA, conseguimos ter negros que têm poder econômico e poder na mídia, então, quando um policial mata um negro, a repercussão é mundial. Por isso, achamos que é pior lá, porém, no Brasil, a cada sete minutos é morto um negro. Há leis de embranquecimento na história do Brasil. Houve um genocídio planejado por tais leis. Se você for mãe de um menino negro, terá medo de deixá-lo sair na rua sozinho à noite, quando ele se tornar adolescente, porque ele pode ser morto por um policial.Hà uma frase que diz que “bandido bom e um bandido morto”. Até onde um “negro bom é um negro morto”? Quando se mata um negro na rua, as pessoas pensam que ele era traficante e bandido, ele não tem chance de defesa. É importante enxergar que o branco de hoje não é responsável pelo que foi feito durante a escravidão. Tampouco o alemão de hoje é responsável pelo o que aconteceu no nazismo, mas somos responsáveis por reequilibrar nossa sociedade, porque os brancos nasceram com representatividade, com privilegio de uma narrativa eurocêntrica e têm a chave do poder. Às vezes, é difícil para um branco enxergar que vai conseguir um trabalho ou alugar um apartamento na frente de um negro, sem se dar conta de que o negro sempre vai ficar atrás ou no final das opções.

Que antídotos contra o racismo podemos adotar cotidianamente?
O antídoto que podemos adotar cotidianamente contra o racismo é primeiramente entender que estamos numa obra em construção de uma sociedade mais justa. A primeira coisa que precisamos enxergar é o quanto somos todos racistas, todos preconceituosos e enxergar o mostro no espelho. Negar que não temos nenhum preconceito ou racismo. A verdade é que o sistema é tão racista e tão segregacionista que primeiro precisamos enxergar no cotidiano onde está o papel do negro na sociedade e parar de tratar o segurança e a babá com segregação. É importante darmos conta do quanto somos preconceituosos, por sermos formatados pela narrativa eurocêntrica, que inferioriza os negros. Esse é o primeiro passo, parar de negar o preconceito que temos dentro de nós.

*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.