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Amália Pereira e a dramaturgia contundente do Teatro Kaus Cia Experimental

                                                              Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Uma das fundadoras, ao lado do ator e diretor Reginaldo Nascimento, em 1998, do Teatro Kaus Cia Experimental, que tem se destacado por uma dramaturgia contundente, pautada por vasta pesquisa sobre a linguagem teatral, Amália Pereira firma-se como um dos nomes mais talentosos de nossa cena teatral e à sua sensibilidade aguçada alia-se uma estudiosa perspicaz dos novos rumos cênicos, responsável pelo intercâmbio com o que de melhor o teatro latino-americano e europeu têm produzido contemporaneamente.

Quando a descoberta do teatro?

Desde pequena, tive gosto e vontade de me enveredar na arte de representar. Na época de escola, adorava participar de peças. Mas, foi em 1992, que comecei meus estudos e prática no teatro, ainda no interior de São Paulo.

Em quase duas décadas de existência, o Teatro Kaus Cia Experimental montou alguns textos essenciais do teatro contemporâneo, de autores nacionais e estrangeiros. Deles, o que destacar?

Tivemos uma trajetória que começou com autores brasileiros, passando por autores latino-americanos e depois espanhóis. Acho que todos foram importantes nessa jornada, mas posso destacar o Plínio Marcos, o Jorge Andrade, o Fernando Arrabal e mais recentemente, a Angélica Liddell e o Santiago Serrano.

A preocupação em manter o debate sobre os rumos do teatro resultou na publicação dos Cadernos do Kaus. Que contribuição eles têm trazido para o questionamento teórico da dramaturgia contemporânea?

Desde que começamos a pesquisar a dramaturgia latino-americana, achamos importante compartilhar o material que catalogamos. Quando fomos contemplados com o Prêmio de Fomento para o Teatro, em 2006, com o projeto Fronteiras, o Teatro na América Latina, esse desejo foi concretizado e publicamos um livro com as três peças que montamos na época, uma argentina, uma venezuelana e uma chilena. O livro contém, além dos três textos traduzidos, outras ações do projeto, como debates com os dramaturgos encenados e leituras. Em 2015, quase dez anos depois do primeiro livro, ao sermos contemplados com o Prêmio Zé Renato para circulação da peça Hysterica Passio, da dramaturga espanhola Angélica Liddell, resolvemos publicar uma revista com o texto da peça traduzido, artigos de convidados sobre a dramaturgia da Liddell, o trabalho do grupo e a montagem, além de fotos da peça. Como se tratam de dramaturgias pouco conhecidas e ainda inéditas, achamos de fundamental importância poder compartilhar essas obras, por meio dos textos publicados, para que as pessoas tenham acesso a elas. Nosso desejo é, sempre que formos contemplados por algum edital, poder realizar as publicações dos Cadernos do Kaus e assim compartilhar e difundir nossas pesquisas.

Àqueles que acusam seu teatro de violento, a dramaturga espanhola Angélica Liddell diz: “Não existe um teatro violento. Mas a violência real.” Como foi o desafio de encenar Hyterica Passio, com seu universo obscuro da violência?

Foi um desafio fascinante! A temática da peça, assim como toda a obra da Liddell, vem ao encontro de temas que o grupo costuma abordar em suas montagens. Mesmo já tendo encenado uma obra da Angélica, foi um grande desafio montar e se apropriar do Hysterica que, como quase toda a sua obra, é muito autoral, escrita para ela mesma encenar.

Como se deu o encontro da Cia Kaus Angélica Lidell?

Em nossas pesquisas sobre dramaturgia de língua hispânica, logo após a montagem de O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal, descobrimos a obra da Angélica Liddell. Ficamos fascinados com a contundência e força de seus textos. Nossa primeira montagem de sua obra foi a peça O Casal Palavrakis, que estreou em 2012, no Sesc Consolação, e seguiu em outras temporadas, em 2013.

Em Hysterica Passio, Hipólito é violado por sua mãe, Thora. O conflito entre eles os leva a múltiplos sentimentos, como vingança, ódio, desejo. Como foi o processo de construção de personagens tão densas e de rara complexidade?

O fato de já ter montado um texto da Angélica Liddell, que também falava sobre essa relação abusiva dos pais com os filhos, tinha preparado o terreno, pelo menos no meu caso. No Hysterica, apesar de todo o peso da história, procuramos dar uma leveza na encenação, trabalhando com alguns contrastes, como o sublime e o grotesco, e isso ajudou também nas interpretações.

Segundo a antropóloga Mirian Goldenberg “No Brasil, o corpo da mulher é um capital, uma forma de inserção social.” Questões relacionadas ao corpo perfeito e ao envelhecimento são motivo de grande preocupação por grande parte dos atores. Elas são legítimas?

Infelizmente, essa cultura da beleza prevalece em nosso país, principalmente para as mulheres, e acredito que isso acontece em todas as áreas, não só com os atores. A mulher é a mais cobrada com relação à estética. Já para o homem, envelhecer é mais tranquilo. Em um de seus textos, Liddell diz: “meu corpo é meu protesto”, deveríamos ter o corpo como um elemento que grita pelo direito de se ser o que é. Envelhecer é da natureza humana, o corpo passa por essa mutação e se transmuta em desejo, é nossa arma para dizer não à violência e aos preconceitos e refletirmos sobre a sociedade que se consome em formas para se eternizar.

Para Stanislavski, “O ator deve ter por objetivo aplicar sua técnica para fazer da peça uma realidade teatral. Neste processo, o maior papel cabe, sem dúvida, à imaginação” Como é, para você, equilibrar esses dois elementos: técnica e imaginação?

Acho que são dois elementos que caminham juntos e são essenciais a nossa profissão. Acredito que um não funciona sem o outro, pelo menos para mim. A imaginação abre o campo sensorial, é como uma espada que atravessa o público e volta em nós atores em cena e vamos trocando imagens que iluminam o ato cênico sem nos perdermos na emoção. Aí entra a técnica que nos mantêm conscientes.

Atualmente, os espetáculos teatrais permanecem pouco tempo em cartaz. O cenário teatral é dominado por comédias e musicais. Como vê as leis de incentivo à cultura no país?

Acredito que as Leis de incentivo ao teatro, como o Prêmio Zé Renato e a Lei do Fomento, são de vital importância para a manutenção dos grupos de pesquisa com trabalho continuado, como Teatro Kaus. Sem elas e outras leis e prêmios, seria ainda mais complicado fazer teatro em nosso país, ainda mais um teatro experimental como o nosso, que aborda temas muitas vezes desagradáveis de ouvir e que não seriam absorvidos por patrocínios que buscam outros tipos de produções.

Desde o projeto de criação do Teatro Kaus Cia Experimental, em 1996, em São José dos Campos, com a montagem de Homens de Papel, de Plínio Marcos, são 20 anos de trajetória. Algum balanço a fazer?

São 20 anos de muita batalha, desde os primeiros cinco anos no interior, até a nossa vinda para São Paulo, há 15 anos. Acredito que tivemos uma trajetória consistente, como muitos grupos de pesquisa. Durante esse período todo, nos dedicamos a encenar obras contundentes e expressivas da dramaturgia nacional e de língua hispânica, investido muito suor e, por muitas vezes, recursos próprios para nos fazer ouvir. O desafio agora é nos redescobrirmos como grupo e encontrarmos novas possibilidades dramatúrgicas que possam dar conta do que queremos dizer. Seguir em tempos nebulosos, como o que estamos vivendo, é sempre um desafio a ser vencido dia pós dia. 

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.