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Anette Naiman e o teatro como independência, resistência e liberdade


                                                                        Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*

Formada em cinema e televisão pela Universidade de Tel Aviv, Anette Naiman fundou, em 2004, o Teatro Garagem, no pacato bairro paulistano de Vila Romana, com a proposta de fazer um teatro independente, libertário e transformador. O espaço firmou-se por suas pesquisas e experimentações cênicas fervilhantes, promovendo permanente debate em torno do fazer teatral.
Ao longo de 2016, sediou a Ocupação Plínio Marcos, com a remontagem do clássico Navalha na Carne e a estreia de O Bote da Loba, texto que o dramaturgo santista deixou inédito, ao falecer, em 1999.

Quando a ideia de fundar o Teatro Garagem?
A descoberta do teatro aconteceu de uma forma inusitada e inesperada. Eu fiz uma reforma no pé direito da garagem da casa, pois precisava abrigar uma sala de bagunça para minha filha e para meu filho, que estava a caminho, pois estava grávida na época. Na reforma, foi necessário construir um desnível no piso, para que o portão da garagem pudesse abrir.  Na hora eu achei que aquilo seria um estorvo, pois diminuiria ainda mais o pé direito do mezanino, mas quando ficou pronto, eu olhei e disse para mim mesma: tenho um palco dentro de casa. Daí para frente, fui movida por um sentimento muito forte de voltar ao palco e criar ali um espaço para pesquisas, que é a essência da minha formação de atriz. O Teatro Garagem se tornou um projeto de vida, desde que resolvi assumir que tinha, de fato, um espaço cênico dentro da minha casa. A princípio, foi difícil a divulgação, pois como eu não tinha alvará de funcionamento, por conta do pé direito, apenas sete centímetros abaixo do que a prefeitura me autorizaria para funcionar. Mas resolvi mesmo assim continuar em frente e assumir o espaço como clandestino. Assim comecei, aos poucos, pensando nos meus projetos pessoais e no que dependeria mais de mim como responsável por essa empreitada, pois tinha receio de envolver terceiros no sonho, que ainda era só meu. No ano de 2004, convidei um amigo para me dirigir em Apenas Um Saxofone, conto de Lygia Fagundes Telles, peça que inaugurou oficialmente o Teatro Garagem.  Comecei a mergulhar numa pesquisa pessoal sobre a literatura feminina e através de Lygia, cheguei a uma de suas melhores amigas, a escritora Hilda Hilst. Na época da estréia do Saxofone, conheci também o músico de improvisação livre Antonio Panda Gianfratti e acabamos pensando em trabalhar juntos. Foi o próximo passo para a pesquisa, que dessa vez uniu o teatro e a música de improvisação livre, dentro do nosso projeto conjunto, a interação das artes. Descobri  um compêndio das  primeiras poesias de Hilda Hilst, escritas quando ela estava com 21 anos, no qual ela indicava que fossem lidas com acompanhamento musical. Foi a deixa perfeita para iniciarmos nosso trabalho. E assim, em 2008, estreamos nosso Baladas, onde a poesia era lida com o acompanhamento do design sonoro da música de improvisação livre, que cria ambientes sonoros perfeitos para a atmosfera da poesia hilstiana. Depois de Apenas um Saxofone, com que fiquei em cartaz por quatro anos, conheci o diretor Darci Figueiredo, que escreveu, em 2010, uma obra para ser encenada em nosso teatro, Os Imprestáveis, um texto que ressaltava a direção cinematográfica e o trabalho também cinematográfico dos atores, priorizando o olhar do público no intimista Teatro Garagem. Ficamos em cartaz por três anos. Em julho de 2011, resolvi dar a grande virada, me mudei da casa para transformá-la definitivamente num espaço cultural. Assim, abri, pela primeira  vez, o Teatro Garagem para um projeto convidado, o Sem Palavras, baseado num texto de Mia Couto, dirigido por Erica Coraccini, que utilizou todo espaço cênico da casa para esse espetáculo itinerante e contou com a presença do autor Mia Couto na plateia. Ainda em 2009, idealizei a primeira Mostra de Solos do Teatro Garagem. O ator Pascoal da Conceição abriu a mostra com seu solo Malefícios do Tabaco. Roberto Borenstein veio com seu Convite para um Café. Vinicius Piedade com Cárcere e Clovys Torres com Pirandello. Percebi que poderia idealizar vários projetos conjuntos nessa casa e, a partir de 2013, quando consegui o alvará provisório, foi o que fiz. Criei também o projeto Drama de Garagem , onde realizamos diversas leituras dramáticas pelos cômodos da casa. Em 2014, após conhecer um grupo de dramaturgos, tive o insight de promover a Mostra Arquitetura da Dramaturgia, com autores convidados a escrever textos para os diversos ambientes da casa. Foi um projeto lindo, com quatro autores participantes do Centro de Dramaturgia Contemporânea, que ocuparam quatro ambientes: garagem, sala de estar, jardim e cozinha, com seis atores atuando. Em 2014, após conhecer um dos filhos de Plínio Marcos, o Kiko Barros, quando fui tratar dos direitos autorais para montar Navalha na Carne, resolvi fazer a I Ocupação Plínio Marcos, com o projeto Nas Quebradas do Mundaréu, uma roda de samba, idealizada por Kiko Barros, que contou com o grupo Kolombolo Dia Piratininga. Depois disso, montei Navalha, com direção de Marcos Loureiro. Logo em seguida, realizei outro projeto, idealizado por mim e por Ernesto Hypólito, ex-diretor e criador do programa Metrópolis, da TV Cultura, o Concerto Teatro, proposta de encenação das obras dos grandes mestres da música clássica, com execução ao piano em tempo real. Começamos com Chopin, por George Sand, e inauguramos a sala de estar da casa como um ambiente que se propõe também à execução de concertos. Em 2016, ano de celebração dos 80 anos de Plínio, reestreamos Navalha na Carne e montamos seu último e inédito texto, O Bote da Loba, escrito dois anos antes da sua morte. Não posso igualmente me esquecer das parcerias com Eliete Cigarini, que ministrou dois cursos sobre Shakespeare, resultando nas montagens de Romeu de Julieta e Sonhos de uma Noite de Verão. E Cris Miguel, que inaugurou nossa programação infantil, com seu projeto Arte e Encantamento.

Como foi atuar em Os Imprestáveis, com texto e direção de Darci Figueiredo, que afirma trabalhar com o método darcisista, no qual não existem ensaios exaustivos e repetições intermináveis. E que é, segundo ele mesmo diz, o teatro da neurociência?
Darci Figueiredo foi ator e se consagrou como o Mercúcio, de Romeu e Julieta, na montagem dirigida por Antunes Filho. Após seu trabalho com Antunes, resolveu criar sua própria metodologia, que contraria, de certa forma, tudo que aprendeu com seu antigo diretor. Por isso, diz que seu método darcisista é o anti-método. Ou seja, não há necessidade de ensaios exaustivos. Darci trabalha com um roteiro de mapa de desenho, onde podemos apenas traçar nossa movimentação em cena, criando um mapa dessa movimentação. Prova que não precisamos repetir física e exaustivamente a mesma cena para termos consciência do que ela necessita para ser criada. É um método inovador nesse sentido e de fato funciona. É uma nova forma de trabalhar o ator, que nega a repetição e parte para a simplicidade, onde sua inteligência e sensibilidade contam muito. Darci trabalha muito com o conceito da foto, o olhar do ator de fora para dentro da cena, a percepção cinematográfica do enquadramento do ator em cena. Realmente um teatro libertador e ao mesmo tempo de profunda autoconsciência. Não apenas o diretor dirige, mas o próprio ator também se auto-dirige, por pensar sempre na sua fotografia em cena. Além disso, não prega trabalho vocal ou aquecimento vocal antes de entrar em cena. Diz que temos de entrar como se estivéssemos chegando da rua. Quebra completamente com várias tradições do teatro clássico, inclusive a questão do figurino, que pode ser trocado a cada apresentação, de acordo com o estado de espírito do ator naquele dia.

Stanislavski  dizia: “Acima de tudo, procurem na arte o melhor e esforcem-se por entendê-la.” O que é para você esse melhor?
Para mim, o melhor na arte é o caminho do auto-conhecimento e da auto-transformação que ela pode gerar, tanto em mim como ser humano e artista, como naqueles que irão partilhar dessa jornada que a arte proporciona.


Em uma de suas entrevistas você afirma que o Teatro Garagem “...é um lugar que imprime em cada metro quadrado uma arte pura, de qualidade...”O que entende por arte pura, arte de qualidade?
Parafreaseando Ferreira Gullar: “A arte é a alquimia que transforma tristeza em poesia...” Arte pura para mim é a arte que transforma o ser humano num ser  melhor. Uma arte pura é a que corrobora para a transformação de cada um que entra em contato com ela, é uma arte que contribui para a nossa evolução espiritual como seres humanos nesse mundo. Arte pura é a arte que tendo como ponto de partida o coração do artista, alimenta a nossa alma e assim sendo conspira a favor da evolução espiritual da humanidade.

E o mergulho no universo de Hilda Hilst, em Baladas, como aconteceu?
Hilda Hilst foi rotulada, por muito tempo, como autora pornógrafa apenas. No entanto, esse lado de sua obra, na verdade, foi uma forma de chamar atenção para sua escrita, já que ninguém a editava ou lia. Essa opção foi seu grito de guerra para os editores que a evitavam. Ao entrar em contato com a obra dela, me deparei com a sua poesia primeira, a que escreveu no auge dos seus 21 anos e ali percebi a sua essência, uma poeta de rara simplicidade, verdade, delicadeza e contundência, sua marca registrada até o fim de sua vida. Nela encontrei a semente da excepcional poeta que Hilda se tornaria anos mais tarde. Tive a grande sorte de conhecer Mora Fuentes, que foi seu discípulo e me apoiou na pesquisa da obra de Hilda. Foi o primeiro espetáculo performático invisível do Teatro Garagem, a partir da leitura de poemas que retratam o amor, a solidão, a fé em Deus e nas amizades.


E viver os conflitos da prostituta Neusa Sueli, em Navalha na Carne, foi um desafio especial?
Um amigo, que sonhava montar Navalha e estava há muitos anos fora do Brasil, me procurou e me propôs montar o texto no Teatro Garagem. Eu realmente não imaginava que seria o começo de um projeto de longa duração com a Ocupação Plínio Marcos.  Percebi que eu tinha muita coisa em comum com o artista resistente, andarilho e libertário que foi Plínio Marcos, uma figura que lutou bravamente, com muita humildade e persistência, pelo reconhecimento da sua obra. O encontro com a obra de Plínio foi um grande presente. Poder encenar Neusa Sueli, representante máxima de sua dramaturgia, é um grande privilégio para uma atriz. E para mim foi um grande desafio. Gosto de acreditar que foi Plínio quem me escolheu e escolheu o Teatro Garagem como representante e novo reduto de sua obra, pois assim como ele e sua obra, nossa premissa sempre foi a independência, a liberdade de criação e a resistência do teatro como ferramenta fundamental para a transformação e mudança efetiva da sociedade e de seus valores. Oxalá Plínio me permita e eu possa, por muitos anos, sediar sua grande obra.

Algum outro texto de Plínio Marcos na mira para montar?
Ainda não sei exatamente que outro texto de Plínio montarei em 2017. A princípio, pretendo continuar com a dobradinha Navalha, que comemora 50 anos,  e O Bote, que completa 20 anos. Mas tenho profundo desejo de montar todos os textos dele, fazendo do Teatro Garagem um pólo constante e atuante de montagens de suas obras, mais atuais do que nunca, mais necessárias do que nunca em tempos tão retrógrados e intolerantes.

E a experiência de montar O Bote da Loba?
O Bote da Loba é o último texto de Plínio Marcos, escrito em 1997, dois anos antes da sua morte. Foi um presente recebê-lo das mãos do seu filho e meu parceiro Kiko Barros. Ao ler O Bote, percebi que se tratava de um texto autobiográfico, pois retrata o encontro entre uma taróloga e uma cliente em busca de ajuda. Plínio viveu seus últimos anos de vida lendo tarô.  Percebi que seria uma grande homenagem a ele poder levar sua história pessoal aos palcos, pois o texto ainda era inédito em São Paulo. Plínio tinha um lado místico e eu sou extremamente mística, há anos autodidata na leitura de tarô. Digamos que foi um belo casamento perceber a sintonia espiritual com Plínio. A taróloga da peça é o alter ego feminino de Plínio. Poder encenar um texto tão contundente, que trata do prazer feminino e seus tabus em nossa sociedade machista e patriarcal é algo maravilhoso. Poder dar voz às personagens de Plínio é um grito de alerta. Seu texto de despedida foi uma ode às mulheres, à admiração e respeito profundos que nutria por elas.

Quais os maiores desafios para manter vivo o Teatro Garagem? As políticas públicas ajudam a viabilizar projetos como o dele?
Em primeiro lugar, a formação de público sempre foi um grande desafio para manter nosso teatro vivo, pois ele está fora do circuito mais central dos teatros da cidade. Eis um desafio que carrego há 12 anos, contando com a divulgação dos meios de comunicação que sempre me apoiaram. E também tentando amealhar os moradores do bairro. Sempre fui independente, nunca contei com nenhum tipo de política pública para viabilizar meus projetos. Quis ser independente para criar no tempo e espaço necessários. Talvez hoje, após 12 anos de existência, eu possa tentar algum edital, pois agora tenho estabelecida a história de um espaço de arte e cultura na cidade de São Paulo. Sempre tirei dinheiro do bolso para viabilizar minhas montagens, ainda que de forma reduzida, com produção mínima, onde com muito pouco conseguimos viabilizar uma arte criativa.

Você é uma atriz essencialmente de teatro. O cinema e a televisão não lhe interessam ou o que propõem não vem de encontro ao que busca?
Sim, toda a minha formação vem do teatro. Estudei cinema e televisão na Universidade de Tel Aviv, em Israel, e lá, dentre alguns trabalhos, fiz uma participação num filme, ao lado da filha de Gregory Peck, Cecilia Peck.Foi minha estreia no cinema. O cinema sempre esteve presente em minha vida. Já fiz alguns curtas-metragens experimentais e uma participação no longa 1999, dirigido por Toni Venturi. Eu adoraria poder desenvolver um trabalho mais aprofundado no cinema e aguardo esse momento. A televisão nunca foi um objetivo, enquanto o teatro sempre foi uma grande paixão, mas não descarto a possibilidade de nenhum veículo que possibilite a expressão do ator. Como atriz, acredito que possamos e devamos ser livres para criar em toda e qualquer circunstância, afinal, somos antenas transmissoras do nosso tempo e temos a missão primordial de dizer algo urgente a alguém. A prioridade do artista sempre será atingir o público em sua alma, mas como atingi-lo pode ser uma escolha pessoal ou circunstancial.

Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.